* “Por que não sou mais espírita” ou “o que os espíritas podem aprender dos budistas”*
29 Janeiro, 2007 at 10:26 pm | In * Sobre a filosofia espírita * | Leave a CommentPor Leticia Rothen Sato
Fui/sou espírita há 10 anos. Sou, porque não posso simplesmente renegar algo que deu a minha vida a base para pensar de modo mais coerente e consistente. Que me deu a capacidade de organizar meus pensamentos em torno de uma ordem consoladora. Que me deu um sentido, enfim.Fui porque, após um ano de longas e dolorosas crises de crescimento, percebi que o meu pensamento estava organizado demais. Que eu estava presa em mundo mental, ideal, do qual não queria sair mas o qual, ao mesmo tempo, me esgotava e me gerava dor. Por mais que já fossem pensamentos positivos, eles fervilhavam em minha mente e me tomavam toda a energia que eu precisava ter para – AGIR….
Assim, não é “culpa” do movimento espírita, não tem a ver com nenhum revolta ou vontade de inovar de minha parte. Tem a ver apenas com a compreensão de que vivo um momento que não mais se encaixa naquilo que a doutrina, ainda divina e maravilhosa pra mim, apresenta. Na verdade, não tem nem a ver com o conteúdo da doutrina em si. Mas com a forma como este conteúdo é transmitido…
Eu, como espírita, pensava demais. Discutia teoria demais. Falava demais. E também lutava muito. Contra os obsessores, contra o mal, contra os pensamentos negativos, contra religiões atrasadas, etc…E quanto mais lutava, mais ficava presa a tudo isso.
Hoje eu acredito que, quanto mais lutamos contra os pensamentos, mais fortes eles ficam. Quanto mais queremos dominar o “mal” em nós, maior e mais assustador ele fica. Porque quando você luta contra algo, não quer reconhecer que aquilo está dentro de você. A gente luta contra algo que consideramos fora de nós, que não pode entrar em nós. E quando fazemos isso, não percebemos que bastava aceitar para a “coisa” ir embora, ou se transmutar.
Descobri que os pensamentos negativos ou o que for não podem ser nossos inimigos. Eles são parte de nós. Temos apenas que reconhecê-los, aceitá-los e perceber que nós somos mais do que eles, somos mais fortes e que eles não podem nos dominar.
Simples assim. Olhar para o pensamento. Identificar qual foi sua raíz. Perceber que do mesmo modo que ele veio, ele vai embora. E do mesmo modo que veio um pensamento negativo, pode vir tambem um positivo. Basta apenas respirar e se acalmar. Não achar que é o final dos tempos, que os obsessores agora entraram na nossa cabeça, que o pecado nos tomou, ou etc….
Aqui entra o budismo pra mim: “O Buda propôs a prática do pensamento correto. Durante a meditação sentado ou durante os horários de trabalho, pensamentos negativos podem surgir, mas você não se permite ser uma vítima de pensamentos negativos. Você somente permite que eles venham e você os reconhece. Isto é um pensamento, e este pensamento é apenas um pensamento; não é a realidade. Mais tarde, você pode escrevê-lo em um pedaço de papel e olhar para ele. Quando você é capaz de reconhecer seu pensamento, você não mais é vitima dele. Você é você mesmo, mesmo que estes pensamentos sejam negativos”.
“Quando você reconhece um pensamento, você deve sorrir e se perguntar, em qual “campo” este pensamento foi produzido: no do medo, da raiva, das preocupações, dos mal entendimentos? Você não precisa se esforçar tanto assim. Você apenas sorri para seu pensamento, e agora você reconhece que o pensamento surgiu do território da percepção errada, do medo, raiva ou inveja. Quando você é capaz de produzir um pensamento que vai na direção do entendimento e do amor, na direção do pensamento correto, este pensamento vai ter um efeito imediato na sua saúde física e mental. E ao mesmo tempo, terá um efeito na saúde do mundo”….
Palavras do grande mestre Thich Nhat Hanh. Com quem estou aprendendo a prestar atenção…
LEIA OUTROS TEXTOS SOBRE O ESPIRITISMO:
Transmissão da Doutrina: evangelizar ou catequisar?
29 Dezembro, 2006 at 10:25 pm | In * Sobre a filosofia espírita * | Leave a Comment
Você sabe a diferença entre catequisar e evangelizar? Ambos os termos referem-se à ideia de instruir em matéria religiosa, ou seja, pregar uma determinada doutrina religiosa. Mesmo que na prática os termos possam ser equivalentes, podemos perceber uma sutil diferença entre eles tomando como referência uma diferença proposta por Emmanuel entre as tarefas de doutrinar e a de evangelizar.No livro “O Consolador”, Emmanuel aponta para a diferença entre estes últimos. Afirma que, para doutrinar basta o conhecimento intelectual dos postulados do Espiritismo; para evangelizar é necessário a luz do amor no íntimo. Na primeira, bastarão a leitura e o conhecimento; na segunda, é preciso vibrar e sentir com o Cristo“.
Neste parágrafo encontramos resumida uma discussão bastante profunda e relevante, pois está na base da nossa atuação como educadores da infância espírita.
O que implica realmente dizer que estamos evangelizando? O que é este “amor no íntimo” que Emmanuel coloca como essencial para o trabalho educativo? Mas não é bem isso que estamos tentando aprender aqui na Terra? Como então poderemos tê-lo dentro de nos, como premissa ao trabalho, se é este mesmo trabalho que nos permite desenvolvê-lo?
Talvez uma forma de compreendermos o que significa este amor, esteja na forma como nos colocamos diante das crianças, decorrência da nossa própria forma de viver e ver o mundo e os seres.
Explica-se: o modo como lidamos com nossos problemas, a forma como lidamos com os problemas dos outros, a frequência com que refletimos a respeito de nos mesmos e nossas atitudes, nossa capacidade de aceitarmos o erro e superarmos a culpa, etc…, tudo isso está envolvido no momento em que nos relacionamos com as crianças. Mais do que palavras e teorias, conceitos e “morais da história”, transmitimos aquilo que realmente sentimos a respeito de tais palavras e teorias, aquilo que realmente vivemos e compreendemos na prática. Isto é uma parte daquele amor a que Emmanuel se refere: um conhecimento vivido e sentido.
Ou seja, a questão não é já sermos perfeitos e totalmente amorosos, mas estarmos verdadeiramente em busca daquilo que estamos falando. A verdade, mais do que um conjunto de princípios e dogmas, é aquilo que faz a nossa alma vibrar, é aquele entusiasmo que cativa quem estiver por perto. Isso é evangelizar!
Evangelizar é cativar o outro ser para um modo de viver e pensar que liberta. Mas isso só pode ser feito se aquele que o faz, realmente se sente cada dia mais livre e feliz com tal modo de vida.
Nunca poderemos convencer alguém verdadeiramente apenas por jogos de palavras. Podemos sim nos fazermos admirados, conhecidos, afamados por termos o “dom da fala” – mas este é um convencimento que se fixa apenas ao nível do intelecto. Voltando para casa, os ouvintes logo esquecerão daquelas “belezas” que foram apenas faladas.
Ao contrario, quando colocamos “verdade” em nossos sons, aquele que ouve se sente tocado por uma brisa de esclarecimento, como se aquele fosse um momento de descoberta de si mesmo. Como se, aquele modo de vida e aquele conjunto de conhecimentos realmente valessem a tentativa…
E como trazer isso para o relacionamento com as crianças?
Com as crianças há mais necessidade ainda de fazermos vibrar em nós as fibras do entusiasmo e da vivência. Pois elas sentem quando alguém realmente tem prazer em fazer algo, quando acredita naquilo que faz e fala, quando realmente se coloca como alguém que está ali para trocar suas experiências e apresentar um caminho seguro. Enfim, diante de alguém que educa e não apenas instrui….
EDUCAR E INSTRUIR
Educar é mais do que instruir. Instrução resume aquela primeira forma de transmitirmos um conhecimento, que se prende ao nível intelectual. Educar refere-se à segunda.
Para o codificador da doutrina espírita, educador, a educação vai muito além da simples instrução: ela é uma ciência e uma arte. Ciência de observação e constante pesquisa; arte de formar os homens – trazendo a tona os germes de virtude e abafando os germes do vício. Diante disso, podemos dizer que existem dois aspectos que devem estar presentes em nossa prática educativa:
1) a capacidade de nos tornamos facilitadores do aprendizado dos seres – na medida em que já trilhamos um caminho e podemos passar adiante nossos sucessos e aqueles roteiros que consideramos seguros, na forma de conteúdos intelectuais;
2) a capacidade de sermos instrumentos para o despertar dos seres, na medida em que o caminho trilhado por nós nos trouxe uma carga só nossa de aprendizados emocionais, que nos permitem compreender e atender, com nosso coração, os seres que se encontram próximos. Neste caso, o aprendizado se dá de forma indireta, não intelectual, mas através das vibrações que exteriorizamos, que falam daquilo que conquistamos verdadeiramente.
Para que estes dois aspectos possam estar simultaneamente presentes em nossa ação evangelizadora, devemos estar atentos não apenas aos conteúdos que devemos dominar ou sempre buscar conhecer mas também à nossa postura diante deste conhecimento e sua transmissão. Ou seja, devemos ter em mente quais nossos objetivos com nossas ações: queremos ser facilitadores do aprendizado de seres, estimulando seu pensamento, sua reflexão, auto-crítica e espírito investigativo ou apenas estamos querendo passar adiante conceitos que aceitamos como verdades (e que muitas vezes nós mesmos não refletimos nem vivenciamos)? Esta segunda postura traz em si, muitas vezes, um medo do educador de questionar demais, posto que pode colocar em xeque suas próprias “verdades”.
Vemos com isso que o processo educativo coloca uma condição básica àquele que pretende realizá-lo: a constante busca, o constante questionamento individual a respeito de si mesmo, de suas crenças e ações, enfim, a renovação ininterrupta. Só assim seremos capazes de permitir isso às crianças. Pois se nós mesmo não somos “pensadores livres” como queremos tornar tais as crianças?
PENSAMENTO LIBERTÁRIO
Assim, uma questão que se coloca de forma prioritária é: qual minha postura diante da Doutrina Espírita?
Ela é para nós apenas um conjunto de dogmas e princípios que somos obrigados a seguir apenas para fugir da culpa e do medo da punição ou uma filosofia libertária, que abre nossa mente e nos permite viver sem mais entraves e desgastes gerados por este medo e pela ansiedade de sempre termos de acertar?
Como já dito, não é possível transmitir liberdade se não somos livres, verdade se não acreditamos, fé se não vivemos. Até que ponto a Doutrina mexe com nossa intimidade e nos faz buscar a cada dia a felicidade e a paz reais? Somos “verdadeiros espíritas” no sentido de Kardec, daqueles nos quais “os princípios da Doutrina fazem vibrar fibras que nos outros se conservam inertes“? Aqueles que empregam esforços para se domarem e por desligarem-se de seu horizonte limitado – algo, afirma Kardec, que “sempre o conseguem, se tem firme a vontade“?
Assim, ser um verdadeiro espírita, e consequentemente, um educador por excelência, não é ser perfeito ou já ter desenvolvido todos os aspectos do amor. É, isso sim, buscar, e buscar sempre, a auto-superação, a vitória de si mesmo. Alegrar-se com cada passo dado, por menores que sejam. Perdoar-se e assumir de vez sua imperfeição, abrindo caminho para o erro e para a reparação.
Tal comprometimento consigo mesmo permite que o evangelizador desenvolva uma prática libertária e leve mas ao mesmo tempo firme e disciplinadora. Permite que transmita a Doutrina de forma menos dogmática e mais reflexiva.
Neste sentido, é interessante a proposta desenvolvida pela educadora Rita Foelker no sentido de questionar certas atitudes que tomam a transmissão do conhecimento espírita de forma “bitolada e fanática, como se apenas visássemos transmitir um conjunto de princípios dogmáticos e interpretações de textos”. Para a autora, tal educação não pode pretender apenas “aumentar o grupo das pessoas que comungam nas mesmas crenças, nem encher os Centros de espíritas” mas sim “desenvolver o Ser humano integral, possibilitando o desabrochar de todos os potenciais do espírito, sejam intelectuais, afetivos ou morais” e “abrir as portas do autoconhecimento e do conhecimento das leis da vida, para que daí resultem atitudes mais coerentes com as finalidades evolutivas da existência, em todos os sentidos”.
Consequentemente, a prática de ensino do Espiritismo, não só para as crianças, como para jovens e adultos, encontra semelhanças com o ensino filosófico, na medida em que:
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o Parte de questionamentos e hipóteses, buscando raciocínios e argumentos científicos que ajudem a chegar a conclusões;
-
o Pede reflexão, estudo, aprofundamento e imparcialidade na análise dos assuntos;
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o Não exclui possibilidades, nem limita a liberdade de pensamento devido a concepções religiosas quaisquer.
Nesta perspectiva,
“(…) Não se passam informações simplesmente assumidas como verdadeiras e ponto-final, mas estimula-se o diálogo. Promove-se a interação, forma-se um grupo de investigação e busca da verdade, em que o aprendizado e o prazer da descoberta são simultâneos. Não se teme dúvida ou contestação, aproveitando as controvérsias para retomar os argumentos e reforçar nossa fé no que acreditamos. Torna-se o aluno agente do seu aprendizado, permitindo que construa sua visão de mundo e expresse seus conteúdos e opiniões com segurança e sinceridade”.
Desta forma, devemos ter em mente em nossa atuação a essência da atitude filosófica, que é a de compreender o sentido e as conseqüências da realidade. Lembrando ainda que “as crianças são filósofas espontâneas. Não precisamos lhes impingir um olhar admirado e curioso perante a vida, porque querem, com entusiasmo, saber o que são as coisas e porque elas são assim e não de outro jeito”.
Tratada desta forma, a filosofia espírita pretende “ajudar crianças e jovens nesta sua busca natural, agregando um método de trabalho que, sem tirar a naturalidade e espontaneidade do processo investigativo, resulte na produção de conhecimento com significado e em bases racionais. O objetivo é auxiliá-las a encontrar, neste exercício, a explicação racional que sustente suas ações morais e resulte em melhoria e manutenção de uma atitude mais positiva e construtiva perante a vida”.
Tal forma de ação, apresenta determinadas vantagens pedagógicas, tais como as alocadas a seguir pela autora:
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Autoconhecimento, pela descoberta do que somos em essência e do sentido de nossas existências;
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Elevação da auto-estima, pela descoberta dos próprios recursos interiores;
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Compreensão racional dos princípios do Espiritismo, fundamentando a fé;
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Estudo interdisciplinar, relacionando os conhecimentos espíritas às demais ciências e às questões da vida prática;
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Compreensão aprofundada dos mecanismos das leis divinas ou naturais;
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Desenvolvimento da lucidez quanto ao uso do próprio livre-arbítrio;
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Desenvolvimento do raciocínio e da capacidade de argumentação;
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Desenvolvimento das habilidades de observação, comparação e análise;
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Estímulo à reflexão sobre temas diversos, relativos à conduta moral;
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Independência mental e favorecimento à independência emocional;
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Desinibição e coragem de expor as próprias opiniões;
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Gosto pelo conhecimento, pela leitura e pelos estudos.
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Formação de atitudes críticas, criativas e solidárias no diálogo e perante a vida, fundamentadas na maior compreensão dos valores morais.
Disso se depreende que o papel do evangelizador é abrir espaço ao outro ser para que ele se realize e compreenda a grandeza dos instrumentos colocados por Jesus para tal propósito. Vejamos bem o termo: abrir espaço, criar a oportunidade, mostrar os caminhos – o evangelizador é “apenas” um instrumento para que a mensagem se faça ouvir. O trabalho restante é feito por aquele que ouve e vive tal mensagem. Não se pode obrigar ninguém a ser algo diferente, se esta não é a sua vontade.
Vemos assim que o trabalho educativo envolve seres que estão na mesma busca, cada qual com sua própria bagagem, colocados frente a frente em (transitórios) papéis de educador e educando, como uma chance da vida de crescerem juntos para o amor.
COMO FAZER?
Não existem fórmulas mágicas e prontas para tal atividade. O que posso fazer aqui, é deixar algumas dicas, frutos da minha experiência como educadora:
- Cuidar para não ter uma postura autoritária
- Ter uma postura de questionamento e verdadeiro diálogo – deixar a criança se expressar, levar a sério o que ela diz.
- Construir o conhecimento com ela a partir de questões colocadas sobre o assunto até que ela mesma chegue à resposta.
- Não ter medo das dúvidas e idéias céticas ou polêmicas – ninguém vai para o inferno por questionar.
- Incentivar o pensamento
- Não é necessário apresentar o tema da aula como uma moral da história – deixar a moral não como algo mecânico e necessário, mas ser flexível parra construí-la junto com os alunos.
Associar o conhecimento transmitido com sua própria vivência, ou seja, trabalhar com temas com os quais se tenha tido algum tipo de contato prático (seja como dificuldade seja como superação). ISSO É MUITO IMPORTANTE E FAZ TODA A DIFERENÇA ENTRE UM BOM EDUCADOR E UM EDUCADOR APENAS RETÓRICO E MORALISTA
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II.O mundo tem um sentido?Reflexões sobre a vida e o mundo a partir da filosofia espírita. PARTE II
Ensino Filosófico e Ensino Religioso (Rita Foelker) *
29 Novembro, 2006 at 10:25 pm | In * Sobre a filosofia espírita * | Leave a CommentEste texto foi elaborado pela educadora Rita Foelker
(site: www.edicoesgil.com.br/educador/filosofia/filosofia_principal.html)
Ele contém importantes reflexões a respeito da prática de ensino da Doutrina para crianças/jovens/adultos
O que podemos entender por Educação Espírita? Essa expressão pode ser entendida em dois sentidos: 1º) como uma espécie de formação sectária das crianças e dos jovens, uma forma de transmissão dos princípios espíritas às novas gerações, e portanto um assunto doméstico, restrito ao lar e às escolinhas que funcionam nas Federações e nos Centros Espíritas, à semelhança do que se faz nos catecismos das igrejas; 2º) como um processo de formação universal das novas gerações para o mundo novo que o Espiritismo está fazendo surgir na Terra. (Herculano Pires em “Pedagogia Espírita”, Ed.Edicel.)
A Educação Espírita tem como objetivo desenvolver o Ser humano integral, possibilitando o desabrochar de todos os potenciais do espírito, sejam intelectuais, afetivos ou morais. Não podemos encarar a Educação Espírita de maneira bitolada e fanática, como se apenas visássemos transmitir um conjunto de princípios dogmáticos e interpretações de textos.
Não se pretende, com ela, aumentar o grupo das pessoas que comungam nas mesmas crenças, nem encher os Centros de espíritas, mas abrir as portas do autoconhecimento e do conhecimento das leis da vida, para que daí resultem atitudes mais coerentes com as finalidades evolutivas da existência, em todos os sentidos.
Por isso, uma prática no estilo de catequese não se coaduna com os seus propósitos.
O ensino do Espiritismo para crianças, jovens e adultos não poderá se revestir das características do ensino religioso, nem com este ser confundido, mas tem muito pontos em comum com o ensino filosófico:
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por partir de questionamentos e hipóteses com os quais trabalhamos, buscando raciocínios e argumentos científicos que ajudem a chegar a conclusões;
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por pedir reflexão, estudo, aprofundamento e imparcialidade na análise dos assuntos;
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por não excluir possibilidades, nem limitar a liberdade de pensamento devido a concepções religiosas quaisquer.
Isto tem influência em toda a estrutura do trabalho educacional, desde a metodologia adotada aos recursos didáticos, à dinâmica das aulas, ao relacionamento do grupo e à própria maneira do educador encarar e realizar a sua tarefa.
Não se passam informações simplesmente assumidas como verdadeiras e ponto-final, mas estimula-se o diálogo. Promove-se a interação, forma-se um grupo de investigação e busca da verdade, em que o aprendizado e o prazer da descoberta são simultâneos. Não se teme dúvida ou contestação, aproveitando as controvérsias para retomar os argumentos e reforçar nossa fé no que acreditamos. Torna-se o aluno agente do seu aprendizado, permitindo que construa sua visão de mundo e expresse seus conteúdos e opiniões com segurança e sinceridade.
A Educação Espírita não tem cunho religioso, mas filosófico – assim como a própria Doutrina Espírita – mesmo possuindo inevitáveis conotações morais que tocam em temas quase sempre pertencentes ao âmbito da Religião, como as conseqüências destes estudos no campo moral, nas nossas atitudes perante Deus, perante nós mesmos e perante o próximo.
Herculano Pires afirma que as duas definições acima são corretas, e que o que não podemos é nos contentar com a primeira, esquecendo-nos da segunda. Se nos detivermos na primeira, faremos somente “catecismo espírita”. Mas se entendermos a proposta do Espiritismo na sua verdadeira abrangência,realizaremos muito mais em prol destas gerações que aí vêm.
(Artigo escrito para o “Jornal do Cem”.)
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O Espiritismo está na moda ou O que é, afinal, o Espiritismo?
29 Outubro, 2006 at 10:24 pm | In * Sobre a filosofia espírita * | Leave a Comment
Alguém duvida que o Espiritismo esteja na moda?Quem já não viu algum Globo Repórter recente trazendo “informações” baseadas na Doutrina? Quem não assistiu ou assiste novelas que tratam da mesma temática da Doutrina ou mesmo citam, literalmente, seu nome?
Ou ainda, quem se lembra de um caso, transmitido em rede nacional, em que um dos deputados da Câmara em Brasília, por ocasião da comemoração do bicentenário de nascimento de Kardec, teria “incorporado” um Espírito e com ele teria feito uma oração? Afirmava-se que a voz era igual a de Chico Xavier (colocaram até mesmo uma cena do Chico em uma de suas falas) e que os ‘espíritas’ pensavam que poderia ser ele.
Indo direto ao ponto, creio que este tipo de divulgação pode gerar dois tipos de sentimento: primeiro, de alegria, pois não podemos esconder uma pontinha de orgulho no momento em que ouvimos o nome de nossa tão querida doutrina sendo noticiado em tal amplitude. Pensamos: tal fato pode ser de grande valia para a divulgação do Espiritismo. Afinal de contas, quem não quer ver tal Doutrina, tão esclarecedora, tão coerente, tão consoladora, sendo disseminada aos quatro cantos, sendo conhecida por todos e – diga-se de passagem – dando-nos um gostinho todo especial pelo fato de nós sermos espíritas ‘antes’, e finalmente, estarmos sendo reconhecidos como detentores de algum conhecimento especial?
Por outro lado, este sentimento inicial de alegria e satisfação, se refletido, pode nos gerar um sentimento oposto, de preocupação e mesmo ansiedade. Passado o entusiasmo inicial, podemos nos deparar com a seguinte questão: é isso, só, o Espiritismo? A Doutrina Espírita se resume a um amontoado de fenômenos extravagantes, misteriosos, curiosos?
Nós, que certamente estudamos a Doutrina, sabemos que não, não é só isso. Os fenômenos são “apenas” uma parte dela. O que mais importa é sua filosofia, é o sistema de explicação montado por Kardec, é sua lógica e consistência enquanto teoria ‘científica’. Mas será que os ‘outros’ sabem? Será que todos os que se dizem ‘espíritas’ sabem disso?
Em outras palavras, é partindo dos fenômenos que devemos apresentar o Espiritismo àqueles que não o conhecem? Consequentemente, é de fenômenos que nossas sociedades espíritas devem sobreviver e é a partir deles que devem divulgar tal conhecimento?
Quantas perguntas… que caem na mais essencial de todas, título deste blog: afinal, de qual espiritismo estamos falando? Se é daquele Espiritismo proposto por Kardec, podemos então encontrar as respostas para todas estas perguntas nas próprias palavras de Kardec… Algo óbvio, não? Mas que não costuma ser feito.
Primeiro e antes de tudo: como Kardec define a Doutrina? Um ótimo local para encontramos uma resposta mais direta para esta pergunta é o livreto “O que é o Espiritismo”, escrito pelo próprio Kardec e que, em sua palavras, contém respostas rápidas e resumidas a questões constantemente levantadas por aqueles que tem um conhecimento superficial do Espiritismo e que, se tivessem tempo e vontade para um estudo mais aprofundado, poderiam responder por si mesmos. Desta forma, ali contém resumos úteis para os iniciantes, que podem apreender as noções essenciais em pouco tempo e também para os “adeptos”, que ali encontram meios para responder objeções que qualquer pessoa possa colocar – além de possibilitar uma visualização sintética do coração da doutrina.
Voltemos então à questão proposta. Neste livro, Kardec define o Espiritismo como “uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como suas relações com o mundo corporal”. Ou seja:
- da natureza: quem somos? De que somos feitos? Qual nossa essência?
- da origem: de onde viemos?
- do destino: para onde vamos?
- das relações com o mundo corporal: encarnação, reencarnação, comunicação, influências, etc…
Dentro desta definição, percebemos ainda que existem duas dimensões que caracterizam a natureza da doutrina: “O Espiritismo é, AO MESMO TEMPO, uma CIÊNCIA DE OBSERVAÇÃO e uma DOUTRINA FILOSÓFICA”. Ou seja, para se configurar como uma ciência que trata de todos aqueles elementos citados na definição acima, o Espiritismo possui um duplo aspecto: um ligado à observação e outro, complementar, ligado à teorização/filosofia.
Esquematicamente:
Ciência de observação –>
“Ciência prática” das relações que se estabelecem entre nós e os espíritos
+
Doutrina filosófica –>
Filosofia com conseqüências morais que dimanam destas relaçõesAnalisando este esquema e os argumentos apresentados, podemos aparentemente deduzir que devemos, então, começar a estudar o Espiritismo como uma “ciência prática”, ou seja, partindo das “relações que se estabelecem entre nós e os espíritos” – ou seja ainda, partindo dos ´fenômenos´. E somente depois disso, analisarmos a filosofia, que é apenas uma conseqüência destas relações.
Mas é bem aqui que nosso raciocínio se engana. Quando Kardec fala que a Doutrina é uma ciência prática com conseqüências morais não traz nessa definição nenhuma ordem de análise que vai da prática à teoria. Achar isso, na verdade, revela nossa ignorância (sem sentido pejorativo) em relação à própria natureza do processo científico[1].
Para fazer ciência, não basta ir a um laboratório e fazer pesquisas “empíricas”. Como saberemos o que estudar, qual o nome dos equipamentos, para que eles servem, para onde nos levam; como ler os “fatos” ou dados se não temos nenhum conhecimento sobre o que está diante de nossos olhos? Não é a toa que os cursos acadêmicos começam com matérias teóricas – é necessário conhecer o sistema teórico que explica o que será pesquisado na prática.
Em suma, tal como Thomas Kuhn (em “A Estrutura das Revoluções Científicas”) nos alerta, ciência não é um processo no qual vamos juntando pedaços de informação (“dados”, “fatos”) que são, por sua vez, somados ou combinados entre si, para montar uma teoria e aumentar nosso estoque de técnicas e conhecimentos científicos. Os dados, na verdade, são pistas, sendo necessário que a mente as organize em totalidade para que elas possam fazer sentido[2].
Sendo assim, a Doutrina Espírita é científica não simplesmente porque parte da prática mas porque se constitui em um “programa de pesquisa” com um corpo teórico que dá coesão e inteligibilidade aos fenômenos (Cf. Chibeni em texto citado).
Isso o próprio Kardec afirma, no capítulo III do Livro dos Médiuns, intitulado “Método”[3]. Ali, ele afirma que, o melhor método de ensinar o Espiritismo, ao contrário do que poderíamos pensar, não é “(…) passar em revista toda a série de fenômenos que podem produzir-se”.
Primeiro, porque os fenômenos espirituais não são facilmente obteníveis, a nosso bel-prazer. Pois neles não lidamos com a matéria bruta, a qual se manipula livremente, mas sim com inteligências dotadas de vontade própria. Ou seja, não há como obter estes fenômenos à vontade ou fazer exibições com eles; e declara energicamente: todo aquele que se vangloriar de obtê-los à vontade não passa de ignorante ou impostor.
Segundo, porque os fenômenos são imprevisíveis. Não ocorrem quando mais os desejamos. Apresentam-se de modo diverso ao que esperamos. Para consegui-los, são necessários médiuns, que não são individualmente tão completos que captem qualquer tipo de fenômeno.
Assim, como ele afirma, “É muito simples o meio de evitar estes inconvenientes. Basta começar pela teoria”. Na discussão teórica, passamos em revista os fenômenos, obtemos explicações, conhecemos suas possibilidades, entendemos os modos como são produzidos, os obstáculos a sua realização. Enfim, seus porquês, comos, ondes…
Nas palavras de Kardec, “(…) uma explicação antecipada tem o efeito de destruir as idéias preconcebidas e mostrar, senão a realidade, pelo menos a possibilidade do fato. Compreende-se antes de ver, pois, desde que aceitamos a possibilidade, três quartos da convicção foram realizados”.
Deste modo, não precisamos nos preocupar tão aflitamente em realizarmos antes de qualquer coisa nossas “reuniões mediúnicas” como se este fosse a única solidez de uma casa espírita. Não precisamos ter que provar tudo de novo o que Kardec já se deu ao (grande) trabalho de fazer. Não precisamos começar do zero. Podemos estudar e compreender antes, o que poderá, nas palavras sábias de nosso mestre “(…) evitar muitas decepções ao experimentador. Prevenido quanto às dificuldades, pode manter-se vigilante e poupar-se das experiências à própria custa”.
A própria experiência de Kardec o demonstrou que de todas as pessoas que ele encontrou em seu caminho, tantas permaneceram incrédulas mesmo diante dos fenômenos mais evidentes, vindo a se convencer apenas por meio de uma explicação racional; outros foram levadas apenas pela compreensão, sem nunca terem visto nada e outras predispostas a aceitar por meio do raciocínio. E completa, “(…) falamos portanto, por experiência, e, por isso, afirmamos que o melhor método de ensino espírita é o que se dirige à razão e não aos olhos. É o que seguimos em nossas lições, do que só temos que nos felicitar”.
Enfim, de acordo com Kardec, poderíamos mesmo fazer abstração das manifestações sem que a doutrina desaparecesse por conta disso. “(…) As manifestações a corroboram, a confirmam, mas não constituem um fundamento essencial. O observador sério não as repele, mas espera as circunstancias favoráveis para observá-los. A prova disso é que, antes de ouvirem falar das manifestações, muitas pessoas tiveram a intuição desta doutrina, que veio apenas corporificar num conjunto as suas idéias”.
Deste modo, mesmo fenômenos espontâneos como aquele ocorrido na nossa Câmara, não deixam de ser fatos importantes, principalmente, como diz Kardec, quando se apóiam em testemunhos irrecusáveis, porque não se pode atribuir-lhes qualquer preparação ou conivência.
Entretanto, é a teoria que vem lhes dar explicação. Sem o raciocínio, estes fatos – que certamente não são negligenciados por Kardec, pois, como ele mesmo afirma, foi o que lhe permitiu chegar à teoria, a custa de “(…) um trabalho assíduo de muitos anos e milhares de observações” – não bastam para levar à convicção.
“(…) Uma explicação prévia, afastando as prevenções e mostrando que eles não são absurdos predispõe a aceitá-los”.
Creio que com estes elementos todos, podemos pensar melhor e mais profundamente a respeito das possíveis conseqüências da divulgação maciça de fenômenos espirituais. Ela pode apenas inspirar zombarias e deboches; pode lançar curiosidades a seu respeito ou até mesmo uma vontade legítima em quem os vê de investigar e compreender.
De todo modo, não é o fenômeno em si que trará as respostas, mas sim a compreensão de seus porquês e “comos”. O que poderá ser obtido apenas se nos permitirmos navegar no oceano de profundidade que a obra de Kardec carrega, mas a qual atualmente e infelizmente, permanecemos comodamente observando da praia, como nos disse certa vez um querido amigo…
“Instruí-vos primeiramente pela teoria, lede e meditai as obras que tratam dessa ciência; nelas aprendereis os princípios, encontrareis a descrição de todos os fenômenos, compreendereis a possibilidade deles pela explicação que elas vos darão, e, pela narrativa de grande número de fatos espontâneos de que pudestes ser testemunha sem os compreender, mas que vos voltarão à memória, vós vos fortificareis contra todas as dificuldades que possam surgir e formareis, desse modo, uma primeira convicção moral”.
Allan Kardec. O que é o Espiritismo. Pg.64, Ed. FEB
[1] Sobre a natureza do processo científico, vide os trabalhos de Silvio Chibeni, principalmente o texto “A Excelência Metodológica do Espiritismo”, que aprofunda estas questões de modo consistente e coerente com o conhecimento acadêmico atual.
[2] Frase do Rubem Alves no imperdível livro “Filosofia da Ciência”, para aqueles que querem ter um primeiro contato com estas discussões a respeito da natureza do fazer científico.
[3] Kardec é, infelizmente, de modo geral pouco conhecido dos espíritas. Este capítulo sofre deste mesmo problema: ali se encontram dicas, explicações e ensinamentos tão simples e ao mesmo tempo tão profundos que passam desapercebidos de muitos de nós que, mesmo sem afirmar, consideram-no datado, “coisa do século retrasado”. Entretanto, não há obra mais atual, e muito, mas muito longe de ser ultrapassada. Passados os momentos de elogios, nada vazios, vejamos o porquê deles.
LEIA OUTROS TEXTOS SOBRE O ESPIRITISMO:
*I. O mundo tem um sentido? Reflexões sobre a vida e o mundo a partir da filosofia espírita*
29 Setembro, 2006 at 10:23 pm | In * Sobre a filosofia espírita * | Leave a Comment
A Doutrina Espírita permite que pensemos a respeito do mundo. E ela nos dá várias possibilidades para isso. De acordo com o assunto ou dúvida, podemos encadear o raciocínio de uma forma específica. Ou seja, as obras básicas e as “complementares”, nos permitem elaborar um verdadeiro sistema de explicação, de acordo com o tema.Muitos de nós tem dificuldades em estudar a Doutrina exatamente por sua complexidade – não que ela seja ´complicada´, mas ela possui um rol gigantesco de assuntos, que abarca todos os setores da vida humana. Desta forma, só seremos capazes de entendê-la e de entendermos o mundo em que vivemos, se estudarmos e pesquisarmos dentro da Doutrina estas respostas.
O que vocês lerão, na série de artigos que se inicia hoje, é um exercício disso. Uma tentativa de respondermos uma questão, mas que por sua amplitude, envolve muitos pontos da Doutrina. Para tanto, devemos construir um encadeamento lógico que satisfaça nossa pergunta e leve em conta os fatores nela envolvidos.
Imagine que alguém lhe colocasse a seguinte questão: como podemos acreditar na vida e nas pessoas diante de uma situação tão caótica, diante de atrocidades a cada dia cometidas por seres (des) humanos, diante de tantas dores que somos capazes de causar uns aos outros?
Bom, acredito que leva-se um tempo para construir esta resposta dentro de nós. Na verdade, esta é uma construção ininterrupta, que se faz a cada dia de forma mais completa. É uma resposta que não se restringe ao nível do intelecto, mas tem que penetrar nas nossas emoções, na fé atuante, na vivência. Não basta entender, é necessário viver, certo? Bom, cada um a seu tempo e a seu modo, vive aquilo que acredita. O que segue, é aquilo que eu acredito e aprendo não apenas nos livros, mas pelo próprio movimento da vida.
O que se segue então, é uma entre várias possíveis construções de variadas coisas lidas, estudadas, aprendidas e vividas. Construção que deixa, em muitos momentos, os próprios livros e autores lidos falarem por si mesmos – pois o que importa aqui não é a autoria do texto mas sim seu conteúdo e sua capacidade de nos preencher e motivar. De todo modo, não deixo de citar as fontes, seja nas notas de rodapé ou no próprio corpo do texto, para que o leitor possa, ele mesmo, construir suas respostas e interpretações.
* * *
Como encontrar as respostas para este enigma que a vida nos coloca, a cada instante, diante dos olhos: se Deus existe, como os seres humanos são de tal maneira destrutivos?
O primeiro ponto que se coloca aqui é a própria crença em Deus. Muitas vezes esta crença se encontra em um nível mais sentimental e as pessoas não param para pensar em Deus de forma racional ou lógica. Mas com a Doutrina Espírita, vemos que esta idéia, mais do que apenas um sentimento, também pode ser defendida pela razão, sem medo de perdermos a crença pelo fato de a confrontarmos com a realidade mais visível. Para aqueles que já “sentem” a idéia, a razão vai servir apenas como um complemento, em nada afetando (ou afetando para melhor) a crença mais profunda.
O que é Deus? Tal a primeira pergunta do Livro dos Espíritos, respondida da seguinte forma: “È a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas”. Ou seja, é a causa mais fundamental, primeira e primária, o criador imanente e transcendente, que está em tudo e além de tudo[1]. Podemos, de acordo com os Espíritos, concluir de sua existência pelas suas obras, ou seja, pelo mundo em nossa volta e tudo o que existe nele.
Vemos com isso que o mundo, como “obra” divina, está diretamente associado a Deus. Da visão que fazemos de Deus, temos uma visão do mundo e vice-versa. Assim sendo, se consideramos o mundo cruel e as pessoas sem remédio, cabe nos perguntarmos por que Deus permitiu que o mundo assim fosse. Certamente temos em mente que o homem é livre para escolher e foi ele que criou o mundo tal como o que vivemos, entretanto, Deus continua sendo responsável pela existência deste homem. Se ele está em tudo e a tudo envolve, como podemos conceber a idéia de um mundo desgraçado, sem esperanças?
Daí decorre um raciocínio que procuraria definir as características e atributos deste Deus, posto que se é um Deus mau e vingativo, o mundo tal se apresentará. Da mesma forma, o contrário. Certamente que não podemos conhecer a natureza divina, devido ainda ao nosso estágio evolutivo primário (voltaremos a isso) o que nos impede certas percepções e entendimentos mais “elevados”. Entretanto, pelo raciocínio podemos conhecer alguns atributos necessários, sem os quais Deus não seria Deus. São estes atributos[2] que definem nosso entendimento sobre o mundo sendo eles o ponto de partida de todas as crenças religiosas – aquelas religiões que, por exemplo, não atribuíram a Deus a onipotência imaginaram muitos Deuses; as que não lhe atribuíram uma bondade soberana, fizeram dele um Deus colérico, parcial e vingativo.
Assim, para Deus ser Deus, devemos supô-lo como a suprema e soberana inteligência, infinita (ao contrário do homem) e abrangendo todas as coisas – se esta inteligência fosse limitada em algum ponto apenas, poderíamos conceber outro ser mais inteligente, capaz de compreender e fazer o que o primeiro não faria e assim por diante até o infinito. Ele é eterno – não teve começo ou fim. Se tivesse tido um principio, teria saído do nada – mas, o nada não pode criar coisa alguma. Se ele por acaso tivesse sido criado por outro ser, este então seria Deus. É imutável na medida em que o mundo e suas leis de funcionamento dependem desta estabilidade; é imaterial, ou seja, sua natureza difere de tudo o que chamamos matéria, por sua vez, essencialmente transformável. Possui o poder supremo, é infinitamente perfeito e único – posto que qualquer outro ser em igualdade de condições seria o mesmo (pois teriam as mesmas vontades, pensamento e poder, equivalendo-se), ou ainda, qualquer ser mais poderoso, seria então Deus.
E, por “fim”, é soberanamente justo e bom. Este é o atributo que mais nos interessa – na medida e que dele depende mais diretamente nossa questão inicial. A bondade de Deus pode parecer apenas uma questão de crença. Entretanto, esta não é uma afirmação isolada, posto que ela faz sentido dentro de todo um sistema de explicação que deduz os elementos uns dos outros, que relaciona vários conceitos e premissas.
Sendo Deus a bondade soberana – bondade que alguns de nós podemos sentir e perceber nas menores coisas do nosso cotidiano, não precisando assim de uma comprovação “racional” – devemos a principio, excluir a possibilidade de uma qualidade contrária, que a anularia ou a diminuiria[3]. Um ser infinitamente bom não poderia conter a menor parcela de malignidade; Deus não poderia ser bom e mal simultaneamente primeiro porque sem algumas destas qualidades no grau supremo não seria Deus e segundo porque se assim o fosse, todas as coisas do mundo estariam submetidas a seu capricho e não haveria estabilidade para nenhuma das coisas do universo. Decorrente da idéia de bondade, teríamos também a justiça como qualidade máxima, na medida em que se ele fosse injusto com apenas uma de suas criaturas em apenas uma circunstancia, já não seria soberanamente justo[4].
Assim, se Deus é o princípio de tudo e infinitamente bom e justo, não poderia ter ele próprio criado o “mal”, a injustiça. Mas de onde vem estas? De um outro ser tão poderoso quanto ele? Mas como já citado, outro ser tão poderoso seria igual a Deus, havendo então uma luta constante que resultaria na instabilidade do Universo. Por outro lado, se houvesse seres eternamente voltados ao mal, eles seriam obra de Deus – e Deus seria justo e bom criando seres infelizes, eternamente voltados ao mal?[5].
De uma forma geral, associamos o “mal” ao sofrimento, à dor, a pessoas cruéis e mesquinhas. Consideramos toda forma de violência, destruição, tragédia, como males inescapáveis, situações que nos dão uma constante impressão de que a humanidade apenas degenera e de que estamos abandonados e condenados por Deus.
Mas será que é por aí? Se cremos em Deus e em sua bondade, no mínimo devemos saber que existem motivos para tais situações – e bons motivos! Não podemos nos imaginar perdidos em um mundo em que uns destroem a outros e nos perguntando: “por que Deus não nos salva?”. Se ele é poderoso, pode fazer isso. Será que ele não quer? Mas aí não seria bom e justo. Ou, será que ele quer e não tem realmente um poder tão grande?Nosso desafio, na continuação desta conversa, será encontrar na Doutrina as respostas para este dilema. Algo que você já pode começar a fazer agora, partindo da bibliografia citada até aqui.
NOTAS
[1] De que modo podemos provar a existência de Deus? Principio elementar 1: dos efeitos se pode julgar a causa. Partindo deste principio chegaremos em Deus. Nem sempre é necessário vermos algo para sabermos que ele existe. Principio elementar 2: todo efeito inteligente tem uma causa inteligente – algo engenhoso não pode ter-se feito a si mesmo. Algo assim só pode ser produto de um homem de gênio. Pode-se reconhecer a presença do homem pelas suas obras. E, de acordo com elas, deduzir do grau de inteligência daquele que a construiu. Assim, observando a Providência, a sabedoria e a harmonia que presidem as obras da natureza, desde que o homem não as pode produzir, elas devem ser produto de uma inteligência superior à humanidade. Pois, não há efeitos sem causa. Alguém poderia dizer que as obras da natureza são fruto de forças materiais que atuam mecanicamente em virtude de leis físicas (atração, repulsão). Mas estas forças são efeitos que tem que ter uma causa. As forças são materiais e mecânicas e não são inteligentes. A inteligência residiria no próprio funcionamento das forças, que obedecem a um plano.
[2] Kardec, A Gênese: Capitulo II, item 8.
[3] Kardec, A Gênese: Capitulo II, item 14.
[4] Aqui poderíamos dar continuidade a toda uma discussão a respeito da providência divina, da forma como Deus atua no mundo, da visão de Deus ou porque não o enxergamos se ele está em toda parte. Vide A Gênese, Capitulo II, itens 20 a 37.
[5] Livro dos Espíritos, Q131.
LEIA OUTROS TEXTOS SOBRE O ESPIRITISMO:
*II.O mundo tem um sentido?Reflexões sobre a vida e o mundo a partir da filosofia espírita. PARTE II
29 Agosto, 2006 at 10:23 pm | In * Sobre a filosofia espírita * | Leave a CommentPelo que vocês puderam ver no texto anterior, para responder a questão proposta no titulo deste artigo, já parti do pressuposto de que o leitor crê em Deus. Ou seja, neste texto, especificamente, não foi minha preocupação questionar Sua existência em termos mais profundos, mas sim dialogar com aqueles que têm esta crença mas que nunca pararam para pensar nela mais detidamente, levando em conta suas consequências[1].Desta maneira, a questão que fica é, existindo Deus, e ele sendo bom, porque permite que a vida humana transcorra de forma tão “caótica”?
Eliseu F.da Mota Jr., no livro “Que é Deus?”, nos sugere que para tal questão podem existir três pontos de vista gerais: o materialista, o que ele chama de “dogmático” e o espiritualista/espírita.
No ponto de vista “materialista”, na verdade, tal dilema nem se coloca, simplesmente porque Deus não existe. Tudo ocorre na base da sorte e do azar – a vida é um acaso desgraçado.
Na visão “dogmática”, temos que Deus, na hora em que cria a alma, escolhe o corpo em que ela vai nascer, determinando se ele vai nascer pobre, rico, violento, deficiente, miserável, etc. Entretanto, aqui surge outra questão: por que uns teriam mais privilégios que os outros?
Na visão “Espiritualista/espírita”, a idéia é que a humanidade ainda não conhece/vive as leis de amor e harmonia, ainda pautando suas atitudes na ignorância de sua imortalidade e do processo evolutivo que a encaminha a sucessivas vidas de aprendizados. Por isso, ainda vive presa às conseqüências de seus atos e às leis de rearmonização que vigem no Universo.
Bom, esta terceira, como se pode notar, é a “minha” visão e é aquela que será discutida aqui. Isto não quer dizer que as outras duas visões gerais, apresentadas até de forma simplista, não tenham muitas outras implicações. Entretanto, dentro do objetivo deste artigo, elas foram levantadas apenas a título de comparação. O que não impede que possamos desenvolver tais idéias em algum outro momento (leia-se, outro artigo).
Voltando então à visão Espiritualista/espírita, devemos levar em conta algumas premissas básicas, para que ela responda a questão inicial de forma satisfatória.
Tais pontos, que veremos um a um, são os seguintes:
1) A alma é imortal
2) Fomos criados simples e ignorantes
3) Somos seres em evolução
4) Lei de causa e efeito. Causas da dor.
5) Origens do “mal”
6) O mundo de hoje e o mal nele presente
Estes seis itens foram aqueles que considerei essenciais para a construção da resposta buscada. Como afirmei no início deste texto, tal lógica de argumentação não é a única possível. Na verdade, variadas combinações de conceitos podem ser feitas para trabalhar o mesmo tema. Esta é apenas uma sugestão do que é possível fazer com os variados conceitos presentes na obra kardequiana, que formam um grande sistema, no qual um se relaciona com o outro/um é pré-requisito para o outro/sem um não podemos entender o outro. Aliás, a maior parte dos argumentos aqui levantados, são quase literalmente retirados da obra de Kardec[2].
* * *
1) A alma é imortal
O que implica dizer que a alma é imortal? Antes de tudo, cabe a pergunta: o que é a alma, afinal?[3] Uma grande causa de dúvida sobre a existência ou não da alma e dos espíritos é a ignorância a respeito de sua verdadeira natureza. Imaginam-nos como seres a parte da criação, através de histórias fantasiosas e filmes de terror. Seja qual for a idéia que façamos deles, a crença na sua existência decorre do fato de haver um princípio inteligente no Universo, além da matéria.
Creio que aqui não cabe a comprovação da existência ou não da alma – este é um vasto caminho que ainda esta sendo construído pela ciência. Ouso apenas afirmar que já existem alguns indicativos sugestivos de sua existência mas que, pra variar, terão que ser discutidos em outro momento[4].
Novamente, tal como fizemos com a idéia de “Deus”, temos aqui que partir do princípio de que algumas premissas são aceitas: a matéria não é tudo, alguma força a governa; a alma existe e permanece existindo depois da morte – posto que ela é imortal (este um sentido da frase “criados a imagem e semelhança de Deus”), ou seja, não foi criada no instante do nascimento mas existe há tempos, seguindo caminhos que ainda não foram aqui considerados mas que logo adiante serão.
Disso decorrem dois outros pontos: 1) a natureza da alma é diferente da corpórea pois, ao separar-se do corpo, ela não conserva as propriedades materiais e 2) a alma possui consciência própria, pois atribuímos a ela a capacidade de ser feliz ou sofredora (do contrário, ela seria inerte e nem precisaria existir). Admitido isso, ela terá de ir para algum lugar. Para onde? Para o céu? O inferno? Mas que Deus, soberanamente bom e justo, permitiria que seus filhos queimassem eternamente ou simplesmente desfrutassem da inutilidade eterna, vendo, por sinal, alguns de seus amores sendo queimados no fogo do inferno?
Vemos no Livro dos Espíritos (Q. 965) a questão que afirma que as penas e gozos da alma depois da morte não podem ser materiais na medida em que a alma não é matéria. Estas penas nada tem de carnais. As almas, ao invés de penarem ou gozarem em determinado lugar, carregam em seu íntimo a felicidade ou a desgraça, pois a sorte de cada um depende de sua condição moral.
Neste sentido, as almas povoam o espaço, de acordo com sua condição íntima, estando mais ou menos tranqüilas, com mais ou menos trabalhos sendo realizados, etc. Mas, mais do que isso, estes seres imateriais podem agir sobre a matéria, posto que eles não são seres abstratos, vagos e indefinidos. Eles agem através de um “corpo” intermediário, o que chamamos perispírito.
Estas almas, quando encarnadas, se utilizam de um corpo “moldado” por elas mesmas (ou seja, uma herança de todo seu histórico como ser imortal); mas este corpo nada mais é que um acessório do Espírito, um invólucro, uma roupagem que ele abandona depois de usar. Na morte o Espírito abandona o corpo mas não o perispírito. Este envoltório, que tem a mesma forma humana do corpo, é uma espécie de corpo fluídico, invisível para nós em seu estado normal mas possuindo algumas propriedades da matéria (este aqui é todo um outro mundo de reflexões que se abre, que não conseguirei fazer aqui senão nunca vou terminar este texto).
2) Fomos criados simples e ignorantes
Nossa alma é imortal, mas ao contrário de Deus, surgimos em determinado momento do tempo. E, na medida em que consideramos a justeza e bondade dos desígnios divinos, devemos considerar que surgimos recebendo as mesmas condições básicas de existência – posto que não podemos imaginar Deus privilegiando alguns seres em detrimento de outros.
Olhando o mundo a nossa volta, também não podemos dizer que Deus nos criou bons. Por outro lado, se Deus nos criasse maus, onde estaria sua bondade? Que Deus é este que cria seres para a dor? Ou ainda, se Deus nos criasse perfeitos, onde o mérito para gozar os benefícios dessa perfeição? (V. Livro dos Espíritos, Q. 119).
Deduzimos disso que ele não cria seres nem bons nem maus, mas ignorantes e simples, sem nenhuma experiência adquirida, sem pensamentos formulados, sem grande inteligência. Mas algo ele criou. Este “algo”, levando em conta os atributos divinos, deve ter sido baseado em princípios de bondade – ou seja, devemos carregar em nós um germe desta bondade, uma “herança genética” de nossa filiação.
Mas diante da grande quantidade de conhecimento acumulado pela humanidade, não podemos dizer que hoje somos totalmente ignorantes ou simples. Desta forma, percorremos alguma trajetória até aqui, que nos fez ser o que somos. Isso não se dando em pequeno espaço de tempo, posto que temos vivência do fato de que em uma vida não são tantos os conhecimentos que desenvolvemos. Imaginamos assim de onde surgiriam nossas tendências inatas, nossas facilidades, nossos gostos, nossas aptidões mais naturais?
3) Somos seres em evolução
Falta muito chão ainda para que a nossa ciência decifre alguns mistérios básicos da nossa origem e desenvolvimento. Ou seja, temos noções gerais a respeito desta simplicidade e ignorância mas que não ocupa nem 10% de todo o conhecimento que ainda viremos a ter sobre o Espírito.
Mas enfim, alguns indicativos são possíveis: como visto, é coerente com a idéia de um Deus bondoso e justo a noção de que fomos todos criados partindo de condições e potenciais iguais e com um mesmo destino – a “felicidade” eterna. Para alcançarmos este destino, caminhamos sem parar por um longo processo de evolução – diferente mas complementar àquele proposto pela visão biológica “oficial”.
Enquanto na ciência a evolução biológica é encarada de forma materialista, vendo os seres apenas como matéria, o espiritismo considera o mesmo processo biológico mas expõe que o principal agente que evolui é o espírito. Neste caso, a aparente crueldade do processo evolutivo acionado pela seleção natural apresenta-se como um modo de gerar experiências, de abrir oportunidades de aprendizado para o espírito, que não irá sucumbir, nem morrer, mas que temporariamente estará sujeito a condições que lhe permitirão o progresso, a origem e a fixação dos instintos e toda a base de comportamentos para o “nascimento” da alma humana (V. o livro de Hebe Laghi, “Darwin e Kardec: um diálogo possível”, pg 58).
Fomos então criados como “princípios espirituais” que deveriam ao longo de uma grande jornada conquistar a complexidade da alma humana. Sofremos inúmeras transformações, desde os organismos mais rudimentares até os mais complexos (dos peixes e répteis, às aves, mamíferos, símios, hominídeos, até alcançarmos a Humanidade atual).
As experiências adquiridas por este longo processo não se perderam mas ficaram registradas em nós, em nosso inconsciente (no princípio espiritual/Espírito), contribuindo para formar os instintos. Nos diversos enfrentamentos da vida (pela sobrevivência, busca de alimento, moradia, alianças, etc.) adquirimos os sentidos de amor à vida, ao próximo, da proteção, da coletividade, etc.
Sendo assim, hoje somos o resultado de um longo processo evolutivo no qual fomos adquirindo nossas capacidades, em nossas milhares de existências, cada qual permitindo o desenvolvimento de um determinado aspecto do nosso ser. Somos hoje, uma síntese da nossa trajetória – por isso dizemos que carregamos em nós tudo o que fizemos, dissemos, pensamos; erros e acertos, encontros e desencontros.
A imortalidade, assim, traz em si suas belezas, pois sabemos que nunca morreremos e que nossos amores também não. Por outro lado, também temos compromissos decorrentes desta vida eterna – nem os erros e nem os desafetos são também esquecidos. Este caminho longo de vidas e vidas não é deixado ao acaso, mas regido por leis – divinas – de responsabilidade. Tudo o que fazemos gera conseqüências, boas e agradáveis ou não. O tempo todo nos deparamos com as conseqüências de nossos atos – sejam bem recentes ou mais distantes[5].
4) Lei de causa e efeito. Causas da dor.
Neste caso, o mundo de hoje é resultado de uma rede de conseqüências – e novas causas – decorrentes de atos da humanidade (também uma rede de relações) de todos os tempos. O “mal”, a dor que vivemos hoje não é prova de nada além do que de nossa total ignorância, enquanto humanidade, sobre quais atos geram conseqüências “agradáveis” a todos. De nossa ignorância em relação à beleza da vida e da paz, de que os atos de amor são os únicos que nos trarão felicidade – não apenas individual mas coletiva.
Por outro lado, a nossa percepção e valorização deste “mal” é decorrência da visão limitada do homem de penetrar o conjunto dos acontecimentos e de todas as coisas. O homem só vê aquilo que lhe interessa e apenas do seu próprio ponto de vista. Por isso, muitas coisas lhe parecem más e injustas sendo que, se ele conhecesse a causa, o objetivo e a conseqüência de muitas situações da vida, as consideraria justas, ou seja, as melhores para o momento e para o aprendizado.
Tudo no mundo traz o carimbo da sabedoria divina e ao pesquisarmos a razão de ser e a utilidade das coisas, verificaríamos isso. E, para tudo aquilo que ainda não podemos compreender, nos resta a certeza, confiante, de que tem um motivo.
Vemos por exemplo, o caso dos flagelos naturais. Seria uma vingança de Deus contra nossa impiedade? Poderíamos pensar nisso se não conhecêssemos a imortalidade da alma e não soubéssemos que o que morre é o corpo – já por si transitório e fadado a destruição. Se não tivéssemos a idéia de que Deus tudo vê e dirige, que rege o mundo por leis de amor e justiça. Se não soubéssemos que o movimento e as transformações são a lógica da vida…
Deste modo, todos estes “males” surgem como desafios à capacidade humana de auto-superar-se, de criar, inventar, descobrir novas formas de vida. De conhecer-se indestrutível – espiritualmente falando – mesmo diante das piores “tragédias”. Deus facultou aos homens os meios de diminuir os efeitos destas situações – sem desafios, o homem congelaria no tempo e no espaço.
Mas maiores do que estes “males externos”, temos os males internos, criados pelo homem: egoísmo, vícios, orgulho, ambição e suas conseqüências: guerras, dissensões, injustiças, opressões, enfermidades, etc. Aí que parece estar o problema, não? Podemos perceber que as maiores causas de aflição esta na conduta humana e suas conseqüências.
Isso não implica necessariamente deduzir que os homens são maus ou não tem jeito. Se fomos criados pelo amor, todos carregamos em essência este fator. A questão é entender o porquê das coisas estarem como estão hoje e para onde iremos exatamente.
NOTAS
[1] Mas como esta questão, da própria crença em Deus, gerou interessantes comentários, dedico a ela um outro artigo, ainda em elaboração, intitulado “O Espiritismo pode provar a existência de Deus?”
[2] Estando com ele o mérito dos acertos e comigo, o dos possíveis desacertos e má-interpretações.
[3] Kardec, Livro do Médiuns: Capitulo 1.
[4] Mas que para o leitor não fique tão decepcionado, sugiro a visita ao link do Grupo de Estudos Espíritas da UNICAMP, que traz textos bastante consistentes, de físicos e estudiosos respeitados e sérios, a respeito das relações que existem entre as descobertas cientíticas e o Espiritismo. Especial atenção aos textos: “As provas científicas” (Aécio P. Chagas); “Ciência espírita”; “A excelência metodológica do Espiritismo”; “O paradigma espírita” (Silvio S. Chibeni) entre outros.
[5] Argumento utilizado por Raul Teixeira na palestra “Os fundamentos do Espiritismo”, de 14/04/2002, em Curitiba, PR – parte da V Conferência Estadual Espírita.
LEIA OUTROS TEXTOS SOBRE O ESPIRITISMO:
*III.O mundo tem um sentido?Reflexões sobre a vida e o mundo a partir da filosofia espírita. PARTE Final
29 Julho, 2006 at 10:22 pm | In * Sobre a filosofia espírita * | Leave a Comment*III.O mundo tem um sentido?Reflexões sobre a vida e o mundo a partir da filosofia espírita. PARTE Final 28 Abril, 2006
5) Origens do “mal”
Somos espíritos de certa forma rebeldes. Pois, mesmo tendo impressa em nós a marca divina e mesmo sendo constantemente ensinados (por profetas, messias, missionários, etc.) sobre os caminhos para evitar o sofrimento, ainda escolhemos, em virtude de nosso livre-arbítrio, viver do modo como vivemos. Mas por que escolhemos mal? Será que não teria sido mais fácil se Deus nos tivesse criado perfeitos e evitado todos estes tipos de dificuldades?
Bom, primeiro isso não teria graça – qual valor daríamos para algo pronto, dado? Por outro lado, se Deus nos houvesse criado perfeitos, não teríamos sido feitos a sua imagem mas sim iguais a ele – seríamos então apenas suas cópias. Não seria mais palatável a idéia de que Deus nos teria deixado sujeitos a lei de progresso e que este progresso resultasse de nosso trabalho? Ou seja, os frutos são sempre colhidos por aquele que planta: tanto as benesses do bem realizado quanto as responsabilidades do mal que pratiquemos por nossa vontade.
A questão aqui não parece ser questionar por que Deus fez as coisas do jeito que fez – já que esta é nossa única realidade – mas sim entender qual seria então a origem em nós destas escolhas pelo “mal”, pelo destrutivo e sofrido.
Para responder isso[1] temos que ter em vista todo o processo de evolução do ser, desde as épocas mais primitivas de seu desenvolvimento intelecto-moral até hoje. Analisando as paixões e vícios que movem o homem no decorrer deste processo, podemos perceber o papel central do instinto de conservação. Instinto que se encontra com toda sua força nos animais e nos seres primitivos mais próximos da animalidade, nos quais é ele que domina. Com o desenvolvimento da inteligência e do senso moral, o instinto vai se enfraquecendo, cedendo espaço de decisão para as outras faculdades.
Desta forma, nas primeiras fases de sua existência corpórea, o Espírito deve cumprir somente exigências materiais – aqui o exercício das paixões é uma necessidade para sua conservação material. Gradualmente, outras necessidades vão se apresentando a ele, mais morais e menos materiais, até chegar a um ponto em que estas sejam apenas morais. Ou seja, neste ultimo ponto, existe o controle total da matéria e suas imposições, em que o Espírito se percebe cada vez mais livre e próximo do seu destino iluminado.
Mas se neste processo, descrito como um modelo geral, o ser se deixa dominar pela matéria, estaciona e se identifica com o bruto. Ou seja, se na medida em que suas necessidades se tornam mais morais e ele ainda se prende, por escolha, àquelas materiais, atrasa seu passo. Aqui, a necessidade que antes era natural, um bem, torna-se um “mal”, uma vez que não mais é uma necessidade premente. Muita coisa, por exemplo, que é qualidade natural nas crianças é um defeito nos adultos.
Disso deduz-se que o mal é relativo e a responsabilidade é proporcional ao grau de adiantamento do Espírito. Ou seja, o que para um ser é um “mal”, para outro não, é necessidade evolutiva. O que torna algum ato “mal” é o grau de consciência a seu respeito: se sei que tal ato é prejudicial para mim e para os outros e mesmo assim ajo, atinjo minha própria consciência que já sabe das conseqüências de tal ato e se ressente disso.
“A quem mais é dado, mais será cobrado” – nesta fala de Jesus temos este princípio: para aquele que mais conhece, mais aprendeu, mais acumulou experiências, é maior a cobrança da própria consciência para arrumar o que estragou ou retificar caminhos.
Joanna de Angelis, no livro “Dias Gloriosos”, também nos ajuda a entender esta questão da origem e funcionamento do mal nos seres. Como já vimos, o mal que existe em nós é decorrência de elementos presentes em todo processo de desenvolvimento do homem (a luta pela vida, a lei do mais forte, a brutalidade, a astúcia) e que permanecem imperando, mesmo com o desenvolvimento da inteligência e dos sentimentos morais. São estes elementos que, atualmente, o homem vem aplicando contra si e contra os outros (excessos de vícios, guerras, roubos, ódios, homicídios, etc.).
Estas tendências seriam aquilo que Platão chamou de “face escura” e Jung de “sombra”– “local” no psiquismo onde permanecem os impulsos da violência, as paixões que escravizam e os instintos indomados. É este um mal que permanece no individuo mas que não deve ser reprimido ou esmagado com atitudes rígidas para não adquirir mais vigor. Deve ser, isto sim, identificado e trabalhado através de uma resistência ativa e consciente.
Para que tal resistência ocorra, é necessário o auto-exame para identificar os fatores que despertam este mal e o desencadeiam, predispondo os seres a agressão de todos os tipos. De um modo geral, o mal seria despertado em situações emergenciais, como um instinto de reação às aflições, pressões, agressões. Quando crianças, os desconfortos, os ataques, a dor nos causam reações que vão desde o choro (que reflete a impotência diante deles) ao medo ou a raiva (quando criança começa a ter reações de morder, bater, fugir). Este “mal” é inerente à infância – mas deve ser trabalhado pela educação. Senão, estes sentimentos na fase adulta tomarão vulto e se misturarão ainda com a vergonha e a culpa – que por sua vez geram mais medo e raiva, o que estimula a pratica do mal, seja como vingança seja como uma forma cruel de sobrevivência.
O homem tem medo da dor. Tudo o que pode levá-lo a sofrer é motivo de medo e raiva – e se estes sentimentos não são racionalizados e dominados, se exteriorizam como mal. Mas mesmo que o medo não possa ser muito controlado (se bem que possa ser racionalizado), a raiva pode ser administrada. Vemos então que o medo não é um sentimento de destruição, mas uma reação orgânica que desaparece quando a causa que a estimulou não existe mais. Assim, a ira, a raiva existem porque existe o medo da dor, do sofrimento, sendo uma exteriorização destes.
Ou seja, quando o indivíduo se vê sitiado de alguma forma, este mal nele existente (instintos de preservação ou de destruição) se transforma em fúria que enceguece, anulando a vontade e o raciocínio. O problema se torna maior na medida em que as atitudes decorrentes deste sentimento geram um sentimento de vergonha da própria inferioridade. Este sentimento de culpa leva o homem a sentir-se não merecedor de respeito de afeição, o que o faz tornar-se uma pessoa desconfiada e instável. A vergonha do ato praticado produz humilhação e rejeição, levando o ser a constantes batalhas mentais.
Uma pessoa madura, nesta situação, desperta e vai procurar os meios de reparar seus atos. Uma pessoa infantil, foge de vergonha do erro, procurando mecanismos de auto-justificação e autopunição – o que desencadeia o mal nela adormecido, que se converte em mágoa contra si mesmo e contra os outros (por isso que há pessoas que culpam os outros por terem criado a situação que o levou a agir de tal modo, sendo esta uma forma infantil de auto-justificar-se). Ele não consegue discernir, e a culpa sempre é dos outros.
Em resumo, o mal é um impulso inconsciente, automático, que emerge do abismo do ser como mecanismo de sobrevivência, e lhe desata tendências perturbadoras que se lhe encontravam jungidas. Estas tendências então não são produzidas pelo meio externo, mas apenas vem a tona diante dos estímulos. Ou seja, quando há o impulso latente do mal, os estímulos externos os despertam ou se já estiverem em ação, os vitalizam. O mal existente gera impulsos negativos que devem ser racionalizados, de modo tranqüilo, transformando a reação agressiva ou vil em ação dignificante e paciente.
No inconsciente do ser dormem milênios de impulsos automáticos – que a razão deve superar, depois destes serem decodificados e diluídos, cedendo lugar a ações edificantes. Como se vê, o mal é apenas a ausência do bem, ou seja, é, certamente, algo real que gera dor e perturbação, mas só existe por que ainda não se conhece os modos certos de agir diante da vida – ou seja, não se conhece as leis divinas.
6) O mundo de hoje e o mal nele presente
Tudo o que existe no mundo de hoje é decorrência então do império dos instintos que não mais cabem no momento evolutivo, de alto desenvolvimento intelectual. É o intelecto e o acúmulo de experiências que vai nos dando a noção e o discernimento entre o que é saudável ou não para a vida coletiva e individual. Estamos a duras penas aprendendo tal discernimento sendo que fatos que antigamente eram aplaudidos pela massa, hoje já recebem reprovação.
O “mal” no qual vivemos imersos não passa de um estado transitório do qual emana o bem, conduzindo o homem à felicidade pelo sofrimento e auxiliando seu progresso. Mas, para que possamos compreender como o bem pode resultar do mal é necessário apreender o conjunto das existências, do qual se pode ver as causas e seus efeitos interligados, em uma grande teia de acontecimentos.
Assim, quanto mais amadurecemos nosso entendimento da vida e de suas leis, quanto mais nos livramos das concepções materialistas, pessimistas e niilistas e mais nos imbuírmos da realidade de que somos seres espirituais, fadados ao brilho do progresso indefinido, eternidade afora, tudo se altera em nossa compreensão dos processos divinos de rearmonização pelos quais temos que passar, toda vez que cometermos alguma “loucura” no campo da vida[2].
Vivemos a realidade da construção íntima da paz e da felicidade, que não são dádivas imerecidas mas conquistas – tanto individuais quanto coletivas. Por isso estamos aqui na Terra, entre tantos seres em trabalhos purificadores e aqueles que ainda nem acordaram para sua realidade. Vivemos em um mundo bastante complexo mas ainda inferior, sendo que todos que aqui habitamos sofremos limites neste trânsito do instinto para a razão.
Para tal desenvolvimento, são várias as estratégias utilizadas pelas leis divinas. Principalmente aqueles baseados nos fenômenos que obedecem aos princípios atrativos e repulsivos do magnetismo humano: isto é, as criaturas vinculadas a uma mesma banda de freqüências mentais se buscam e se associam e passam a conviver atritando as deformidades morais. Neste atrito, tal como as pedras que rolam na correnteza dos rios, vão perdendo suas arestas, transformando sua opacidade íntima em brilho – tal como Jesus disse, “fazei brilhar a própria luz”.
De tal forma os pequenos ou grandes grupos de criaturas (nós mesmos) assinaladas pelo mesmo campo de necessidades, reúnem-se nos lares, cidades ou mesmo países. O psiquismo de cada um, em sua exteriorização, libera fluidos que criam um “clima psíquico” do grupo. Com isso, podemos criar zonas supremamente densas, de alto nível de violência, de crueldade, de criminalidade, se os impulsos exteriorizados são desse teor.
Dentro das experiências mais dolorosas, os indivíduos parecem nada mais enxergar diante dos seus olhos, a não ser a motivação enlouquecida em que se envolvem. É como se estivessem num inferno de escuridão espessa, guardando a sensação de que há somente um caminho para resolver suas pendências.
Isso com certeza não significa que Espíritos envolvidos em contextos difíceis tenham vindo ao mundo para perder a oportunidade, ou simplesmente para sofrer. Na verdade, são criaturas que não têm a necessária maturidade do senso moral para chegar à Terra e mergulhar, corajosamente, no oceano das oportunidades felizes que Deus nos oferece. Dado o seu estado de fragilidade moral, sua localização nessas zonas faz parte do amor divino, quando lhes permite defrontar-se com outros indivíduos portadores do seu mesmo problema; de impulso similar. Graças ao choque de semelhantes acabam por cansar-se, pouco a pouco, das tendências de que são portadores, desenvolvendo nova consciência a respeito das relações humanas. No referente às leis do psiquismo, os semelhantes se atraem reciprocamente, o que lhes permite o gradativo auto-exame ao examinar o outro.
Paralelos a esses núcleos de loucura, violência e dores acerbas, que visam descristalizar estruturas congeladas da alma humana, há outros cuja finalidade é a de reunir devedores das leis eternas, nos quais o mundo psíquico acha-se adensado por remorsos decorrentes de repetidas atitudes infelizes.
Esses núcleos são formados por indivíduos que, sozinhos ou em grupos, disseminaram penúria, covardia, doenças através do poder que detinham antes da morte. Hoje, são vitimados por “fatalidades” das quais não conseguem libertar-se. Vivem em regiões de graves endemias ou pandemias, em condições subumanas, sob governos indiferentes ou desestruturados econômica, política e moralmente. Nessas condições, são compelidos a assistir a fome dos filhos, a doença nos seres queridos. Da forma em que se vêem, sem vez nem voz, sendo, intimamente, corroídos por secreta intuição de que tudo tem um razão de ser, embora as coisas não precisassem ser assim.
Mas nunca nenhum ser está abandonado pela misericórdia de Deus. Seu amor está permanentemente presente auscultando as disposições das almas e atendendo-as de conformidade com suas carências e buscas. Mesmo não parecendo, as almas reencarnadas nas varias regiões de dores no Planeta, cujos vórtices de energia mental são alimentados e impulsionados por sua vontade, vão, ao longo do tempo, sentindo-se cansadas com a densidade e a dificuldade que alimentam.
O mundo terrestre conta com muitas “zonas expiatórias” que são, por sua vez, regiões de reequilíbrio de grande contingente de filhos de Deus que, durante muito tempo ainda estarão tentando atear fogo aos campos da humanidade inteira, ou estarão envolvidos em processos de barbarismos contra seu semelhante, batendo no peito como donos da razão e senhores da verdade. Deus, contudo, aguarda que na grande fogueira por eles mesmos montada, queimem-se, ainda que vagarosamente, os fluidos pestilenciais que vão dando margem ao aparecimento de fluidos salutares, que irão preenchendo os vazios morais do planeta.
Estas localidades são regiões de reequilíbrio para onde indivíduos das mais diversas procedências terrenas são conduzidos para que renasçam ali, considerando o estado da alma, os níveis de tormento, de ódio enraizado ou de beligerância a sair do próprio íntimo. Assim, aprenderão a buscar a saúde interna, o equilíbrio da mente, cansando-se da loucura de ações irracionais, dos derramamentos de sangue, da sanha da destruição degenerativa, desistindo, por fim, de tanto pranto derramado pelos pretensos inimigos, que não passam de irmãos seus, e por si mesmos. Começarão a sensibilizar-se com as propostas de paz…
E dado o fato de sermos imortais, o Criador vai-nos concedendo tempo devido para que todos nos possamos conscientizar do compromisso de avançar pela senda do progresso, que nos trouxe à Terra, verificando como andam nossos impulsos perniciosos, bem como nossos movimentos para Deus.
Assim, a crença no mundo de hoje, na vida e nas pessoas depende de uma visão de continuidade, mais ampla, que abarque todo o processo evolutivo planetário e humano, que levem em conta os atributos divinos e suas leis, que entenda as redes interligadas de causas e efeitos e que sinta em si a esperança e a grande oportunidade de vivermos em um mundo que nos coloca tantos desafios.
Inadiável será aproveitar a presente oportunidade reencarnatória, na Terra que se transforma, aos poucos, em agradável e feliz moradia sideral, a fim de cooperarmos com Cristo que tanto investe nas possibilidades de progresso do Seu rebanho, e para que nos tornemos agentes do amor e semeadores da paz, nossa coroa sublimada, nosso refúgio de luz.
[1] Kardec, A Gênese: Capítulo III, Item 10.
[2] As palavras deste parágrafo são retiradas do belíssimo livro “A Carta Magna da Paz”, de Camilo – psicografia de Raul Teixeira. Não apenas este parágrafo como os restantes são reconstruções das palavras/argumentos ou mesmo citações literais deste livro.
Leia a versão integral deste texto, na forma de uma Carta escrita para alguém que crê e em Deus mas que não entende porque o mundo está como está. Clique aqui: artigo-evolucao-e-mundo-atual.doc
Eu só o escrevi para tentar consolar um ser amado…
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