*Espiritualidade

10 Setembro, 2008 at 7:07 pm | In * Práticas de meditação *, * Viver o presente * | 3 Comments

Por Walt Whitmann

“Quero fazer os poemas das coisas materiais,
pois imagino que esses hão de ser
os poemas mais espirituais.
E farei os poemas do meu corpo
E do que há de mortal.
Pois acredito que eles me trarão
Os poemas da alma e da imortalidade.”
E à raça humana eu digo:
-Não seja curiosa a respeito de Deus,
pois eu sou curioso sobre todas as coisas
e não sou curioso a respeito de Deus.
Não há palavra capaz de dizer
Quanto eu me sinto em paz
Perante Deus e a morte.
Escuto e vejo Deus em todos os objetos,
Embora de Deus mesmo eu não entenda
Nem um pouquinho…
Ora, quem acha que um milagre alguma coisa demais?
Por mim, de nada sei que não sejam milagres…
Cada momento de luz ou de treva
É para mim um milagre,
Milagre cada polegada cúbica de espaço,
Cada metro quadrado de superfície
Da terra está cheio de milagres
E cada pedaço do seu interior
Está apinhado de milagres.
O mar é para mim um milagre sem fim:
Os peixes nadando, as pedras,
O movimento das ondas,
Os navios que vão com homens dentro
- existirão milagres mais estranhos?”

Quem fala demais esconde a verdade?

27 Agosto, 2008 at 1:08 pm | In * Comentários pessoais sobre as coisas da vida *, * Práticas de meditação *, * Viver o presente * | 7 Comments
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Eu sempre falei demais. Hoje consigo entender melhor os mecanismos por detrás disso. É normal em nosso mundo pessoas falarem, e muito, o tempo todo, sobre todas as coisas: opiniões, críticas, reclamações, xingamentos, coisas que fez, coisas que fará, etc, etc…

Hoje, um pouco mais quieta, graças à constante prática meditativa, percebo que a fala muitas vezes é apenas barulho. A gente acha que falar é conversar, certo? Mas recentemente descobri que falar pode ser apenas…falar. Pode não implicar uma verdadeira comunicação. Faça a seguinte experiência: ao encontrar um conhecido, procure prestar atenção no que ele fala – geralmente é sobre as coisas que tem feito e etc… E quando ele pergunta pra você “E você, como está?”, na primeira oportunidade volta a falar de si… Perceba se ele ou ela presta atenção no que você está dizendo. Perceba se você mesmo alguma vez já prestou real atenção ao que o outro fala. Perceba se você consegue ficar em silêncio diante desta pessoa…

O silencio é a prova dos nove. Eu consigo ficar em silêncio diante de meus pais e meu marido. Não preciso falar. Eles já me conhecem. A gente se comunica pela presença. Agora, diante de algum “amigo” ou conhecido, tenho ímpetos gravíssimos de fala ininterrupta… Por que será?

Minha conclusão: a fala, pelo menos a minha, acaba servindo como muro de defesa contra as outras pessoas. Quando a gente fala, é capaz de criar uma distância segura em relação ao outro, como se não precisasse realmente se envolver com aquela pessoa naquele momento. É aquela coisa, quando tem barulho, a gente não consegue prestar atenção…

Ao contrário, quando tem silêncio, você não tem com o que se distrair. A salvação é começar a olhar para os lados, ver o movimento. Olhar nos olhos é um martírio, certo? Outra saída é se perder em pensamentos – mas ia ficar estranho duas pessoas, uma diante da outra, cada qual perdida em seus pensamentos…. mas acontece… Pensando melhor, creio que o silêncio também não é representativo da verdadeira comunicação….

Enfim… o que é comunicar-se? Acho que é estar ali, diante daquela pessoa, naquele exato momento. Não é falar sobre o passado – pois ele não está mais ali. Relações baseadas apenas no passado não são mais reais. Vivem apenas de memórias. É memória não é fato – não mais. Não é falar sobre o futuro – ô mania nossa de querer construir uma imagem pessoal falando de nossos “planos”, das coisas que faremos dali a um mês, das nossas idéias geniais… de que adianta falar de algo que ainda nem existe? É fácil se “garantir” apenas pelo discurso – as palavras não tem limites, podemos viajar na maionese. O difícil é realizar apenas 5% daquilo que falamos. Por isso não conto mais nada pra ninguém dos meus planos até que eles se realizem. Mas daí não preciso falar mais, pois eles já estão ali, pra todo mundo ver…

Se não é viver o passado nem o futuro, comunicar-se é ser algo diante da outra pessoa. Não precisa de fala nem de silêncio, apenas de ´verdade´. Eu acredito na ´verdade´ – não a dos dogmas ou teorias, mas da verdade dos fatos. Da presença autêntica. Da transparência. Da límpida e honesta franqueza.

Para prestar atenção real nos outros precisamos estar em contato com a verdade. Pois o outro pode nos trazer muitas surpresas, que podem, por sua vez, destruir nossas crenças pré-estabelecidas, nossos dogmas, nossos pontos de vista rigorosos. O outro, um ser tão complexo e diverso como nós mesmos, tem muitas verdades para nos mostrar. Os outros podem nos falar a verdade. E só quer ver ou ouvir a verdade, quem quer a verdade – óbvio, não? Por isso que a gente diz que amigo que fala a verdade é grosso? Ou estúpido? Um pequeno parênteses (nós, brasileiros, temos que ser muito cordiais, sempre. Aqui, falar a verdade, ser objetivo e muito direto, é crime. Temos sempre que inventar uma desculpa para o que não queremos fazer ou mesmo pedir desculpas por não querermos algo que nos oferecem, como se isso fosse uma ofensa pessoal. A comunicação aqui é cheia de firulas e melindres, meio gosmenta, sabe? No meio político nem se fale – cheia de rodeios, respostas sem nexo e sentido. É prática comum fugir do foco – porque o foco geralmente fede…)

Comunicar-se é ser capaz de perceber o sofrimento profundo a nossa frente. De perceber a aversão que nossa presença causa. É perceber o afeto que outros tem por nós. É escutar o que o outro tem a dizer – escutar mesmo, sem ficar o tempo todo tentando enquadrar em nosso quadro de referência aquilo que o outro diz ou é. É perceber o que está por trás, nas entrelinhas, de um sorriso malicioso ou de um falso aperto de mão. É perceber o quanto somos responsáveis, diretamente, pela sanidade de outras pessoas – nossa presença no mundo tem um impacto gritante, queiramos ou não. Podemos nos esconder nas mentiras ou frivolidades por muito tempo, mas ainda assim nossa vida será referência para outras pessoas.

Para comunicar-se, além de ouvir e ver a verdade, temos que ser capazes de mostrar/falar/ser a verdade. Daí o bicho pega…

PS – Para aqueles interessados na mais profunda verdade de si mesmos – incluindo podres e grandes virtudes, indico, pra variar, a prática da meditação silenciosa e a participação anual em sesshins da tradição zen budista… Coisa mais eficiente eu nunca vi…

Penso, logo, existo. Será?

23 Julho, 2008 at 5:58 pm | In * Comentários pessoais sobre as coisas da vida *, * Práticas de meditação *, * Viver o presente * | Leave a Comment
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Muitos dias atrás li uma matéria na Revista IstoÉ e o caso de uma jovem de 18 anos me chamou atenção. Ela mora em São Paulo, tem cabelos castanhos, é tímida e com poucos amigos, detesta maquiagem e usa óculos. Sai do cursinho todos os dias às 12h30 e, ao chegar em casa, se transforma em Brina – loira, alta, produzida, com um corpo “violão” e superextrovertida, alma de qualquer festa. Brina nada mais é do que uma personagem do jogo virtual Second Life, mundo em que a jovem mergulha até a hora de dormir. A “second life” ou “segunda vida” acaba sendo muito mais interessante do que a vida real, a “primeira vida”: “já saí várias vezes com meus amigos e me arrependi de não ter ficado em casa jogando”, diz a paulistana. Pois é, na vida número 2 a gente “pode voar, correr riscos e encontrar uma novidade a cada dia”, diz outro jovem paulistano entrevistado para a matéria.

Eu me lembro bem de quando era adolescente e da minha necessidade imensa de ficar ouvindo sem parar e para tudo meu walk-man-de-fita-cassete-com-músicas-gravadas-do-rádio. Até me identifiquei com os jovens de hoje que vão em festas sem música ambiente e onde cada um fica ouvindo seu próprio repertório no i-Pod. Na época de outros tecnologias, a companhia das minhas milhares de fitas K-7 era bem melhor do que a do mundo a meu redor. Lembro também de como esperava a hora de dormir para finalmente entrar em meu mundinho imaginário. Toda noite, antes de dormir, eu alimentava uma história imaginária da minha vida: tinha uma casa com uma janela imensa, um sofá branco enorme e uma decoração modernista misturada às linhas clássicas. Eu era muito moderninha. Solteira, profissional hiper-requisitada e liberal, muitos amigos e reuniões regadas a um bom vinho chileno…E olha que eu só tinha 13 anos…

Eu não precisava de tecnologia. Tinha minha “second life” na mente. E mesmo que minha mãe, para me curar de meu isolamento, quisesse me tomar meu amado walk-man (para quem não sabe o que isso significa, imagine sua querida mãe hoje querendo te tomar o seu i-Pod ou seu celular com MP4 e câmera de 4 Mega)… ela não poderia nunca mandar na minha mente….

Acho que não podemos culpar o desenvolvimento tecnológico pelos nossos problemas. A grande diferença entre ontem e hoje é que aumentou o número de possibilidades – os aparelhos e programas de computador apenas nos oferecem mais meios pelos quais podemos nos alienar do mundo. Com ou sem aparelho, o problema real é o da alienação… Viver uma vida imaginária porque a vida real não nos agrada – este sim, é o problema. Simplesmente porque a vida imaginária não existe de fato… Onde está uma pessoa que vive em um lugar que não existe?

Alguns podem até discordar de mim e defender o mundo da imaginação como uma forma de vida factível. Tudo bem, até é factível mesmo. Somos bem capazes de viver isolados, dentro de nossa própria construção mental e emocional, durante muitos e muitos anos. Eu vivi assim. Até penso que este seja o modo dominante de vida em nossa sociedade – não nos enxergamos realmente, somos apenas personagens das historinhas uns dos outros…e ai de quem não cumprir bem o papel por nós determinado!

Inventar uma historinha pra boi dormir, porque nossa vida é muito chata (pra dizer o mínimo), acaba trazendo mais problemas do que soluções. Pode consolar e trazer certo prazer por um bom tempo, mas na hora em que a vida nos chacoalha com algum dos seus típicos “banhos de realidade” (morte, perda, doença, etc…) nos vemos nus e sem toalha para nos enxugar. E o frio que bate é intenso, pode ter certeza.

Esta desconexão entre mente e corpo trazem muita confusão e, consequentemente, sofrimento. Quero ter outro corpo, mas o corpo que tenho é esse que vejo no espelho, mesmo não querendo! Quero outros pais, mas os que (não) tenho são estes que vejo na hora do jantar, mesmo querendo a família do vizinho! Odeio minhas origens mas nasci nesta cidade e tenho estes antepassados, fazer o que?! O outro corpo, os outros pais, os outros amigos, as outras origens que crio na minha mente são só da minha mente. Não existem. Daí, quando eu acordo do sonho, tenho que fingir que vivo por algumas horas, até o momento em que vou poder sonhar de novo.

Não ver as coisas como elas são dói mais do que aceitar. Isolar-se é mais pesado do que se arriscar nas relações. Fechar-se para o mundo, para as pessoas, para as sensações, para as dores, faz a gente morrer aos poucos, de inanição. Porque o nosso mundo imaginário não é tão rico e infinito de possibilidades quanto o mundo real – por mais doloroso que ele possa ser. Hoje, eu prefiro a dor da vida à dor inventada por mim mesma.

“Ordem Interser”…

5 Fevereiro, 2007 at 3:46 pm | In * Práticas de meditação *, * Sobre o budismo de Thich Nhat Hanh - INTERSER, * Viver o presente * | Leave a Comment
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“Eu acredito que o encontro entre o budismo e o Ocidente vai dar origem a algo muito importante. O Ocidente possui vários valores como a ciência, o espírito de investigação livre, a democracia. Se esses valores se encontrarem com o budismo, a humanidade ganhará algo muitíssimo novo e estimulante. (…)

O princípio budista de agir e ver as coisas de forma não dualista, se combinado com a maneira ocidental de fazer as coisas, poderá mudar totalmente nosso sistema de vida. O que os budistas norte-americanos estão fazendo é importante para todos nós: trazer o budismo para a civilização ocidental.

O budismo não é um só. Os ensinamentos do budismo são muitos. Ao entrar num país ele toma uma nova forma. Quando eu visitei pela primeira vez uma comunidade budista nos Estados Unidos, perguntei a meu acompanhante: – Por favor, mostre-me seu Buda, o Buda americano. A pergunta surpreendeu meu amigo porque ele pensava que Buda fosse universal. Na China existe o Buda Chinês, no Tibete o Buda Tibetano e, também, os ensinamentos diferem. A forma de ensinamento budista neste último país é diferente da dos outros países. Budismo para ser budismo tem que se apropriar da psicologia e cultura da sociedade em que serve. Minha pergunta era muito simples: – Onde está seu bodhisattva? Mostre-me um bodhisattva americano. Meu amigo não soube fazê-lo. (…)

Eu gostaria de apresentar a vocês uma forma de budismo que pode ser facilmente aceita aqui no Ocidente. Temos experimentado essa forma de budismo ao longo dos últimos 20 anos e ela cabe muito bem na sociedade moderna.

A “Ordem do Interser“(ou “Tiep Hien”) foi fundada no Vietnã durante a guerra. Deriva a Escola Zen de Lin Chi e está em sua 42a geração. É uma forma de budismo engajado, budismo aplicado na vida diária, na sociedade, e não somente em centros de retiro. Tiep Hien são palavras vietnamitas de origem chinesa. Eu gostaria de explicar o seu significado porque se tomará mais fácil compreender o espírito dessa ordem.

Tiep quer dizer estar em contato. A noção de budismo engajado já aparece na palavra Tiep. Antes de tudo temos que estar em contato conosco mesmos. No mundo moderno a maioria de nós não quer ficar em contato consigo mesmo. Preferimos nos pôr em contato com outras coisas, como a religião, o esporte, a política ou um livro – queremos esquecer a nós mesmos. Sempre que temos um tempo de lazer convidamos, logo, alguma coisa para entrar em nós, como a televisão, por exemplo; abrindo-nos para que ela venha até nós e nos colonize. Assim, antes de tudo, em contato significa em contato consigo mesmo, a fim de encontrar a fonte da sabedoria, do entendimento, da compaixão em cada um de nós. Estar em contato consigo mesmo é o sentido da meditação; estar consciente do que está acontecendo no seu corpo, nos seus pensamentos, na sua mente. Esse é o primeiro significado de Tiep.

Significa também estar em contato com os Budas e bodhisattvas, pessoas cujo pleno entendimento e compaixão são tangíveis, efetivos. Estar em contato consigo mesmo quer dizer estar conectado com a fonte da sabedoria e compaixão. As crianças compreendem que Buda está nelas próprias. No primeiro dia de um retiro que houve em Ojai, na Califórnia, um menino afirmou ser Buda. Eu lhe disse que isso era verdade em parte, pois às vezes ele era às vezes não dependendo do grau em que sua mente estivesse desperta.

A segunda parte do significado de Tiep é dar continuidade, fazer algo perdurar. Significa que o caminho para o entendimento e a compaixão, aberto por Buda e bodhisattvas, deve ser continuado, Isso só é possível quando entramos em contato com nosso verdadeiro eu; e isso eqüivale a perfurar o solo até atingir a fonte de água fresca escondida sob a terra para que o poço se inunde dela. Quando entramos em contato com nosso verdadeiro ser, a fonte de sabedoria, entendimento e compaixão jorram como água. Esta é a base de todas as coisas. Estar conectado com nosso verdadeiro ser é necessário para dar continuidade ao caminho iniciado por Buda e bodhisattvas.

Hien significa momento presente. Temos que estar no aqui e agora, porque só o presente é real, só no momento presente é que podemos estar vivos. No budismo não praticamos em nome do futuro ou para renascer no paraíso, mas sim para ser paz, compaixão e alegria no momento presente. Hien quer também dizer tornar real, manifestar, realizar. O amor e o entendimento não são apenas conceitos e palavras; são realidades manifestadas em si próprio e na sociedade. É isso que Hien significa.

É difícil encontrar, no inglês ou no francês, palavras que transmitam o significado de Tiep Hien. Mas existe um termo no suttra Avatamsaka que transmite bem o espírito dessa palavra. É o termo interser, isto é, ser mutuamente. Interser é uma palavra nova, e espero que seja incorporada às palavras dos dicionários. Nós já falamos anteriormente acerca do todo contido no um e do um contido no todo. Numa folha de papel podemos ver o todo: a nuvem, a floresta, o lenhador. Eu sou; portanto, você é. Você é; portanto, eu sou. Esse é o significado da palavra interser. Nós não somos, nós intersomos. (…)

PRECEITOS DA ORDEM DO INTERSER

4 Fevereiro, 2007 at 3:43 pm | In * Práticas de meditação *, * Sobre o budismo de Thich Nhat Hanh - INTERSER, * Viver o presente * | Leave a Comment
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Os preceitos geralmente começam com advertências relativas ao corpo, como não mate. Os preceitos da Tiep Hien aparecem, de certa forma, em ordem inversa – os que dizem respeito à mente vêm antes. No budismo a mente é a raiz de tudo. Os preceitos da Ordem de Interser são os seguintes:

PRIMEIRO - Não idolatre nem se apegue a nenhuma doutrina, teoria ou ideologia, nem mesmo às budistas. Os sistemas de pensamento devem servir como um meio para guiá-lo e não como verdade absoluta.

Este preceito é o rugido do leão. Seu espírito é característico do budismo. Nós sempre dizemos que os ensinamentos de Buda são apenas uma embarcação para ajudá-lo a cruzar o rio ou um dedo apontando para a lua. Não confunda o dedo com a lua. A embarcação não é a margem. Se nos apegamos à embarcação, se nos apegarmos ao dedo estaremos perdendo tudo. Não podemos, em nome do dedo ou da embarcação, matar uns aos outros. A vida humana é mais preciosa do que qualquer ideologia ou doutrina.

A Ordem de Interser nasceu no Vietnã durante a guerra, que era um conflito entre duas ideologias do mundo. Em nome de ideologias e doutrinas pessoas matam e são mortas. Se você tem uma arma poderá atirar em uma, duas, três ou cinco pessoas; mas se você tem uma ideologia e se fixa a ela, pensando que é verdade absoluta, poderá matar milhões. Este preceito inclui o preceito de não matar em seu mais profundo sentido. A humanidade sofre muito por apego a pontos de vista:

- Se você não seguir este ensinamento eu corto sua cabeça fora.

Em nome da verdade matamos uns aos outros. O mundo está, agora, encalhado nessa situação. Muitos pensam que o marxismo é o mais alto produto da mente humana, que nada pode ser comparado a ele. Outros pensam que consiste numa loucura, e que devemos destruir todos os marxistas. Estamos presos nessa situação.

O budismo não é assim. Um dos ensinamentos básicos de Shakyamuni é este: a vida é a mais preciosa coisa. Isto vem como resposta ao nosso maior problema: guerra e paz. Esta só pode ser alcançada quando não estamos apegados a um ponto de vista, quando estamos livres do fanatismo. Quanto mais você decide praticar este preceito, mais profundamente estará penetrando na realidade e compreendendo os ensinamentos de Buda.

SEGUNDO – Não pense que o conhecimento que você tem no presente é imutável, verdade absoluta. Evite estreitar sua mente limitando-a apenas à sua visão presente. Aprenda e ponha em prática o desapego de opiniões afim de que, assim, possa abrir-se para receber pontos de vista de outros. A verdade é encontrada na vivência, não no conhecimento conceitual. Esteja pronto a aprender, a observar a realidade em você mesmo e no mundo, ao longo de toda a sua existência.

Este preceito é oriundo do primeiro. Lembre-se do jovem pai que se recusou a abrir a porta ao seu próprio filho, achando que o menino já havia morrido. Buda disse: – Se você se apega a alguma coisa como verdade absoluta, quando a verdade em pessoa bater à sua porta, você não a deixará entrar.

Um cientista com uma mente aberta, que é capaz de questionar o atual conhecimento da ciência, terá maior chance de descobrir uma verdade que está mais além. Também um budista, em sua meditação, em sua busca por maior entendimento, tem que questionar seu presente ponto de vista quanto à realidade. A técnica para chegar ao entendimento é superar os pontos de vista e o conhecimento. O desapego de pontos de vista é ensinamento básico de Buda em relação ao entendimento.

TERCEIRO – Não force ninguém – nem as crianças – por meio algum, a adotar seus pontos de vista; seja através de autoridade, ameaça, dinheiro, propaganda ou mesmo educação. Porém, através de diálogo compassivo, ajude os outros a se livrarem da estreiteza mental e do fanatismo.

Este preceito também é oriundo do primeiro. É o espírito da livre investigação. Acho que os ocidentais podem aceitá-lo porque o entendem. Se vocês arrumarem uma forma de organizá-lo globalmente, será um auspicioso evento para o mundo.

QUARTO – Não evite contato nem feche os olhos para o sofrimento. Não perca a noção da existência do sofrimento na vida do mundo. Procure estar com os que sofrem por todos os meios, seja por contato pessoal, visitas, imagens, sons. Desperte dessa forma sua própria consciência e a dos outros para a realidade do sofrimento no mundo.

A primeira palestra com respeito ao Dharma feita por Buda foi sobre as Quatro Nobres Verdades. A primeira verdade é a existência do sofrimento. Este tipo de contato e consciência é necessário. Se não nos confrontarmos com a dor, com os males, não procuraremos a causa dos mesmos para, assim, achar um remédio que nos faça sair da situação.

A América é, de certa forma, uma sociedade fechada. Os americanos não estão muito conscientes do que se passa fora da América. A vida aqui é tão movimentada que, mesmo mostrando imagens de fora pelos jornais e TV, não se estabelece um real contato. Espero que vocês encontrem alguma forma de se conscientizarem do sofrimento no mundo. É claro que dentro da América também existe sofrimento; é deveras importante entrar em contato com os mesmos. Mas muito sofrimento no Ocidente é inútil e pode esvair-se quando olharmos o real sofrimento de outros povos. Às vezes sofremos por causa de algum fator psicológico. Não conseguimos escapar de nós mesmos e, então, sofremos. Se tivermos contato com o sofrimento do mundo e formos tocados por ele, podemos seguir adiante ajudando as pessoas que estão sofrendo, e o nosso próprio sofrimento poderá desaparecer.

QUINTO – Não acumule fortuna enquanto milhões estão passando fome. Não tenha como meta de vida, a fama, o proveito, a riqueza ou o prazer sexual. Leve uma vida simples e partilhe seu tempo, energia e recursos materiais com aqueles que necessitam.

O Sutra das oito realizações dos grandes seres diz “A mente humana está sempre à caça de posses e nunca se satisfaz. Os bodhsattvas se movem em direção oposta e seguem o princípio da auto-suficiência. Eles vivem de maneira simples, a fim de praticarem o caminho, e consideram a realização da perfeita compreensão sua única carreira”. No contexto da sociedade moderna viver em simplicidade significa também permanecer o mais livre possível da destrutiva máquina social e econômica, evitando, assim, o stress, a depressão, a pressão alta e outras doenças modernas. Devíamos fazer todos os esforços para evitar as pressões e ansiedade que assolam a vida moderna. A única forma é consumir menos. Uma vez que somos capazes de viver simplesmente e felizes, seremos capazes de ajudar os outros.

SEXTO – Não guarde ódio ou rancor. No momento em que esses sentimentos surgirem, medite na compaixão para poder compreender em profundidade as pessoas que os causaram. Aprenda a ver os outros com os olhos da compaixão.

Quando a irritação e a raiva surgem, temos que estar conscientes e tentar entendê-las. Uma vez que as entendemos, nos tomamos mais capazes de perdoar e amar. Meditar na compaixão significa meditar no entendimento. Se não compreendemos, não podemos amar.

“Aprenda a olhar os outros seres com olhos de compaixão”. Esta frase é diretamente extraída do capítulo sobre Avalokitesvara no Sutra de Lótus. Você talvez gostaria de escrevê-la e colocá-la no local em que se senta para meditar. Seu original chinês tem apenas cinco palavras: “Olhos compassivos olhando seres vivos”. Quando recitei pela primeira vez o Sutra de Lótus, fiquei em silêncio ao chegar a essas cinco palavras. Eu sabia que elas bastavam para mudar toda a minha vida.

SÉTIMO – Não se deixe perder em dispersões ou no ambiente que o cerca. Aprenda a focar sua atenção na respiração para recobrar o controle do corpo e da mente. Aprenda a manter a mente alerta e a desenvolver entendimento e concentração.

Este preceito está no meio. É o coração dos 14 preceitos. O mais importante deles é viver em plena consciência. Sem este preceito, sem a mente estar desperta, os outros preceitos não podem ser totalmente observados. É como carregar uma haste. Na Ásia usavam carregar coisas penduradas nas extremidades de uma haste colocada sobre os ombros. Este preceito é como o meio da haste que você carrega sobre os ombros.

OITAVO – Não diga palavras que possam criar discórdia e causar ruptura na comunidade. Todos os esforços devem ser empregados no sentido de reconciliar e resolver os conflitos, por menores que sejam.

Agora chegamos ao segundo grupo de preceitos; referem-se à fala. Os sete primeiros lidam com a mente, dois com a fala e cinco com o corpo. Este preceito se refere à reconciliação, ao esforço para estabelecer a paz, não somente na família, mas também na sociedade. Para ajudar a reconciliar um conflito, temos que estar em contato com ambos os lados. Temos que transcender o conflito; se ainda estamos em conflito, fica difícil reconciliar. Temos que ter um ponto de vista não dualístico para podermos ouvir ambos os lados e compreender. O mundo precisa de seres assim, com capacidade de compreender e ter compaixão.

NONO – Não diga mentiras para favorecer seus interesses pessoais ou para impressionar os outros. Não diga palavras que causem divisão e rancor. Não espalhe notícias que você não sabe ao certo. Não critique nem condene coisas das quais você não tem certeza.

Fale sempre a verdade, e construtivamente. Tenha coragem de denunciar as situações injustas, mesmo quando elas possam ameaçar sua segurança. As palavras que dizemos podem criar amor, confiança e felicidade em tomo de nós, ou podem criar um inferno. Devemos ter cuidado com o que dizemos. Se nossa tendência é falar em demasia devemos nos tornar conscientes disso e aprender a falar menos. Temos que estar conscientes do que falamos e dos resultados de nossa fala. Há uma gatha que pode ser recitada antes de atender ao telefone:

Palavras podem percorrer milhares de milhas.

Elas se destinam a construir compreensão e amor.

Cada palavra deve ser uma jóia,

uma bela tapeçaria.

Devemos falar construtivamente. Podemos, em nossa fala, tentar não causar mal-entendidos, rancor ou ciúme; e sim aumentar o entendimento e a mútua aceitação. Ela pode até mesmo ajudar a reduzir nossa conta telefônica. O nono preceito requer, também, franqueza e coragem. Quantos de nós são suficientemente corajosos para denunciar a injustiça numa situação em que falando a verdade a segurança pessoal pode ser ameaçada?

DÉCIMO – Não use a comunidade budista para ganhos ou proveitos pessoais. Nem a transforme em partido político. Contudo, uma comunidade religiosa deve tomar posição clara contra a opressão e a injustiça e esforçar-se para mudar a situação sem engajar-se em conflitos partidários.

Isso não significa que devemos nos silenciar acerca da injustiça. Significa apenas que devemos fazê-lo com plena consciência e não tomar partido. Devemos dizer a verdade e não, apenas, pesar as conseqüências políticas. Se tomamos partido, perdemos nosso poder de ajudar e mediar o conflito.

Durante uma visita à América conheci um grupo de pessoas que queriam angariar fundos para ajudar o governo do Vietnã a reconstruir o país. Perguntei se eles também gostariam de fazer algo para ajudar o povo-de-barco e eles disseram que não. Achavam que politicamente não era bom falar sobre o povo-de-barco porque causaria descrédito ao governo do Vietnã. Para terem êxito numa coisa eles se abstêm de fazer outra coisa que acham certa.

DÉCIMO PRIMEIRO – Não viva uma vocação que seja prejudicial à humanidade e à natureza. Não invista em companhias que privem outros da chance de viver. Escolha uma vocação que ajude a realizar seu ideal de compaixão.

Este é um preceito duro de observar. Se você tem bastante sorte em ter uma vocação que o ajude a realizar seu ideal de compaixão, ainda assim você precisa entender mais profundamente. Se sou um professor, fico contente com meu trabalho de ajudar as crianças; fico contente de não ser um açougueiro que abate bois e porcos. Contudo, o filho e a filha do açougueiro vêm à minha aula e eu os ensino. Eles tiram proveito da minha correta subsistência. Meu filho e minha filha comem da carne que o açougueiro prepara. Um elo nos liga. Não posso dizer que minha subsistência é perfeitamente correta. Pode não ser. Na observação deste preceito está implícito achar meios de realizar uma subsistência coletiva.

Você pode tentar seguir uma dieta vegetariana para diminuir o abate de animais, mas não pode evitar completamente a matança. Ao beber um copo d’água você mata muitos ínfimos seres. Mesmo em seu prato de vegetais existem muitos deles, fervidos e fritos. Eu estou consciente de que meu prato vegetariano não é totalmente vegetariano, e de que nem meu mestre, o Buda, poderia evitá-lo se estivesse aqui. O problema é se estamos ou não determinados a seguir na direção da compaixão. Se estamos, podemos com isso reduzir o sofrimento ao mínimo? Se perco minha direção, tenho que olhar para a estrela do Norte e sigo para o Norte. Isso não quer dizer que eu espere chegar até a estrela do Norte. Eu apenas sigo naquela direção.

DÉCIMO SEGUNDO – Não mate. Não deixe que os outros matem. Por todos os meios possíveis defenda a vida e evite a guerra.

O orçamento e os gastos em defesa nos países ocidentais são enormes. Estudos demonstram que se a corrida armamentista parasse, o dinheiro seria mais do que suficiente para acabar com a pobreza, a fome, o analfabetismo e muitas doenças no mundo. Este preceito não é aplicado somente aos seres humanos, mas a todos os seres vivos. Como vimos antes, ninguém pode observar este preceito com perfeição; porém sua essência é respeitar a vida, fazer o que está a nosso alcance para protegê-la. Isto quer dizer não matar nem deixar que outros matem. É difícil. Aqueles que tentam observar este preceito devem estar trabalhando pela paz, para que eles mesmos tenham paz. Impedir a guerra é melhor do que protestar contra ela. Protestar significa que já é tarde, que ela já teve início.

DÉCIMO TERCEIRO - Não possua nada que deveria pertencer a outros. Respeite a propriedade alheia; mas impeça que outros se enriqueçam através do sofrimento alheio.

Conscientizando-nos do sofrimento causado pela injustiça social, o décimo terceiro preceito nos incita a trabalhar por uma sociedade mais viável. Este preceito é ligado ao décimo quarto (a conscientização do sofrimento), ao quinto (modo de viver), ao décimo primeiro (subsistência correta) e ao décimo segundo (proteção da vida).

Para compreender este preceito em profundidade, precisamos meditar também sobre esses quatro preceitos a que acabamos de nos referir. Desenvolver meios de impedir que outros enriqueçam à custa do sofrimento humano e do sofrimento de outros seres é dever dos legisladores e políticos. Porém, cada um de nós pode agir nesse sentido. Estando próximos de pessoas oprimidas podemos, de certo modo, ajudá-las a proteger seu direito à vida e a defenderem-se contra a opressão e exploração. Não podemos deixar que pessoas se enriqueçam do sofrimento humano e de outros seres. Como comunidade devemos impedir isso. Temos que considerar o problema de como trabalhar pela justiça em nossa própria cidade. Os votos do bodhisattva – de ajudar todos os seres vivos – são extensos. Cada um de nós pode fazer um voto de sentar-se em seu barco de salvamento.

DÉCIMO QUARTO – Não maltrate seu corpo. Aprenda a tratá-lo com respeito. Não encare seu corpo como um simples instrumento. Preserve energia vital- sexo, respiração, espírito – para a auto-realização. A expressão sexual não deve se manifestar quando não há amor ou compromisso. Nos relacionamentos sexuais esteja consciente do sofrimento futuro que poderá causar a outros. Preserve a felicidade dos demais; respeite os direitos e os compromissos alheios. Esteja inteiramente cônscio da responsabilidade de trazer novas vidas ao mundo. Medite no mundo para o qual você está trazendo novos seres.

Você pode ter a impressão de que este preceito desencoraja ter filhos; mas não é bem assim. Ele apenas nos recomenda a tomar consciência do que estamos fazendo. Este mundo é suficientemente seguro para pôr mais crianças nele? Se você quer pôr mais crianças no mundo, faça então alguma coisa pelo mundo. Este preceito tem a ver com o celibato. Tradicionalmente os monges budistas eram celibatários por, pelo menos, três motivos.

O primeiro é que aos monges do tempo de Buda era recomendado praticar meditação a maior parte do dia. Eles tinham que estar em contato com o povo da cidade para ensinar-lhe o Dharma e para pedir comida. Se tivesse que sustentar uma família, não seria possível ao monge cumprir com seus deveres.

A segunda razão é que a energia sexual tinha que ser preservada para a meditação. Consta nas tradições religiosas e médicas da Ásia que o ser humano tem três fontes de energia: sexo, respiração e espírito. Sexual é a energia que você emprega numa relação de sexo. Energia respiratória é a que você emprega quando fala muito e respira pouco. Energia espiritual é a que você gasta quando se preocupa demais e não dorme direito. Se você gasta essas três fontes de energia, seu corpo não tem suficiente força para realizar o caminho e penetrar profundamente a realidade. Os monges budistas observavam o celibato não por advertência moral, mas para a conservação da energia. Quem já provou um longo período de abstinência sabe o quanto é importante preservar essas três fontes de energia.

A terceira razão pela qual os monges budistas observavam o celibato é a questão do sofrimento. Naquele tempo – e ainda hoje – vê-se na Índia muita criança sem comer, muita criança doente sem atendimento médico; e uma mulher pode dar à luz 10, 12 crianças, sem ter a possibilidade de alimentar sequer 2 ou 3. Vida é sofrimento: esta é a terceira verdade do budismo. Pôr uma criança no mundo é uma grande responsabilidade. Se você é rico, talvez possa fazê-lo sem maiores problemas. Mas se você é pobre, toma-se um problema de verdade. Renascer significa antes de tudo renascer em seus filhos. Eles são uma continuação de você. Neles você renasce. E continua o ciclo de sofrimentos. Consciente de que em sua sociedade ter mais crianças era fazê-las sofrer, Buda aconselhou os monges a não terem filhos. Acho que ao longo dos últimos 2.500 anos os monges budistas, em vários países, ajudaram a frear a taxa demográfica. E isso é muito importante.

O décimo quarto preceito nos aconselha a respeitar nosso próprio corpo e a conservar nossa energia para a realização do caminho. Não apenas a meditação, mas qualquer tipo de esforço no sentido de mudar o mundo requer energia. Devíamos cuidar bem de nós mesmos.

Em minha opinião, a libertação sexual do Ocidente causou bons resultados, mas, também, causou problemas. Devido aos métodos modernos de controle de natalidade a libertação feminina tem sido algo bem real. Antigamente, tanto na Ásia como na Europa, as jovens tinham grandes problemas e muitas delas suicidavam-se quando ficavam grávidas. Desde que o controle de natalidade foi descoberto, esse tipo de tragédia diminuiu bastante. Mas a libertação sexual causou também muita tensão, muitos aborrecimentos. Acho que parte da depressão que as pessoas sofrem atualmente deve-se a esse fato. Por favor, meditem no problema. É muito importante para a sociedade ocidental.

Se você deseja ter filhos, por favor, faça alguma coisa pelo mundo em que vai trazê-los. Isso fará de você alguém que trabalha pela paz.

Para quem quiser saber mais, uma ótima opção é o blog: http://sangavirtual.blogspot.com

A Ordem do Interser 2

3 Fevereiro, 2007 at 3:36 pm | In * Práticas de meditação *, * Sobre o budismo de Thich Nhat Hanh - INTERSER, * Viver o presente * | Leave a Comment
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Traduzido do livro “Interbeing” – Thich Nhat Hanh por http://sangavirtual.blogspot.com

A palavra tiep significa “estar em contato com” e “continuar.” Hien quer dizer “perceber” e “fazer aqui e agora.” Para entender melhor o espírito da Ordem Tiep Hien, é útil começar examinando estas quatro expressões.

Com o que nós estamos em contato? A resposta é a realidade, a realidade do mundo e a realidade da mente. Estar em contato com a mente significa estar atento aos processos de nossa vida interior – sentimentos, percepções, formações mentais e também redescobrir nossa verdadeira mente que é a fonte de entendimento e compaixão. Entrar em contato com a verdadeira mente é como cavar profundamente na terra e alcançar uma fonte escondida que enche nosso poço com água fresca. Quando descobrirmos nossa verdadeira mente, ficaremos cheios de entendimento e compaixão que nos nutre e também àqueles ao nosso redor. Estar em contato com a verdadeira mente é estar em contato com Budas e bodisatvas, seres iluminados que nos mostram o caminho do entendimento, paz e felicidade.

Estar em contato com a realidade do mundo significa estar em contato com tudo o que está ao redor nos reinos animal, vegetal e mineral. Se quisermos entrar em contato, temos que sair de nossa concha e olhar claramente e profundamente para as maravilhas de vida – os flocos de neve, o luar, as flores bonitas – e também o sofrimento – fome, doença, tortura e opressão. Transbordando de entendimento e compaixão, podemos apreciar as maravilhas de vida e, ao mesmo tempo, agir com firme resolução para aliviar o sofrimento. Muitas pessoas distinguem entre o mundo interno de nossa mente e o mundo exterior, mas estes mundos não estão separados. Eles pertencem à mesma realidade. As idéias de dentro e fora são úteis na vida cotidiana, mas podem se tornar um obstáculo que nos impede de experimentar a realidade última. Se olharmos profundamente em nossa mente, veremos o mundo profundamente ao mesmo tempo. Se nós entendermos o mundo, entenderemos nossa mente. Isto é chamado “a unidade entre mente e mundo”.

O Cristianismo moderno usa as idéias de teologia vertical e horizontal. Vida espiritual é a dimensão vertical de estar em contato com Deus, enquanto vida social é a dimensão horizontal de estar em contato com seres humanos. No Budismo, há pessoas que também pensam desse modo. Eles falam sobre o nível mais alto de praticar o Caminho do Buda e o nível mais baixo de ajudar os seres vivos. Mas esta compreensão não está de acordo com o verdadeiro espírito do Budismo que ensina que a natureza da iluminação, é inata a todo ser e não só a uma entidade transcendental. Assim, no Budismo o vertical e o horizontal são um. Se nós penetramos no horizontal, achamos o vertical, e vice-versa. Este é o significado de “estar em contato com”.

A seguir vem o conceito de continuação. Tiep significa amarrar dois fios para fazer um fio mais longo. Significa estender e perpetuar a carreira de iluminação que foi iniciada e nutrida pelos Budas e bodisatvas que nos precederam. É útil se lembrar que a palavra “o Buda” quer dizer uma pessoa que está desperta. A palavra “bodisatva” também significa uma pessoa iluminada. O caminho de iluminação que foi iniciado pelos Budas e bodisatvas deve ser continuado, e esta é a responsabilidade de todos nós que empreendemos a prática do Budismo. Semear as sementes de iluminação e tomar um grande cuidado com a árvore de iluminação são o significado de tiep, “continuar”.

O terceiro conceito é “perceber” ou tomar consciência. Hien significa não habitar ou ser capturado no mundo de doutrinas e idéias, mas trazer e expressar nossos insights da vida real. Idéias sobre entendimento e compaixão não são entendimento e compaixão. Entendimento e compaixão devem ser reais em nossas vidas. Eles devem ser vistos e devem ser tocados. A real presença do entendimento e compaixão aliviará o sofrimento e causará o nascimento da alegria. Mas perceber não significa só agir. Em primeiro lugar, tomar consciência significa se transformar. Esta transformação cria uma harmonia entre nós mesmos e a natureza, entre nossa própria alegria e a alegria de outros. Uma vez que nós adquirimos contato com a fonte de entendimento e compaixão, esta transformação é percebida e todas nossas ações protegerão naturalmente e aumentarão a vida. Se nós desejarmos compartilhar alegria e felicidade com outros, temos que ter alegria e felicidade dentro de nós mesmos. Se desejarmos compartilhar tranqüilidade e serenidade, deveríamos as perceber primeiro dentro de nós mesmos. Sem uma mente tranqüila e calma, nossas ações só criarão mais dificuldade e destruição no mundo.

A última expressão para examinar é “fazendo aqui e agora.” Só o momento presente é real e disponível para nós. A paz que nós desejamos não está em algum futuro distante, mas é algo que nós podemos perceber no momento presente. Praticar Budismo não significa suportar sofrimento agora por causa de paz e liberação no futuro. O propósito da prática é não buscar renascimento em algum paraíso ou Terra do Buda depois da morte. O propósito é ter paz para nós mesmos e os outros agora mesmo, enquanto estamos vivos e respirando.

Os meios e os fins não podem ser separados. Bodisatvas cuidam das causas, enquanto as pessoas comuns se preocupam mais com efeitos, porque bodisatvas vêem que causa e efeito são um. Meios são fins neles mesmos. Uma pessoa iluminada nunca diz: “Este é só um meio.” Baseado no insight que meios são fins, todas as atividades e práticas deveriam ser realizadas em plena consciência e pacificamente. Ao sentar, caminhar, limpar, trabalhar ou servir, deveríamos sentir paz dentro de nós mesmos. O objetivo da meditação sentada é primeiro estar calmo e desperto durante a meditação sentada. Trabalhar para ajudar os famintos ou os doentes significa estar calmo e amoroso durante aquele trabalho. Quando nós praticarmos, não esperamos que a prática retorne recompensas grandes no futuro, mesmo o nirvana, a Terra Pura, iluminação. O segredo do Budismo é estar desperto aqui e agora. Não há nenhum caminho para a paz; a paz é o caminho. Não há nenhum caminho para a iluminação; iluminação é o caminho. Não há nenhum caminho para a liberação; liberação é o caminho.

Até agora, nós examinamos os significados das palavras “tiep” e “hien.” Procurando uma palavra ou frase para expressar o significado de Tiep Hien, a palavra “Interser” foi proposta. É uma tradução de um termo chinês achada no ensinamento do Avatamsaka Sutra. Eu espero que esta palavra recentemente inventada seja adotada amplamente em um futuro próximo.

Membros da Ordem do Interser se comprometem a observar e praticar os Quatorze Treinamentos de Plena Atenção. Nos sutras, o Buda usou freqüentemente a palavra shila (preceitos) para descrever estes treinamentos, mas ele também usou a palavra shiksha (treinamentos). Este termo posterior é mais consistente com o entendimento budista de como praticar estas diretrizes, e assim eu recentemente comecei a usar “treinamentos de plena atenção” em vez de “preceitos”. Treinamentos de Plena Atenção são práticas, não proibições.

Eles não restringem nossa liberdade. Eles nos protegem, garantem nossa liberdade e evitam que sejamos enredados em dificuldades e confusão. Quando falharmos, nos erguemos e tentamos fazer novamente nosso melhor. Na realidade, nós nunca podemos ter sucesso cem por cento. Os treinamentos de plena atenção são como a Estrela de Norte. Se nós quisermos viajar para o norte, podemos usar a Estrela do Norte para nos guiar, mas nunca esperamos atingir a Estrela de Norte.

Os Treinamentos de Plena Atenção deveriam ser entendidos e praticados em termos do Treinamento Triplo: plena atenção, concentração e insight. Plena atenção conduz à concentração, e concentração conduz ao insight. Os Quatorze Treinamentos de Plena Atenção são uma expressão concreta da plena atenção na vida diária.

De acordo com o Documento de Fundação da Ordem do Interser, “O objetivo da Ordem é atualizar o Budismo estudando, experimentando, e aplicando o Budismo na vida moderna”. Entendimento só pode ser atingido através da experiência direta. Os resultados da prática deveriam ser tangíveis e verificáveis.

O Documento lista quatro princípios como sendo a base da Ordem: desapego de visões, experimentação direta na natureza da origem interdependente através da meditação, pertinência, e meios hábeis. Vamos examinar cada um destes princípios.

1. Desapego de visões: ser apegado significa ser preso a dogmas, preconceitos, hábitos e o que nós consideramos ser a Verdade. O primeiro objetivo da prática é estar livre de todos os apegos, especialmente apegos a visões. Este é o ensinamento mais importante do Budismo.

2. Experimentação direta: O Budismo enfatiza a experiência direta da realidade, não filosofia especulativa. Prática e realização direta, e não pesquisa intelectual geram insight. Nossa própria vida é o instrumento pelo qual nós experimentamos com a verdade.

3. Pertinência: Um ensinamento para gerar entendimento e compaixão, tem que refletir as necessidades das pessoas e a realidade da sociedade. Para fazer isto, tem que obedecer dois critérios: tem que se alinhar com as doutrinas básicas do Budismo, e deve ser verdadeiramente útil e pertinente. Diz-se que há 84.000 portas do Dharma pelas quais se pode entrar no Budismo. Para o Budismo continuar como uma fonte viva de sabedoria e paz deveriam mesmo ser abertas mais portas.

4. Meios hábeis (upaya); meios hábeis consistem em imagens e métodos criados por professores inteligentes para mostrar o Caminho do Buda e guiar as pessoas nos seus esforços para praticar o Caminho em suas circunstâncias particulares. Estes meios são chamados portas do Dharma.

No que se refere a estes quatro princípios, o Documento diz, “O espírito de desapego a visões e o espírito de experimentação direta leva à mente aberta e a compaixão, ambos no reino da percepção da realidade e das relações humanas. O espírito de pertinência e o espírito de meios hábeis levam a capacidade de ser criativo e reconciliar, ambos necessários para o serviço dos seres vivos.” Guiado por estes princípios, a Ordem do Interser tem uma atitude aberta a todas as escolas budistas. A Ordem do Interser não considera qualquer sutra ou grupo de sutras como seu texto básico. A inspiração é tirada da essência do Budadharma como achada em todos os sutras. A Ordem não reconhece qualquer arranjo sistemático dos ensinamentos budistas como proposto por várias escolas de Budismo. A Ordem busca perceber o espírito do Dharma dentro do Budismo assim como o desenvolvimento desse espírito ao longo da história da Sangha e os ensinamentos em todas as tradições budistas.

Além disso, o Documento expressa uma vontade para estar aberto e mudar. “A Ordem do Interser rejeita o dogmatismo no modo de ver e na ação. Busca todas as formas de ação que possam reavivar e sustentar o verdadeiro espírito de insight e compaixão na vida. Considera que este espírito é mais importante que qualquer instituição budista ou tradição. Com a aspiração de um bodhisattva, membros da Ordem do Interser buscam se transformar para mudar a sociedade na direção da compaixão e entendimento vivendo uma vida alegre e atenta.” (…)

Os Treinamentos de Plena Atenção budistas são diretrizes para viver todos os dias. A maioria das regras religiosas são proibições que começam com o controle do corpo – não matar, não roubar, e assim sucessivamente. Os Quatorze Treinamentos de Plena Atenção da Ordem do Interser começam com a mente, e os primeiros sete lidam com problemas associados à mente. De acordo com o Buda, “A mente é o rei de todos os dharmas. A mente é a pintora que pinta tudo.” Os Quatorze Treinamentos de Plena Atenção refletem o Nobre Caminho Óctuplo, o ensinamento básico tanto na escola Theravada e quanto Mahayana. O Caminho Óctuplo pode ser descrito como o treinamento essencial. O Caminho Óctuplo também começa com a mente – Visão Correta e Pensamento Correto. Nós podemos organizar os Quatorze Treinamentos em três categorias. As primeiras sete com a mente, os próximos dois com a fala, e os últimos cinco com o corpo, embora tenhamos que perceber que esta divisão é arbitrária. A mente é como uma lâmpada de consciência, sempre presente. Os que regularmente recitam e praticam os treinamentos de plena atenção verão isto.

Começos da Ordem do Interser

2 Fevereiro, 2007 at 3:26 pm | In * Práticas de meditação *, * Sobre o budismo de Thich Nhat Hanh - INTERSER, * Viver o presente * | Leave a Comment

Começos da Ordem do Interser

Irmã Chân Không

Eu sempre vivi como uma monja – comendo comidas simples, tendo apenas algumas poucas roupas, não usando cosméticos e não tendo dinheiro no banco. Eu até doei o colar e os braceletes de diamante, dados por meus pais, a um projeto para os pobres. Com a idade de vinte anos, eu sabia que, um dia, eu iria raspar minha cabeça e me juntar a uma ordem de monjas budistas. Em 1960, Thây Thanh Tu, Thây Tri Quang e Thây (Thich) Nhat Hanh, todos eles, aconselharam-me antes de ser ordenada, mas em 1963 Thây Tri Quang me encorajou a me tornar uma monja. Perguntei a Thây (Thich) Nhat Hanh e ele me disse que os preceitos para monges e monjas, formulados há 2500 anos atrás, precisavam ser renovados. Ele me mostrou então 14 novos preceitos que ele tinha escrito e que, na sua opinião, carregavam dentro de si os mais profundos ensinamentos do Buda e se encaixariam melhor à nossa época. Ele também me disse que me indicaria qual a melhor época para me tornar monja. Mas, naquele momento, ele convidou seis de nós, líderes da Escola da Juventude Para o Serviço Social, a receber formalmente os 14 preceitos.

No dia 05 de fevereiro de 1966, um dia de lua cheia, Thich Nhat Hanh ordenou os primeiros seis membros da Ordem Tiep Hien, a Ordem do Interser. Esta Ordem foi criada por Thây para ajudar a trazer o budismo diretamente para arena dos problemas sociais, num tempo em que a guerra se espalhava e os ensinamentos do Buda eram urgentemente necessários. Ele propôs que a Ordem fosse composta de monges, monjas, leigos e leigas e disse a nós seis que éramos livres para escolher se preferíamos viver e praticar como monásticos ou como leigos. As três mulheres escolheram viver celibatariamente como monja, embora não tivéssemos raspado a cabeça. Os três homens escolheram casar e praticar como budistas leigos. Entre nós três, mulheres, estava Nhat Chi Mai, que se imolou, pondo fogo em si mesma, pela paz, apenas um ano depois.

A ordenação foi uma celebração maravilhosa. Cada um de nós recebeu uma lâmpada na qual Thây escreveu na antiga caligrafia chinesa “Lâmpada do Mundo”, “Lâmpada da Lua Cheia”, “Lâmpada da Sabedoria” etc. Durante a cerimônia, nós nos comprometemos a estudar, praticar e observar os Catorze Preceitos da Ordem do Interser. Desde aquele dia, tenho sentido que esses preceitos são o meu professor principal, especialmente quando tenho estado sob stress e sem saber a melhor maneira de agir. Estes são os Catorze Preceitos:

Os Catorze Treinamentos da Plena Consciência

As condições requeridas por Thây Nhat Hanh para aqueles formalmente ordenados com ele era o de praticar ao menos 60 dias de Plena Consciência por ano e praticar com uma comunidade de amigos. Mesmo quando estou muito ocupada, eu me renovo a cada semana com um Dia de Plena Consciência no templo da nossa Escola para a Juventude, da manhã de sábado à manhã de domingo. Eu sempre vinha carregada de preocupações e resposnsabilidades urgentes, mas depois de um momento, eu podia me acalmar um pouco e parar até os meus mais ansiosos pensamentos. Eu tentava habitar com plena consciência em cada ato, começando por trazer o meu saco de dormir no quarto, fervendo alguma água para o banho e pondo minhas roupas de meditação. Então eu praticava meditação caminhando sozinha na floresta, apanhando flores e talos de bambu para os arranjos da sala de meditação. Depois de três horas vivendo firmemente em cada ato consciente e liberando minhas preocupações, eu começava a me sentir renovada. E, então, nós seis nos juntávamos para recitar os preceitos e cantar o Sutra do Coração. Depois, compartilhávamos o chá e nossas experiências da semana passada, jantávamos silenciosamente e praticávamos a meditação sentada antes de irmos para a cama. Nós meditávamos juntos de novo de manhã cedinho. Durante o tempo individual, antes e depois da meditação da tarde e do próximo dia, eu, às vezes tinha de reassumir meus trabalhos urgentes trabalhando sozinha na minha sala, mas sempre de um modo plenamente consciente.

Um dia, Nhat Chi Mai disse a mim, ” Nós somos uma Ordem tão nova que a Igreja Budista não nos aceita como monjas”. Eu a confortava dizendo “Não se preocupe.Nós não precisamos da aceitação deles. Fomos ordenadas por Thây por que queríamos seguir os Catorze Preceitos. Outros podem nos ver como leigas, monjas ou o que quer que seja. O que é importante é que nós praticamos os preceitos como se eles fossem diretrizes para lidar com nosso caminho de serviço e nos ajudar a transformar nossas tendências negativas, como o fanatismo, estreiteza, raiva e aversão”. De fato, ao continuarmos nossa prática sinceramente, muitos dos monges superiores começaram a nos apreciar. Apesar deles não nos reconhecerem como monjas, eles nos tratavam com igual respeito.

Hoje, milhares de amigos na Europa, América do Norte, Austrália e Ásia conhecem e praticam esses Catorze Preceitos, apesar da maioria não ter tido a oportunidade de recebê-los formalmente de Thây. Eu sempre aconselho aos que desejam praticar os preceitos a organizar uma sangha, uma comunidade de amigos, para recitar os preceitos a cada mês e compartilhar suas experiências de viver os preceitos. Se agirem assim, eles já são membros da comunidade extendida da Ordem do Interser.

Irmã Chân Không – Learning True Love: How I Learned and Practiced Social Change in Vietnam

FONTE: interserblog.blogspot.com


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