“Movimento pela vida simples”
5 Janeiro, 2008 at 1:46 pm | In * Comentários pessoais sobre as coisas da vida * | 3 CommentsTags: * respeito a si mesmo, * ritmo, * stress do mundo moderno, * vida simples
Fiz uma opção em minha vida: ter menos dinheiro na minha conta bancária e uma vida de mais “qualidade”.
Pra alguns, “qualidade” é ter a possibilidade de comprar o que se precisa, de fazer o que se ‘gosta’, não ter preocupações financeiras. Pra mim, o que mais vale é ser capaz de seguir meu próprio ritmo.
Até pouco tempo atrás, eu trabalhava em algo que gostava muito, que me tranquilizava em termos financeiros e que até me dava certo “status” (imaginem, um antropólogo empregado por ser antropólogo!). Entretanto, percebi com o passar do tempo que tudo isso tinha um preço muito alto.
Quando você trabalha no coração do “sistema” você tem que mostrar seu valor – o tempo todo. Você tem que dar conta das coisas em um ritmo acelerado – alucinado, pra mim. Você tem que saber separar amizade de trabalho, mas ao mesmo tempo tem que sair pra beber com os colegas, participar de festas, dar presentes, etc, mesmo que aquele colega que você tirou no “amigo secreto” seja uma pessoa bem pouco confiável, ou, digamos de modo suave, seja bem pouco seu amigo. Você tem que falar e mostrar o tempo todo o quanto seu trabalho é maravilhoso, ou seja, se você quiser se dar bem, você tem que ser ‘marqueteiro’. Nada disso de ajudar os colegas, fazer coisas de modo silencioso, pois isso ninguém vai ver. O que não é visto não é considerado – mesmo que muitos tenham visto… Enfim. Isso pra mim é estar fora do ritmo. Do meu ritmo. Daquele que diz a hora em que devo falar e calar. A hora em que devo dormir e acordar, comer ou jejuar, aparecer ou desaparecer….
Passar por cima do meu ritmo, isso sim foi a maior violência que cometi contra mim mesma, no decorrer destes anos. Tudo isso pra me encaixar nos padrões aceitos do “seja bem sucedido”, “seja mestre”, “seja doutor”, “seja rico”, “seja homem”… e o mundo se curvará a seus pés….
Hoje, sei que sou lenta, gosto de profundidade, gosto de poder me dedicar às coisas de modo qualitativo, gosto de coisas reais e verdadeiras – como lavar louça, por exemplo. E sou mulher, principalmente.
Estes dias, lendo as sábias palavras do grande Thich Nhat Hanh, encontrei uma parte que coube direitinho nos meus sentimentos. Com ele, quero lançar aqui o “Movimento pela vida simples”…. hehehe… Mas quem sabe, isso pode ajudar outras pessoas que, como eu antes, sofrem por viver uma vida que não parece sua…
“Se você quer ter muito dinheiro pra gastar, você precisa trabalhar árdua e rapidamente, mas se você viver com simplicidade, pode trabalhar com suavidade e plenamente consciente do que está fazendo. Conheço muitos jovens que preferem trabalhar menos, talvez quatro horas por dia, recebendo um salário baixo, para poder viver uma vida simples e feliz. Esta pode ser uma solução para os problemas da nossa sociedade – reduzir a produção de bens inúteis, compartilhar o trabalho com aqueles que não o têm e viver uma vida simples e feliz. Alguns indivíduos e comunidades já demonstraram que isso é possível.
É um sinal promissor para o futuro, não é verdade?”.
PRECEITOS DA ORDEM DO INTERSER
4 Fevereiro, 2007 at 3:43 pm | In * Práticas de meditação *, * Sobre o budismo de Thich Nhat Hanh - INTERSER, * Viver o presente * | Leave a CommentTags: * vida simples, Compaixão, Concentração, Contato com o sofrimento, Cuidados com a fala, Defesa da vida, Diretrizes de vida, Fanatismo, Fofoca, Honestidade, Liberdade de consciência, Mente alerta, Não-dogmatismo, Respeito ao corpo
Os preceitos geralmente começam com advertências relativas ao corpo, como não mate. Os preceitos da Tiep Hien aparecem, de certa forma, em ordem inversa – os que dizem respeito à mente vêm antes. No budismo a mente é a raiz de tudo. Os preceitos da Ordem de Interser são os seguintes:
PRIMEIRO - Não idolatre nem se apegue a nenhuma doutrina, teoria ou ideologia, nem mesmo às budistas. Os sistemas de pensamento devem servir como um meio para guiá-lo e não como verdade absoluta.
Este preceito é o rugido do leão. Seu espírito é característico do budismo. Nós sempre dizemos que os ensinamentos de Buda são apenas uma embarcação para ajudá-lo a cruzar o rio ou um dedo apontando para a lua. Não confunda o dedo com a lua. A embarcação não é a margem. Se nos apegamos à embarcação, se nos apegarmos ao dedo estaremos perdendo tudo. Não podemos, em nome do dedo ou da embarcação, matar uns aos outros. A vida humana é mais preciosa do que qualquer ideologia ou doutrina.
A Ordem de Interser nasceu no Vietnã durante a guerra, que era um conflito entre duas ideologias do mundo. Em nome de ideologias e doutrinas pessoas matam e são mortas. Se você tem uma arma poderá atirar em uma, duas, três ou cinco pessoas; mas se você tem uma ideologia e se fixa a ela, pensando que é verdade absoluta, poderá matar milhões. Este preceito inclui o preceito de não matar em seu mais profundo sentido. A humanidade sofre muito por apego a pontos de vista:
- Se você não seguir este ensinamento eu corto sua cabeça fora.
Em nome da verdade matamos uns aos outros. O mundo está, agora, encalhado nessa situação. Muitos pensam que o marxismo é o mais alto produto da mente humana, que nada pode ser comparado a ele. Outros pensam que consiste numa loucura, e que devemos destruir todos os marxistas. Estamos presos nessa situação.
O budismo não é assim. Um dos ensinamentos básicos de Shakyamuni é este: a vida é a mais preciosa coisa. Isto vem como resposta ao nosso maior problema: guerra e paz. Esta só pode ser alcançada quando não estamos apegados a um ponto de vista, quando estamos livres do fanatismo. Quanto mais você decide praticar este preceito, mais profundamente estará penetrando na realidade e compreendendo os ensinamentos de Buda.
SEGUNDO – Não pense que o conhecimento que você tem no presente é imutável, verdade absoluta. Evite estreitar sua mente limitando-a apenas à sua visão presente. Aprenda e ponha em prática o desapego de opiniões afim de que, assim, possa abrir-se para receber pontos de vista de outros. A verdade é encontrada na vivência, não no conhecimento conceitual. Esteja pronto a aprender, a observar a realidade em você mesmo e no mundo, ao longo de toda a sua existência.
Este preceito é oriundo do primeiro. Lembre-se do jovem pai que se recusou a abrir a porta ao seu próprio filho, achando que o menino já havia morrido. Buda disse: – Se você se apega a alguma coisa como verdade absoluta, quando a verdade em pessoa bater à sua porta, você não a deixará entrar.
Um cientista com uma mente aberta, que é capaz de questionar o atual conhecimento da ciência, terá maior chance de descobrir uma verdade que está mais além. Também um budista, em sua meditação, em sua busca por maior entendimento, tem que questionar seu presente ponto de vista quanto à realidade. A técnica para chegar ao entendimento é superar os pontos de vista e o conhecimento. O desapego de pontos de vista é ensinamento básico de Buda em relação ao entendimento.
TERCEIRO – Não force ninguém – nem as crianças – por meio algum, a adotar seus pontos de vista; seja através de autoridade, ameaça, dinheiro, propaganda ou mesmo educação. Porém, através de diálogo compassivo, ajude os outros a se livrarem da estreiteza mental e do fanatismo.
Este preceito também é oriundo do primeiro. É o espírito da livre investigação. Acho que os ocidentais podem aceitá-lo porque o entendem. Se vocês arrumarem uma forma de organizá-lo globalmente, será um auspicioso evento para o mundo.
QUARTO – Não evite contato nem feche os olhos para o sofrimento. Não perca a noção da existência do sofrimento na vida do mundo. Procure estar com os que sofrem por todos os meios, seja por contato pessoal, visitas, imagens, sons. Desperte dessa forma sua própria consciência e a dos outros para a realidade do sofrimento no mundo.
A primeira palestra com respeito ao Dharma feita por Buda foi sobre as Quatro Nobres Verdades. A primeira verdade é a existência do sofrimento. Este tipo de contato e consciência é necessário. Se não nos confrontarmos com a dor, com os males, não procuraremos a causa dos mesmos para, assim, achar um remédio que nos faça sair da situação.
A América é, de certa forma, uma sociedade fechada. Os americanos não estão muito conscientes do que se passa fora da América. A vida aqui é tão movimentada que, mesmo mostrando imagens de fora pelos jornais e TV, não se estabelece um real contato. Espero que vocês encontrem alguma forma de se conscientizarem do sofrimento no mundo. É claro que dentro da América também existe sofrimento; é deveras importante entrar em contato com os mesmos. Mas muito sofrimento no Ocidente é inútil e pode esvair-se quando olharmos o real sofrimento de outros povos. Às vezes sofremos por causa de algum fator psicológico. Não conseguimos escapar de nós mesmos e, então, sofremos. Se tivermos contato com o sofrimento do mundo e formos tocados por ele, podemos seguir adiante ajudando as pessoas que estão sofrendo, e o nosso próprio sofrimento poderá desaparecer.
QUINTO – Não acumule fortuna enquanto milhões estão passando fome. Não tenha como meta de vida, a fama, o proveito, a riqueza ou o prazer sexual. Leve uma vida simples e partilhe seu tempo, energia e recursos materiais com aqueles que necessitam.
O Sutra das oito realizações dos grandes seres diz “A mente humana está sempre à caça de posses e nunca se satisfaz. Os bodhsattvas se movem em direção oposta e seguem o princípio da auto-suficiência. Eles vivem de maneira simples, a fim de praticarem o caminho, e consideram a realização da perfeita compreensão sua única carreira”. No contexto da sociedade moderna viver em simplicidade significa também permanecer o mais livre possível da destrutiva máquina social e econômica, evitando, assim, o stress, a depressão, a pressão alta e outras doenças modernas. Devíamos fazer todos os esforços para evitar as pressões e ansiedade que assolam a vida moderna. A única forma é consumir menos. Uma vez que somos capazes de viver simplesmente e felizes, seremos capazes de ajudar os outros.
SEXTO – Não guarde ódio ou rancor. No momento em que esses sentimentos surgirem, medite na compaixão para poder compreender em profundidade as pessoas que os causaram. Aprenda a ver os outros com os olhos da compaixão.
Quando a irritação e a raiva surgem, temos que estar conscientes e tentar entendê-las. Uma vez que as entendemos, nos tomamos mais capazes de perdoar e amar. Meditar na compaixão significa meditar no entendimento. Se não compreendemos, não podemos amar.
“Aprenda a olhar os outros seres com olhos de compaixão”. Esta frase é diretamente extraída do capítulo sobre Avalokitesvara no Sutra de Lótus. Você talvez gostaria de escrevê-la e colocá-la no local em que se senta para meditar. Seu original chinês tem apenas cinco palavras: “Olhos compassivos olhando seres vivos”. Quando recitei pela primeira vez o Sutra de Lótus, fiquei em silêncio ao chegar a essas cinco palavras. Eu sabia que elas bastavam para mudar toda a minha vida.
SÉTIMO – Não se deixe perder em dispersões ou no ambiente que o cerca. Aprenda a focar sua atenção na respiração para recobrar o controle do corpo e da mente. Aprenda a manter a mente alerta e a desenvolver entendimento e concentração.
Este preceito está no meio. É o coração dos 14 preceitos. O mais importante deles é viver em plena consciência. Sem este preceito, sem a mente estar desperta, os outros preceitos não podem ser totalmente observados. É como carregar uma haste. Na Ásia usavam carregar coisas penduradas nas extremidades de uma haste colocada sobre os ombros. Este preceito é como o meio da haste que você carrega sobre os ombros.
OITAVO – Não diga palavras que possam criar discórdia e causar ruptura na comunidade. Todos os esforços devem ser empregados no sentido de reconciliar e resolver os conflitos, por menores que sejam.
Agora chegamos ao segundo grupo de preceitos; referem-se à fala. Os sete primeiros lidam com a mente, dois com a fala e cinco com o corpo. Este preceito se refere à reconciliação, ao esforço para estabelecer a paz, não somente na família, mas também na sociedade. Para ajudar a reconciliar um conflito, temos que estar em contato com ambos os lados. Temos que transcender o conflito; se ainda estamos em conflito, fica difícil reconciliar. Temos que ter um ponto de vista não dualístico para podermos ouvir ambos os lados e compreender. O mundo precisa de seres assim, com capacidade de compreender e ter compaixão.
NONO – Não diga mentiras para favorecer seus interesses pessoais ou para impressionar os outros. Não diga palavras que causem divisão e rancor. Não espalhe notícias que você não sabe ao certo. Não critique nem condene coisas das quais você não tem certeza.
Fale sempre a verdade, e construtivamente. Tenha coragem de denunciar as situações injustas, mesmo quando elas possam ameaçar sua segurança. As palavras que dizemos podem criar amor, confiança e felicidade em tomo de nós, ou podem criar um inferno. Devemos ter cuidado com o que dizemos. Se nossa tendência é falar em demasia devemos nos tornar conscientes disso e aprender a falar menos. Temos que estar conscientes do que falamos e dos resultados de nossa fala. Há uma gatha que pode ser recitada antes de atender ao telefone:
Palavras podem percorrer milhares de milhas.
Elas se destinam a construir compreensão e amor.
Cada palavra deve ser uma jóia,
uma bela tapeçaria.
Devemos falar construtivamente. Podemos, em nossa fala, tentar não causar mal-entendidos, rancor ou ciúme; e sim aumentar o entendimento e a mútua aceitação. Ela pode até mesmo ajudar a reduzir nossa conta telefônica. O nono preceito requer, também, franqueza e coragem. Quantos de nós são suficientemente corajosos para denunciar a injustiça numa situação em que falando a verdade a segurança pessoal pode ser ameaçada?
DÉCIMO – Não use a comunidade budista para ganhos ou proveitos pessoais. Nem a transforme em partido político. Contudo, uma comunidade religiosa deve tomar posição clara contra a opressão e a injustiça e esforçar-se para mudar a situação sem engajar-se em conflitos partidários.
Isso não significa que devemos nos silenciar acerca da injustiça. Significa apenas que devemos fazê-lo com plena consciência e não tomar partido. Devemos dizer a verdade e não, apenas, pesar as conseqüências políticas. Se tomamos partido, perdemos nosso poder de ajudar e mediar o conflito.
Durante uma visita à América conheci um grupo de pessoas que queriam angariar fundos para ajudar o governo do Vietnã a reconstruir o país. Perguntei se eles também gostariam de fazer algo para ajudar o povo-de-barco e eles disseram que não. Achavam que politicamente não era bom falar sobre o povo-de-barco porque causaria descrédito ao governo do Vietnã. Para terem êxito numa coisa eles se abstêm de fazer outra coisa que acham certa.
DÉCIMO PRIMEIRO – Não viva uma vocação que seja prejudicial à humanidade e à natureza. Não invista em companhias que privem outros da chance de viver. Escolha uma vocação que ajude a realizar seu ideal de compaixão.
Este é um preceito duro de observar. Se você tem bastante sorte em ter uma vocação que o ajude a realizar seu ideal de compaixão, ainda assim você precisa entender mais profundamente. Se sou um professor, fico contente com meu trabalho de ajudar as crianças; fico contente de não ser um açougueiro que abate bois e porcos. Contudo, o filho e a filha do açougueiro vêm à minha aula e eu os ensino. Eles tiram proveito da minha correta subsistência. Meu filho e minha filha comem da carne que o açougueiro prepara. Um elo nos liga. Não posso dizer que minha subsistência é perfeitamente correta. Pode não ser. Na observação deste preceito está implícito achar meios de realizar uma subsistência coletiva.
Você pode tentar seguir uma dieta vegetariana para diminuir o abate de animais, mas não pode evitar completamente a matança. Ao beber um copo d’água você mata muitos ínfimos seres. Mesmo em seu prato de vegetais existem muitos deles, fervidos e fritos. Eu estou consciente de que meu prato vegetariano não é totalmente vegetariano, e de que nem meu mestre, o Buda, poderia evitá-lo se estivesse aqui. O problema é se estamos ou não determinados a seguir na direção da compaixão. Se estamos, podemos com isso reduzir o sofrimento ao mínimo? Se perco minha direção, tenho que olhar para a estrela do Norte e sigo para o Norte. Isso não quer dizer que eu espere chegar até a estrela do Norte. Eu apenas sigo naquela direção.
DÉCIMO SEGUNDO – Não mate. Não deixe que os outros matem. Por todos os meios possíveis defenda a vida e evite a guerra.
O orçamento e os gastos em defesa nos países ocidentais são enormes. Estudos demonstram que se a corrida armamentista parasse, o dinheiro seria mais do que suficiente para acabar com a pobreza, a fome, o analfabetismo e muitas doenças no mundo. Este preceito não é aplicado somente aos seres humanos, mas a todos os seres vivos. Como vimos antes, ninguém pode observar este preceito com perfeição; porém sua essência é respeitar a vida, fazer o que está a nosso alcance para protegê-la. Isto quer dizer não matar nem deixar que outros matem. É difícil. Aqueles que tentam observar este preceito devem estar trabalhando pela paz, para que eles mesmos tenham paz. Impedir a guerra é melhor do que protestar contra ela. Protestar significa que já é tarde, que ela já teve início.
DÉCIMO TERCEIRO - Não possua nada que deveria pertencer a outros. Respeite a propriedade alheia; mas impeça que outros se enriqueçam através do sofrimento alheio.
Conscientizando-nos do sofrimento causado pela injustiça social, o décimo terceiro preceito nos incita a trabalhar por uma sociedade mais viável. Este preceito é ligado ao décimo quarto (a conscientização do sofrimento), ao quinto (modo de viver), ao décimo primeiro (subsistência correta) e ao décimo segundo (proteção da vida).
Para compreender este preceito em profundidade, precisamos meditar também sobre esses quatro preceitos a que acabamos de nos referir. Desenvolver meios de impedir que outros enriqueçam à custa do sofrimento humano e do sofrimento de outros seres é dever dos legisladores e políticos. Porém, cada um de nós pode agir nesse sentido. Estando próximos de pessoas oprimidas podemos, de certo modo, ajudá-las a proteger seu direito à vida e a defenderem-se contra a opressão e exploração. Não podemos deixar que pessoas se enriqueçam do sofrimento humano e de outros seres. Como comunidade devemos impedir isso. Temos que considerar o problema de como trabalhar pela justiça em nossa própria cidade. Os votos do bodhisattva – de ajudar todos os seres vivos – são extensos. Cada um de nós pode fazer um voto de sentar-se em seu barco de salvamento.
DÉCIMO QUARTO – Não maltrate seu corpo. Aprenda a tratá-lo com respeito. Não encare seu corpo como um simples instrumento. Preserve energia vital- sexo, respiração, espírito – para a auto-realização. A expressão sexual não deve se manifestar quando não há amor ou compromisso. Nos relacionamentos sexuais esteja consciente do sofrimento futuro que poderá causar a outros. Preserve a felicidade dos demais; respeite os direitos e os compromissos alheios. Esteja inteiramente cônscio da responsabilidade de trazer novas vidas ao mundo. Medite no mundo para o qual você está trazendo novos seres.
Você pode ter a impressão de que este preceito desencoraja ter filhos; mas não é bem assim. Ele apenas nos recomenda a tomar consciência do que estamos fazendo. Este mundo é suficientemente seguro para pôr mais crianças nele? Se você quer pôr mais crianças no mundo, faça então alguma coisa pelo mundo. Este preceito tem a ver com o celibato. Tradicionalmente os monges budistas eram celibatários por, pelo menos, três motivos.
O primeiro é que aos monges do tempo de Buda era recomendado praticar meditação a maior parte do dia. Eles tinham que estar em contato com o povo da cidade para ensinar-lhe o Dharma e para pedir comida. Se tivesse que sustentar uma família, não seria possível ao monge cumprir com seus deveres.
A segunda razão é que a energia sexual tinha que ser preservada para a meditação. Consta nas tradições religiosas e médicas da Ásia que o ser humano tem três fontes de energia: sexo, respiração e espírito. Sexual é a energia que você emprega numa relação de sexo. Energia respiratória é a que você emprega quando fala muito e respira pouco. Energia espiritual é a que você gasta quando se preocupa demais e não dorme direito. Se você gasta essas três fontes de energia, seu corpo não tem suficiente força para realizar o caminho e penetrar profundamente a realidade. Os monges budistas observavam o celibato não por advertência moral, mas para a conservação da energia. Quem já provou um longo período de abstinência sabe o quanto é importante preservar essas três fontes de energia.
A terceira razão pela qual os monges budistas observavam o celibato é a questão do sofrimento. Naquele tempo – e ainda hoje – vê-se na Índia muita criança sem comer, muita criança doente sem atendimento médico; e uma mulher pode dar à luz 10, 12 crianças, sem ter a possibilidade de alimentar sequer 2 ou 3. Vida é sofrimento: esta é a terceira verdade do budismo. Pôr uma criança no mundo é uma grande responsabilidade. Se você é rico, talvez possa fazê-lo sem maiores problemas. Mas se você é pobre, toma-se um problema de verdade. Renascer significa antes de tudo renascer em seus filhos. Eles são uma continuação de você. Neles você renasce. E continua o ciclo de sofrimentos. Consciente de que em sua sociedade ter mais crianças era fazê-las sofrer, Buda aconselhou os monges a não terem filhos. Acho que ao longo dos últimos 2.500 anos os monges budistas, em vários países, ajudaram a frear a taxa demográfica. E isso é muito importante.
O décimo quarto preceito nos aconselha a respeitar nosso próprio corpo e a conservar nossa energia para a realização do caminho. Não apenas a meditação, mas qualquer tipo de esforço no sentido de mudar o mundo requer energia. Devíamos cuidar bem de nós mesmos.
Em minha opinião, a libertação sexual do Ocidente causou bons resultados, mas, também, causou problemas. Devido aos métodos modernos de controle de natalidade a libertação feminina tem sido algo bem real. Antigamente, tanto na Ásia como na Europa, as jovens tinham grandes problemas e muitas delas suicidavam-se quando ficavam grávidas. Desde que o controle de natalidade foi descoberto, esse tipo de tragédia diminuiu bastante. Mas a libertação sexual causou também muita tensão, muitos aborrecimentos. Acho que parte da depressão que as pessoas sofrem atualmente deve-se a esse fato. Por favor, meditem no problema. É muito importante para a sociedade ocidental.
Se você deseja ter filhos, por favor, faça alguma coisa pelo mundo em que vai trazê-los. Isso fará de você alguém que trabalha pela paz.
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