Penso, logo, existo. Será?
23 Julho, 2008 at 5:58 pm | In * Comentários pessoais sobre as coisas da vida *, * Práticas de meditação *, * Viver o presente * | Leave a CommentTags: * alienação, * coragem, * covardia, * vida como ela é, * zen
Muitos dias atrás li uma matéria na Revista IstoÉ e o caso de uma jovem de 18 anos me chamou atenção. Ela mora em São Paulo, tem cabelos castanhos, é tímida e com poucos amigos, detesta maquiagem e usa óculos. Sai do cursinho todos os dias às 12h30 e, ao chegar em casa, se transforma em Brina – loira, alta, produzida, com um corpo “violão” e superextrovertida, alma de qualquer festa. Brina nada mais é do que uma personagem do jogo virtual Second Life, mundo em que a jovem mergulha até a hora de dormir. A “second life” ou “segunda vida” acaba sendo muito mais interessante do que a vida real, a “primeira vida”: “já saí várias vezes com meus amigos e me arrependi de não ter ficado em casa jogando”, diz a paulistana. Pois é, na vida número 2 a gente “pode voar, correr riscos e encontrar uma novidade a cada dia”, diz outro jovem paulistano entrevistado para a matéria.
Eu me lembro bem de quando era adolescente e da minha necessidade imensa de ficar ouvindo sem parar e para tudo meu walk-man-de-fita-cassete-com-músicas-gravadas-do-rádio. Até me identifiquei com os jovens de hoje que vão em festas sem música ambiente e onde cada um fica ouvindo seu próprio repertório no i-Pod. Na época de outros tecnologias, a companhia das minhas milhares de fitas K-7 era bem melhor do que a do mundo a meu redor. Lembro também de como esperava a hora de dormir para finalmente entrar em meu mundinho imaginário. Toda noite, antes de dormir, eu alimentava uma história imaginária da minha vida: tinha uma casa com uma janela imensa, um sofá branco enorme e uma decoração modernista misturada às linhas clássicas. Eu era muito moderninha. Solteira, profissional hiper-requisitada e liberal, muitos amigos e reuniões regadas a um bom vinho chileno…E olha que eu só tinha 13 anos…
Eu não precisava de tecnologia. Tinha minha “second life” na mente. E mesmo que minha mãe, para me curar de meu isolamento, quisesse me tomar meu amado walk-man (para quem não sabe o que isso significa, imagine sua querida mãe hoje querendo te tomar o seu i-Pod ou seu celular com MP4 e câmera de 4 Mega)… ela não poderia nunca mandar na minha mente….
Acho que não podemos culpar o desenvolvimento tecnológico pelos nossos problemas. A grande diferença entre ontem e hoje é que aumentou o número de possibilidades – os aparelhos e programas de computador apenas nos oferecem mais meios pelos quais podemos nos alienar do mundo. Com ou sem aparelho, o problema real é o da alienação… Viver uma vida imaginária porque a vida real não nos agrada – este sim, é o problema. Simplesmente porque a vida imaginária não existe de fato… Onde está uma pessoa que vive em um lugar que não existe?
Alguns podem até discordar de mim e defender o mundo da imaginação como uma forma de vida factível. Tudo bem, até é factível mesmo. Somos bem capazes de viver isolados, dentro de nossa própria construção mental e emocional, durante muitos e muitos anos. Eu vivi assim. Até penso que este seja o modo dominante de vida em nossa sociedade – não nos enxergamos realmente, somos apenas personagens das historinhas uns dos outros…e ai de quem não cumprir bem o papel por nós determinado!
Inventar uma historinha pra boi dormir, porque nossa vida é muito chata (pra dizer o mínimo), acaba trazendo mais problemas do que soluções. Pode consolar e trazer certo prazer por um bom tempo, mas na hora em que a vida nos chacoalha com algum dos seus típicos “banhos de realidade” (morte, perda, doença, etc…) nos vemos nus e sem toalha para nos enxugar. E o frio que bate é intenso, pode ter certeza.
Esta desconexão entre mente e corpo trazem muita confusão e, consequentemente, sofrimento. Quero ter outro corpo, mas o corpo que tenho é esse que vejo no espelho, mesmo não querendo! Quero outros pais, mas os que (não) tenho são estes que vejo na hora do jantar, mesmo querendo a família do vizinho! Odeio minhas origens mas nasci nesta cidade e tenho estes antepassados, fazer o que?! O outro corpo, os outros pais, os outros amigos, as outras origens que crio na minha mente são só da minha mente. Não existem. Daí, quando eu acordo do sonho, tenho que fingir que vivo por algumas horas, até o momento em que vou poder sonhar de novo.
Não ver as coisas como elas são dói mais do que aceitar. Isolar-se é mais pesado do que se arriscar nas relações. Fechar-se para o mundo, para as pessoas, para as sensações, para as dores, faz a gente morrer aos poucos, de inanição. Porque o nosso mundo imaginário não é tão rico e infinito de possibilidades quanto o mundo real – por mais doloroso que ele possa ser. Hoje, eu prefiro a dor da vida à dor inventada por mim mesma.
“Ordem Interser”…
5 Fevereiro, 2007 at 3:46 pm | In * Práticas de meditação *, * Sobre o budismo de Thich Nhat Hanh - INTERSER, * Viver o presente * | Leave a CommentTags: * zen, Budismo e cristianismo
“Eu acredito que o encontro entre o budismo e o Ocidente vai dar origem a algo muito importante. O Ocidente possui vários valores como a ciência, o espírito de investigação livre, a democracia. Se esses valores se encontrarem com o budismo, a humanidade ganhará algo muitíssimo novo e estimulante. (…)
O princípio budista de agir e ver as coisas de forma não dualista, se combinado com a maneira ocidental de fazer as coisas, poderá mudar totalmente nosso sistema de vida. O que os budistas norte-americanos estão fazendo é importante para todos nós: trazer o budismo para a civilização ocidental.
O budismo não é um só. Os ensinamentos do budismo são muitos. Ao entrar num país ele toma uma nova forma. Quando eu visitei pela primeira vez uma comunidade budista nos Estados Unidos, perguntei a meu acompanhante: – Por favor, mostre-me seu Buda, o Buda americano. A pergunta surpreendeu meu amigo porque ele pensava que Buda fosse universal. Na China existe o Buda Chinês, no Tibete o Buda Tibetano e, também, os ensinamentos diferem. A forma de ensinamento budista neste último país é diferente da dos outros países. Budismo para ser budismo tem que se apropriar da psicologia e cultura da sociedade em que serve. Minha pergunta era muito simples: – Onde está seu bodhisattva? Mostre-me um bodhisattva americano. Meu amigo não soube fazê-lo. (…)
Eu gostaria de apresentar a vocês uma forma de budismo que pode ser facilmente aceita aqui no Ocidente. Temos experimentado essa forma de budismo ao longo dos últimos 20 anos e ela cabe muito bem na sociedade moderna.
A “Ordem do Interser“(ou “Tiep Hien”) foi fundada no Vietnã durante a guerra. Deriva a Escola Zen de Lin Chi e está em sua 42a geração. É uma forma de budismo engajado, budismo aplicado na vida diária, na sociedade, e não somente em centros de retiro. Tiep Hien são palavras vietnamitas de origem chinesa. Eu gostaria de explicar o seu significado porque se tomará mais fácil compreender o espírito dessa ordem.
Tiep quer dizer estar em contato. A noção de budismo engajado já aparece na palavra Tiep. Antes de tudo temos que estar em contato conosco mesmos. No mundo moderno a maioria de nós não quer ficar em contato consigo mesmo. Preferimos nos pôr em contato com outras coisas, como a religião, o esporte, a política ou um livro – queremos esquecer a nós mesmos. Sempre que temos um tempo de lazer convidamos, logo, alguma coisa para entrar em nós, como a televisão, por exemplo; abrindo-nos para que ela venha até nós e nos colonize. Assim, antes de tudo, em contato significa em contato consigo mesmo, a fim de encontrar a fonte da sabedoria, do entendimento, da compaixão em cada um de nós. Estar em contato consigo mesmo é o sentido da meditação; estar consciente do que está acontecendo no seu corpo, nos seus pensamentos, na sua mente. Esse é o primeiro significado de Tiep.
Significa também estar em contato com os Budas e bodhisattvas, pessoas cujo pleno entendimento e compaixão são tangíveis, efetivos. Estar em contato consigo mesmo quer dizer estar conectado com a fonte da sabedoria e compaixão. As crianças compreendem que Buda está nelas próprias. No primeiro dia de um retiro que houve em Ojai, na Califórnia, um menino afirmou ser Buda. Eu lhe disse que isso era verdade em parte, pois às vezes ele era às vezes não dependendo do grau em que sua mente estivesse desperta.
A segunda parte do significado de Tiep é dar continuidade, fazer algo perdurar. Significa que o caminho para o entendimento e a compaixão, aberto por Buda e bodhisattvas, deve ser continuado, Isso só é possível quando entramos em contato com nosso verdadeiro eu; e isso eqüivale a perfurar o solo até atingir a fonte de água fresca escondida sob a terra para que o poço se inunde dela. Quando entramos em contato com nosso verdadeiro ser, a fonte de sabedoria, entendimento e compaixão jorram como água. Esta é a base de todas as coisas. Estar conectado com nosso verdadeiro ser é necessário para dar continuidade ao caminho iniciado por Buda e bodhisattvas.
Hien significa momento presente. Temos que estar no aqui e agora, porque só o presente é real, só no momento presente é que podemos estar vivos. No budismo não praticamos em nome do futuro ou para renascer no paraíso, mas sim para ser paz, compaixão e alegria no momento presente. Hien quer também dizer tornar real, manifestar, realizar. O amor e o entendimento não são apenas conceitos e palavras; são realidades manifestadas em si próprio e na sociedade. É isso que Hien significa.
É difícil encontrar, no inglês ou no francês, palavras que transmitam o significado de Tiep Hien. Mas existe um termo no suttra Avatamsaka que transmite bem o espírito dessa palavra. É o termo interser, isto é, ser mutuamente. Interser é uma palavra nova, e espero que seja incorporada às palavras dos dicionários. Nós já falamos anteriormente acerca do todo contido no um e do um contido no todo. Numa folha de papel podemos ver o todo: a nuvem, a floresta, o lenhador. Eu sou; portanto, você é. Você é; portanto, eu sou. Esse é o significado da palavra interser. Nós não somos, nós intersomos. (…)
Blog no WordPress.com. | Theme: Pool by Borja Fernandez.
Entries and comments feeds.