Reflexões de quando eu quis ser professora…

29 setembro, 2012 às 12:40 am | Publicado em Sem-categoria | Deixe um comentário

Na tríade professor x aluno x conhecimento talvez resida uma das mais intrigantes questões postas pela e para a humanidade. Nela, encontramos a causa e a resposta para nossos dilemas humanos. “Ensinar algo para alguém que não sabe” é da própria natureza da vida em sociedade. Somos todos resultado das interações com diferentes professores. Sendo que estes foram resultado de interações com variados outros professores e assim sucessivamente, desde sempre.

 Por conta disso, recebemos apenas aquilo que o outro tem para dar. Não importa o que seja: pode ser ignorância, pode ser desespero, pode ser amargura…mas pode ser também serenidade, paz ou sabedoria. Sorte nossa, como humanos, que encontramos MUITAS pessoas em nosso caminho. Se nossa sorte mental residisse apenas nos acertos de nossos cuidadores das idades iniciais, estaríamos perdidos.

Porque em termos de educação, ninguém sabe muito e o que sabe, muitas vezes machuca. Os acertos vem quase sem querer…

 Mas o mais estranho de tudo isso é que conseguimos sobreviver.

 Do choque entre os variados erros – nossos e dos outros todos, nos tornamos humanos. Como eu disse, damos o que temos, ensinamos o que conhecemos, da forma como aprendemos – ou não…..

 O professor, como humano que é, está dentro disso. Ele dá o que tem. Se tiver muito conhecimento, vai transmitir. Ou não, pode ficar preso no seu excesso e esquecer do aluno. Se tiver muito amor, pode amar – mas pode esquecer de transmitir o que sabe. Ou talvez não saiba nada… Mas o que sabe é o que dá. E dá, o que tem…

 Mil faculdades podem até instruir um pouco, com um pouco mais da herança histórica de todos aqueles que viveram antes de nós. Uma vida bem vivida pode até nos dar algumas respostas e saídas, algumas alternativas, algumas visões bem-sucedidas… Podemos até saber muito de psicologia e entender a cabeça daqueles para quem ensinamos algo…

 Mas o que eu acho é que ninguém ensina nada pra ninguém. O que está mais perto de ensinar, pra mim, é o escutar. Quando eu escuto, eu vejo o que o outro não sabe, o que ele quer, o que ele anseia, o que ele pede. E tento dar algo da minha própria história, que sirva – talvez – para que ele se compreenda um pouco mais.

 Educar nada mais é do que uma relação. Em que em um momento um dá e o outro recebe, e vice-versa. Mas pode acontecer também de um dar e o outro não querer – que direito ele tem????? Ou do que está dando perceber que quem tem mais para dar é aquele, que ele achou que tinha que ensinar….

 O que é afinal de contas que é dado? É aquilo que estamos chamando de “conhecimento”? O que é um conhecimento? Saber o nome de vários filósofos? Saber o que os psicólogos disseram? Saber o nome das leis? E é isso que eu tenho que ensinar para o meu aluno? O nome dos filósofos, o que os psicólogos disseram, o nome das leis? Dúvida cruel… e dolorosa.

Mais do que isso tudo, o que importa pra mim é como aquela pessoa, na minha frente, que eu tenho que ensinar, vai dar conta de lidar com tantas dificuldades em sua vida e não passar pra frente, para os da geração seguinte, apenas desespero e amargura…

Pensando sobre autonomia na pedagogia…

30 maio, 2011 às 8:45 pm | Publicado em Sem-categoria | 2 Comentários

Eu estava lendo Paulo Freire por estes dias. Fazia tempo que não me sentia inspirada a postar algo por aqui. Mas o “Pedagogia da Autonomia” me pegou…

***

Não é a toa que o título deste trabalho de Paulo Freire seja “pedagogia da autonomia”, resumindo os “saberes necessários à prática educativa”. Há algum tempo venho refletindo a respeito deste tema, “autonomia”, e procurando compreendê-lo com mais clareza. Educar parece ser, em termos gerais, preparar uma pessoa para que ela tenha autonomia e seja competente no lidar com sua vida, na realização de seus anseios, na busca por mudanças.

Mas o que isso, afinal de contas, implica? Creio que esta seja uma discussão muito profunda, filosófica, que vai além de simplesmente ficarmos lendo e relendo este e vários outros autores, e fazendo listagens dos elementos que eles citam como sendo essenciais para a formação de um professor. O próprio Paulo Freire cita neste livro que de nada adianta ler variados autores e colecionar suas idéias, citando-os de cabeça, se isso não se torna algo vivo, presente na vida, transformando padrões e revolucionando comportamentos. Isso acontece muito no meio acadêmico e, consequentemente, na formação de professores…

O que está em jogo aqui, é a própria forma com que vivemos nossa vida. Nós, professores, nascemos, somos condicionados, temos anseios, desejos, padrões consolidados, teimosias, medos. Quando falamos de formação de professores e saberes essenciais estamos falando da vida de pessoas. Da forma como elas vivem, o que elas acreditam, como elas agem. Pois é isso que estará presente no momento em que ele estiver se relacionando com seus alunos. Ler Paulo Freire não torna ninguém livre ou autônomo. Só se esta pessoa já estiver pronta para isso e esta leitura sirva como uma catalisador de um processo que ela já está vivendo. Só assim as teorias fazem sentido.

Sendo assim, creio que a questão sobre quais seriam os saberes necessários à prática educativa, que se constituíssem em uma “pedagogia da autonomia”, resida em outras questões anteriores: “quem somos nós”, “porque queremos ser professores”, “o que queremos de nossa vida”, “como vemos o mundo” e não em técnicas de ensino, teorias maravilhosas, dinâmicas e metodologias. Para ser professor, é preciso ser um filósofo. Mas não daqueles que apenas teorizam, mas daqueles que vivem questionando sua forma de ser, que não estão satisfeitos em serem simples seres condicionados, que buscam transcender-se, que procuram encontrar os elos entre si mesmo e os outros.

E isso é apenas o início da verdadeira autonomia. Um professor só é capaz de aplicar uma “pedagogia da autonomia” se ele mesmo for um ser autônomo. Senão, de onde ele vai tirar esta experiência? Sem a experiência, ele vai apenas se tornar um papagaio que vive repetindo idéias que ouviu por aí mas que não estão presentes em suas ações, sendo que ele, na verdade, “desautonomiza” seu aluno o tempo todo.

Mas autonomia é algo que vem do berço, ou então é algo arduamente construído, para aqueles que não foram educados assim. E eu duvido que as instituições agüentassem muitos seres autônomos em suas fileiras. Pois a idéia de instituição é de certa forma contrária a idéia de que alguém seja “livre” dela. Instituição é por definição, um padrão consolidado. E um ser autônomo, é por excelência, alguém que quebra com padrões o tempo todo. Coitado do Paulo Freire, tão autônomo e livre mas que hoje, de tão institucionalizado pelas instituições educacionais, acabou se tornando palavrinha comum – muito citada, mas pouco vivida…

Como um professor “filhinho da mamãe”, sem limites, melindroso, medroso, condescendente, fanático, inseguro (isso em vários níveis, de várias formas, de muitos nomes) vai desenvolver a autonomia de seu aluno se ele próprio não sabe o que é isso? Como um professor vai inspirar o amor pelo conhecimento, pela abertura, pelo novo, se ele não gosta muito de ler nem estudar, vive falando mal daqueles que ficam questionando tudo e não gosta de mudanças? Como ele vai reconhecer as emoções, a sensibilidade, a afetividade a sua volta se nem ele mesmo tem contato com suas dores, seus medos, suas angústias, sua necessidades?

Como ele vai permitir que seu aluno seja livre e criativo se ele nunca experimentou isso em sua vida?

Por isso, entendo, como Paulo Freire (isso mesmo, me dou o direito de dizer que, pela minha própria vida e experiência, cheguei a muitas das conclusões que ele chegou), que o professor tem que acreditar, tem que viver aquilo que ele está ensinando. Formação de professores, em um nível mais profundo, depende do despertar do ser humano, do quanto ele se conhece, do quanto alcançou sua própria expressão no mundo (sua autenticidade), do quanto está seguro de sua identidade. Eu nunca encontrei isso no meio acadêmico.

Visita de monges da Ordem Interser à Curitiba e Zen no parque especial!

12 setembro, 2009 às 5:28 pm | Publicado em Sem-categoria | Deixe um comentário

Folder Eletrônico Monásticos jpeg

Da normalidade ao “poço sem fundo da barbárie” – uma questão de ponto de vista?

2 dezembro, 2008 às 4:50 pm | Publicado em Sem-categoria | 2 Comentários

Um texto do Marcelo Coelho na Folha chamou muito minha atenção dias atrás…Nele, ele comenta o lançamento de “O Diário de Hélène Berr” que registra o dia-a-dia da ocupação nazista em Paris “do ponto de vista de uma moça de 20 e poucos anos, bastante rica, que estuda literatura inglesa na Sorbonne e, com um grupo de amigos, reúne-se para tocar peças dos compositores Beethoven, Schubert e Bach ao violino”. O que quero salientar aqui não é o lançamento do tal diário – que não li mas estou com grande curiosidade em fazê-lo – mas um comentário que Marcelo faz, analisando a forma como Hélène e seus amigos conduzem suas vidas em tal situação – extrema aos nossos olhos. Eis seu comentário:

“A vida “normal”, seus prazeres e rotinas, mantém-se em condições de absoluta excepcionalidade e horror. Cada dia traz novidades hediondas, mas são poucos os que percebem a que cúmulo as coisas chegarão em breve; é como se a capacidade de toda pessoa para adaptar-se, evitando pensar no pior, e tocando a vida como dá, se revelasse decisiva para a ruína final. Desconfiar da “normalidade”, eis uma coisa que não estamos nunca preparados para fazer. E, quando a “normalidade” se desmascara de uma vez por todas, revelando o poço sem fundo da violência e da barbárie, já é tarde demais”… 

Desconfiar da “normalidade” – eis a frase que me marcou. O que é “normal” pra você? Creio que cada um de nós terá mil respostas diferentes para esta questão. Porque certamente, a normalidade das coisas depende da posição em que as estamos vendo. Explico: é normal para um editor da revista Playboy decidir se a capa da sua revista vai ser a Mulher jaca ou a Mulher grapefruit… É normal para um grande empresário assinar um cheque no valor de 1 trilhão de reais para financiar sua nova filial…. É normal para um operador de telemarketing ligar o “mudo” no seu telefone e ficar batendo papo com o colega ao lado, enquanto você fica lá do outro lado da linha, esperando…Para uns e outros, é normal matar para preservar seu território, é normal roubar para ter o que não tem, é normal vender drogas para jovens, é normal violentar crianças….

Enfim….acho que vocês já entenderam onde quero chegar…..qual o limite do ‘normal´? Sem querer acabei entrando em um dos grandes pepinos da Antropologia, que questiona até que ponto devemos aceitar algo só porque é normal em determinada “cultura”? Isso se chama “relativismo” – certas coisas são feitas porque são relativas a um determinado padrão “cultural”, ou, encontram um motivo de existir dentro deste padrão….

Atualmente, é normal ficar perseguindo gente conhecida para tirar foto e colocar em revistas e ficar inventando sentimentos e situações só com base nas caras que estas pessoas tem nas fotos.

É normal jovenzinhas de menos de 15 anos ficarem tirando fotos quase nuas, em poses imitadoras das grandes top models só pra colocar nos perfis internéticos da vida…

É normal a mãe e o pai trabalharem quase 50 horas por semana e deixarem os filhos nas mãos de pessoas quase desconhecidas e por causa da culpa, transformarem seus filhos em verdadeiros monstros egocêntricos…

É normal a televisão ficar dramatizando a vida das pessoas a ponto de tudo parecer de mentirinha e a ponto de inspirar maluquetes a cometerem coisas insanas só pra ter seus minutos de fama….

É normal em nome da arte todo mundo ficar pelado e é normal vender produtos apelando para a sexualidade (não deixem de ler a discussão do Pedro Cardoso com o povo da Playboy… tragicamente hilária)…

É normal casar várias vezes, armar coisas para roubar o namorado dos outros (é só assistir Malhação pra aprender), gastar 500 reais numa calça, fazer muitas cirurgias plásticas, colocar silicone, ser magra e achar que é gorda, pagar alguém para escrever sua monografia por você…

É normal você ser medido pelas roupas que veste, pelos títulos acadêmicos que acumulou, pelo tanto de dinheiro que tem, pelo carro, pela casa, pelo cabelo, pela barriga, pela capacidade de falar muito, pela habilidade em mentir, pela destreza em passar a perna nos outros, pela desonestidade….e por muitas outras coisas do tipo…

É, isso tudo é bem normal. Mas eu desconfio desta normalidade…

*Espiritualidade

10 setembro, 2008 às 7:07 pm | Publicado em * Práticas de meditação *, * Viver o presente * | 3 Comentários

Por Walt Whitmann

“Quero fazer os poemas das coisas materiais,
pois imagino que esses hão de ser
os poemas mais espirituais.
E farei os poemas do meu corpo
E do que há de mortal.
Pois acredito que eles me trarão
Os poemas da alma e da imortalidade.”
E à raça humana eu digo:
-Não seja curiosa a respeito de Deus,
pois eu sou curioso sobre todas as coisas
e não sou curioso a respeito de Deus.
Não há palavra capaz de dizer
Quanto eu me sinto em paz
Perante Deus e a morte.
Escuto e vejo Deus em todos os objetos,
Embora de Deus mesmo eu não entenda
Nem um pouquinho…
Ora, quem acha que um milagre alguma coisa demais?
Por mim, de nada sei que não sejam milagres…
Cada momento de luz ou de treva
É para mim um milagre,
Milagre cada polegada cúbica de espaço,
Cada metro quadrado de superfície
Da terra está cheio de milagres
E cada pedaço do seu interior
Está apinhado de milagres.
O mar é para mim um milagre sem fim:
Os peixes nadando, as pedras,
O movimento das ondas,
Os navios que vão com homens dentro
– existirão milagres mais estranhos?”

Quem fala demais esconde a verdade?

27 agosto, 2008 às 1:08 pm | Publicado em * Comentários pessoais sobre as coisas da vida *, * Práticas de meditação *, * Viver o presente * | 12 Comentários
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Eu sempre falei demais. Hoje consigo entender melhor os mecanismos por detrás disso. É normal em nosso mundo pessoas falarem, e muito, o tempo todo, sobre todas as coisas: opiniões, críticas, reclamações, xingamentos, coisas que fez, coisas que fará, etc, etc…

Hoje, um pouco mais quieta, graças à constante prática meditativa, percebo que a fala muitas vezes é apenas barulho. A gente acha que falar é conversar, certo? Mas recentemente descobri que falar pode ser apenas…falar. Pode não implicar uma verdadeira comunicação. Faça a seguinte experiência: ao encontrar um conhecido, procure prestar atenção no que ele fala – geralmente é sobre as coisas que tem feito e etc… E quando ele pergunta pra você “E você, como está?”, na primeira oportunidade volta a falar de si… Perceba se ele ou ela presta atenção no que você está dizendo. Perceba se você mesmo alguma vez já prestou real atenção ao que o outro fala. Perceba se você consegue ficar em silêncio diante desta pessoa…

O silencio é a prova dos nove. Eu consigo ficar em silêncio diante de meus pais e meu marido. Não preciso falar. Eles já me conhecem. A gente se comunica pela presença. Agora, diante de algum “amigo” ou conhecido, tenho ímpetos gravíssimos de fala ininterrupta… Por que será?

Minha conclusão: a fala, pelo menos a minha, acaba servindo como muro de defesa contra as outras pessoas. Quando a gente fala, é capaz de criar uma distância segura em relação ao outro, como se não precisasse realmente se envolver com aquela pessoa naquele momento. É aquela coisa, quando tem barulho, a gente não consegue prestar atenção…

Ao contrário, quando tem silêncio, você não tem com o que se distrair. A salvação é começar a olhar para os lados, ver o movimento. Olhar nos olhos é um martírio, certo? Outra saída é se perder em pensamentos – mas ia ficar estranho duas pessoas, uma diante da outra, cada qual perdida em seus pensamentos…. mas acontece… Pensando melhor, creio que o silêncio também não é representativo da verdadeira comunicação….

Enfim… o que é comunicar-se? Acho que é estar ali, diante daquela pessoa, naquele exato momento. Não é falar sobre o passado – pois ele não está mais ali. Relações baseadas apenas no passado não são mais reais. Vivem apenas de memórias. É memória não é fato – não mais. Não é falar sobre o futuro – ô mania nossa de querer construir uma imagem pessoal falando de nossos “planos”, das coisas que faremos dali a um mês, das nossas idéias geniais… de que adianta falar de algo que ainda nem existe? É fácil se “garantir” apenas pelo discurso – as palavras não tem limites, podemos viajar na maionese. O difícil é realizar apenas 5% daquilo que falamos. Por isso não conto mais nada pra ninguém dos meus planos até que eles se realizem. Mas daí não preciso falar mais, pois eles já estão ali, pra todo mundo ver…

Se não é viver o passado nem o futuro, comunicar-se é ser algo diante da outra pessoa. Não precisa de fala nem de silêncio, apenas de ´verdade´. Eu acredito na ´verdade´ – não a dos dogmas ou teorias, mas da verdade dos fatos. Da presença autêntica. Da transparência. Da límpida e honesta franqueza.

Para prestar atenção real nos outros precisamos estar em contato com a verdade. Pois o outro pode nos trazer muitas surpresas, que podem, por sua vez, destruir nossas crenças pré-estabelecidas, nossos dogmas, nossos pontos de vista rigorosos. O outro, um ser tão complexo e diverso como nós mesmos, tem muitas verdades para nos mostrar. Os outros podem nos falar a verdade. E só quer ver ou ouvir a verdade, quem quer a verdade – óbvio, não? Por isso que a gente diz que amigo que fala a verdade é grosso? Ou estúpido? Um pequeno parênteses (nós, brasileiros, temos que ser muito cordiais, sempre. Aqui, falar a verdade, ser objetivo e muito direto, é crime. Temos sempre que inventar uma desculpa para o que não queremos fazer ou mesmo pedir desculpas por não querermos algo que nos oferecem, como se isso fosse uma ofensa pessoal. A comunicação aqui é cheia de firulas e melindres, meio gosmenta, sabe? No meio político nem se fale – cheia de rodeios, respostas sem nexo e sentido. É prática comum fugir do foco – porque o foco geralmente fede…)

Comunicar-se é ser capaz de perceber o sofrimento profundo a nossa frente. De perceber a aversão que nossa presença causa. É perceber o afeto que outros tem por nós. É escutar o que o outro tem a dizer – escutar mesmo, sem ficar o tempo todo tentando enquadrar em nosso quadro de referência aquilo que o outro diz ou é. É perceber o que está por trás, nas entrelinhas, de um sorriso malicioso ou de um falso aperto de mão. É perceber o quanto somos responsáveis, diretamente, pela sanidade de outras pessoas – nossa presença no mundo tem um impacto gritante, queiramos ou não. Podemos nos esconder nas mentiras ou frivolidades por muito tempo, mas ainda assim nossa vida será referência para outras pessoas.

Para comunicar-se, além de ouvir e ver a verdade, temos que ser capazes de mostrar/falar/ser a verdade. Daí o bicho pega…

PS – Para aqueles interessados na mais profunda verdade de si mesmos – incluindo podres e grandes virtudes, indico, pra variar, a prática da meditação silenciosa e a participação anual em sesshins da tradição zen budista… Coisa mais eficiente eu nunca vi…

Quem você pensa que você é?

7 agosto, 2008 às 1:36 pm | Publicado em * Comentários pessoais sobre as coisas da vida * | 6 Comentários
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Já me fizeram esta pergunta algumas vezes… não assim, desta forma direta. Mas em meio a insinuações….a caras e bocas assustadas e questionadoras…quem eu penso que sou para dizer o que eu penso? Para ser o que eu sou? Para expressar o que creio?

No mundo hierárquico que em vivemos – o mundo do “Sol poente” nas palavras do mestre tibetano Chögyam Trungpa – só tem voz quem está no topo. Seja lá o que “estar no topo” queira dizer – no conceito dominante, é ter dinheiro, um certo poder, uma carreira (ou um currículo) “sólida” e claro, se vestir bem. Tem muita gente querendo chegar lá, ao custo de sacrificar sua própria ética e a reputação de pobres coitados que cruzam seu caminho.

O mundo hierárquico é cruel. Nele, quem ´realmente´ trabalha e realiza coisas úteis é visto como inferior. Veja o caso das “tias da limpeza”. Você pode até tratá-las bem, cordialmente, pois tem muito gente que não faz isso, mas o simples fato de chamá-las de “tias” denota um pouco a situação em que elas se encontram. Você chamaria o “tiozinho da presidência” ou, a “tia da gerência”? Enfim …. Não que os “tios chefes” não trabalhem de verdade (vide o altíssimo grau de constante stress em que se encontram, motivo, aliás, de orgulho) entretanto, tem muito chefe cujo trabalho muitas vezes gira em círculo e não chega a lugar algum, servindo apenas como ponto de apoio para pessoas se promoverem e se sentirem melhor em sua própria pele….tem tanta gente para quem a carreira pessoal importa muito mais do que o trabalho em si! … Desculpem, quanta ingenuidade a minha! Isso é a “vida real”, ou “o modo como as coisas funcionam” ou as “regras do jogo”…

Mas eu, em minha santa ingenuidade, não posso deixar de perguntar se alguém, em sua sã consciência, questiona a verdadeira e profunda importância da limpeza? Sem ela, nem estaríamos vivos…. Não vou nem falar sobre a comida …. Mas deixa pra lá, nós apenas sujamos – outros, que não estudaram tanto quanto nós e que não tem tanto talento para “lutar por oportunidades”, apenas limpam… e não pensam, de preferência.

Quem as tias da limpeza pensam que são para dar qualquer opinião sobre a forma como a empresa em que trabalha é gerida? Quem é você, que nem sabe se vestir direito, para escrever um texto e pensar que pode influenciar alguém? Você tem que construir um “nome” primeiro, tem que criar uma “rede de contatos”, tem que falar bem alto para o seu chefe ver o quanto você é inteligente para daí te dar uma promoção e quem sabe daí você poderá começar a falar coisas que os outros vão ouvir – ou fingir que vão ouvir, porque no fundo vão estar se roendo de inveja e falando mal de você pelas costas (como isso é engraçado!!!)… você, antes, tem que mostrar, mostrar muito, gritar mais alto do que todos ao seu redor, ser “o melhor”… mesmo que você não tenha nada pra mostrar … daí acho que vão lhe dar algum crédito…

É por isso que o mundo de hoje é obcecado pela fama e poder e em fazer coisas para “colocar no currículo” mesmo que não se tenha aprendido nada de fato? Para conseguir ter alguma voz neste barulho incessante? Isso até me comove. No fundo, a gente só quer falar e ser minimamente respeitado em nossas expressões, mesmo que sejam ridículas – vai dizer que um pós-doc na França não ajuda? Ou ser “amigo íntimo” de tal fulano famosésimo? Ou ser o próprio senhor famoso?

Vou contar um segredo para vocês….Nosso mundinho é dominado por coisas “fake”. Adoro este termo. E tem que ser em inglês. Procura no babylon. A fama e a imagem de muita gente é construída em cima do conteúdo e trabalho de outras gentes que você nem fica sabendo que existem! Acredita nisso? Só para dar um exemplo de algo que vocês nunca devem ter percebido: existe um funcionário muito inteligente que produz coisas muito inteligentes, mas como ele só é um simples funcionário pago para não questionar e somente produzir coisas inteligentes, as coisas que ele produz são assinadas pelo seu chefe – que é o único que tem alguma “expressão” e pouca inteligência. Daí, a fama e o reconhecimento irão para o chefe…. que até vai dar um aumento e um presentinho para o funcionário para ele ficar satisfeito e continuar seu trabalho… Isso é a hierarquia que reina por aí.

Mas pra não dizerem que só falo mal da hierarquia, ela acaba tendo um lado ironicamente positivo para o funcionário que não é ninguém: se o funcionário é uma pessoa preocupada com os rumos do mundo mais do que com seu próprio ego, vai ficar feliz em saber que seu trabalho, assinado por um chefe muito famoso e reconhecido e consequentemente, com muito poder de voz e expressão, vai ser visto/lido por milhares de pessoas as quais ele (o funcionário) irá inevitavelmente influenciar.

Ainda bem que pessoas como eu, sem imagem e que não são nada, tem blogs pra escrever e alguns loucos leitores que lêem coisas escritas por uma “maria ninguém”… Vocês são guerreiros! Por que vocês não escrevem também? Eu, pelo menos, vou gostar de ler e saber sobre sua vida e quem sabe assim criamos a “confraria dos que não são ninguém mas que tem algo a dizer”…

Penso, logo, existo. Será?

23 julho, 2008 às 5:58 pm | Publicado em * Comentários pessoais sobre as coisas da vida *, * Práticas de meditação *, * Viver o presente * | Deixe um comentário
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Muitos dias atrás li uma matéria na Revista IstoÉ e o caso de uma jovem de 18 anos me chamou atenção. Ela mora em São Paulo, tem cabelos castanhos, é tímida e com poucos amigos, detesta maquiagem e usa óculos. Sai do cursinho todos os dias às 12h30 e, ao chegar em casa, se transforma em Brina – loira, alta, produzida, com um corpo “violão” e superextrovertida, alma de qualquer festa. Brina nada mais é do que uma personagem do jogo virtual Second Life, mundo em que a jovem mergulha até a hora de dormir. A “second life” ou “segunda vida” acaba sendo muito mais interessante do que a vida real, a “primeira vida”: “já saí várias vezes com meus amigos e me arrependi de não ter ficado em casa jogando”, diz a paulistana. Pois é, na vida número 2 a gente “pode voar, correr riscos e encontrar uma novidade a cada dia”, diz outro jovem paulistano entrevistado para a matéria.

Eu me lembro bem de quando era adolescente e da minha necessidade imensa de ficar ouvindo sem parar e para tudo meu walk-man-de-fita-cassete-com-músicas-gravadas-do-rádio. Até me identifiquei com os jovens de hoje que vão em festas sem música ambiente e onde cada um fica ouvindo seu próprio repertório no i-Pod. Na época de outros tecnologias, a companhia das minhas milhares de fitas K-7 era bem melhor do que a do mundo a meu redor. Lembro também de como esperava a hora de dormir para finalmente entrar em meu mundinho imaginário. Toda noite, antes de dormir, eu alimentava uma história imaginária da minha vida: tinha uma casa com uma janela imensa, um sofá branco enorme e uma decoração modernista misturada às linhas clássicas. Eu era muito moderninha. Solteira, profissional hiper-requisitada e liberal, muitos amigos e reuniões regadas a um bom vinho chileno…E olha que eu só tinha 13 anos…

Eu não precisava de tecnologia. Tinha minha “second life” na mente. E mesmo que minha mãe, para me curar de meu isolamento, quisesse me tomar meu amado walk-man (para quem não sabe o que isso significa, imagine sua querida mãe hoje querendo te tomar o seu i-Pod ou seu celular com MP4 e câmera de 4 Mega)… ela não poderia nunca mandar na minha mente….

Acho que não podemos culpar o desenvolvimento tecnológico pelos nossos problemas. A grande diferença entre ontem e hoje é que aumentou o número de possibilidades – os aparelhos e programas de computador apenas nos oferecem mais meios pelos quais podemos nos alienar do mundo. Com ou sem aparelho, o problema real é o da alienação… Viver uma vida imaginária porque a vida real não nos agrada – este sim, é o problema. Simplesmente porque a vida imaginária não existe de fato… Onde está uma pessoa que vive em um lugar que não existe?

Alguns podem até discordar de mim e defender o mundo da imaginação como uma forma de vida factível. Tudo bem, até é factível mesmo. Somos bem capazes de viver isolados, dentro de nossa própria construção mental e emocional, durante muitos e muitos anos. Eu vivi assim. Até penso que este seja o modo dominante de vida em nossa sociedade – não nos enxergamos realmente, somos apenas personagens das historinhas uns dos outros…e ai de quem não cumprir bem o papel por nós determinado!

Inventar uma historinha pra boi dormir, porque nossa vida é muito chata (pra dizer o mínimo), acaba trazendo mais problemas do que soluções. Pode consolar e trazer certo prazer por um bom tempo, mas na hora em que a vida nos chacoalha com algum dos seus típicos “banhos de realidade” (morte, perda, doença, etc…) nos vemos nus e sem toalha para nos enxugar. E o frio que bate é intenso, pode ter certeza.

Esta desconexão entre mente e corpo trazem muita confusão e, consequentemente, sofrimento. Quero ter outro corpo, mas o corpo que tenho é esse que vejo no espelho, mesmo não querendo! Quero outros pais, mas os que (não) tenho são estes que vejo na hora do jantar, mesmo querendo a família do vizinho! Odeio minhas origens mas nasci nesta cidade e tenho estes antepassados, fazer o que?! O outro corpo, os outros pais, os outros amigos, as outras origens que crio na minha mente são só da minha mente. Não existem. Daí, quando eu acordo do sonho, tenho que fingir que vivo por algumas horas, até o momento em que vou poder sonhar de novo.

Não ver as coisas como elas são dói mais do que aceitar. Isolar-se é mais pesado do que se arriscar nas relações. Fechar-se para o mundo, para as pessoas, para as sensações, para as dores, faz a gente morrer aos poucos, de inanição. Porque o nosso mundo imaginário não é tão rico e infinito de possibilidades quanto o mundo real – por mais doloroso que ele possa ser. Hoje, eu prefiro a dor da vida à dor inventada por mim mesma.

Comentário sobre a inevitabilidade da morte

2 julho, 2008 às 7:31 pm | Publicado em Sem-categoria | 3 Comentários

Existe algo mais óbvio, inelutável, inescapável, inexorável – e todos os “ine” que você puder imaginar – do que a morte? Se este é um fato tão cabal, porque ainda vivemos como se ela não existisse? Por que nós, seres humanos, na nossa longa história de nascimentos e mortes, ainda não sabemos lidar com ela?

Eu não sei a resposta.

Só sei que vivi a morte de uma pessoa bem próxima há algumas semanas. Tal experiência é capaz de te deixar de “pernas quebradas”, atônito, diante do inevitável fato de que realmente “não sabemos de nada”…

Sabe aquela cena do Matrix 1 em que o Morpheus revela a Neo o que é a matrix? (…) “um mundo dos sonhos gerado por computador, feito para nos controlar, para transformar o ser humano…nisto aqui (uma pilha…)”.

Descobrir que “sou uma pilha” é tão inesperado quanto descobrir o quanto podemos ser inaptos e incapazes de entender e lidar com a mais clara das verdades: a morte existe…. e acontece….a qualquer momento…com qualquer um de nós…

Como somos capazes de questionar um fato tão “real”? Quero dizer, se algo existe, acontece, está lá na sua frente, como não somos capazes de simplesmente aceitar, já que não temos NENHUMA outra escolha?

Uns dias atrás, tive uma percepção da morte. Vi que ela “nada mais” é do que um acontecimento inesperado, fora dos planos, fora do nosso controle, o qual não queremos aceitar. Como nós, seres tão desenvolvidos, tão cultuadores do “controle” (da natureza, dos outros seres, de nossa própria vida, etc…) poderíamos aceitar algo assim, uma pessoa ser simplesmente tirada do nosso convívio, sem que nós tenhamos consentido?!

“Mas eu não deixei você morrer!”, “Quem disse que era para ir embora agora?”, “Eu não quero!!!”…

Não queremos muitas coisas mesmo. Gostaríamos que a vida nos obedecesse e fizesse somente aquelas coisas que queremos e esperamos, que realizasse nossas expectativas. Imagine como seria um mundo que realizasse a vontade de cada um de seus habitantes… No mínimo, só iria sobrar uma pessoa vivendo nele.

Já que não é assim, não é e pronto e não adianta espernear, temos que aprender a lidar com o inesperado – com a mudança, com as revoluções, com as obrigatórias transformações.

Acho que o aprendizado da morte está ligado ao aprendizado da “aceitação”. Aceitar o que é e não tem discussão.

Imagine aquele dia em que finalmente se realizaria o grande sonho da viagem que você e outra pessoa qualquer planejaram há tanto tempo…Imagine ainda você com todas as malas prontas, plantada no aeroporto – sim, porque é uma viagem intercontinental! – quando, na última hora, no último minuto, alguém te liga no celular avisando que deu um curto-circuito na sua casa e ela está pegando fogo!!!… Não dá pra acreditar, né? E todos os planos? O que sonhamos? O que já gastamos? E minha casa? Que ódio!

“O que não tem remédio, remediado está”… È um fato. E ponto.

Não adianta choro nem vela. Não adianta dizer que não quer que aconteça porque já aconteceu. Fora do controle. “Out of question”…

E novamente a sabedoria matrixiana: “(…) voce não veio aqui para fazer uma escolha. Você já a fez. Está aqui para tentar entender porque a fez“.

Aceitar a existência da dor, torna ela menos assustadora. Aceitar que a vida corre e muda a cada segundo, e que tudo pode acontecer, torna a existência mais fluida. Aceitar que a única coisa real que existe é o momento presente, torna a vida mais pacífica.

Olha só, tudo isso a gente pode treinar – com a meditação sentada e a atenção plena…

Crônica de uma decisão anunciada*

18 junho, 2008 às 8:49 pm | Publicado em * Comentários pessoais sobre as coisas da vida * | 1 Comentário
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* Escrevi esta pequena carta a mim mesma quando tinha exatos 21 anos. Ainda bem que guardei. É atual e diz muito sobre uma busca que continuo fazendo, ainda hoje…

<A DECISÃO>

CONTRATO QUE REGULAMENTA E FORMALIZA E SACRAMENTA A DECISÃO TOMADA POR LETICIA DE P. ROTHEN (HOJE SATO), NO DIA XX/XX/XXXX, QUE CONTÉM AS SEGUINTES CLÁUSULAS:

1.1 NÃO MAIS CHORAR PELO LEITE DERRAMADO (o que foi feito está feito, não pode ser mudado e obedeceu a lógica do contexto em que se deram os fatos: nada de arrependimento);

2.2. NÃO MAIS REMOER FATOS BONS OU MAUS (não se vive de lembranças, mesmo que sejam as melhores possíveis. O passado ficou para trás, o vivido já foi vivido quando ocorreu e não se pode viver dois momentos [o presente + o passado] ao mesmo tempo. O que ocorreu está registrado nos anais do Universo, cabendo a ele administrar toda e qualquer carga emocional insistentemente recorrente e retardatária;

3.3. NÃO MAIS BUSCAR CULPAS OU CULPADOS PARA TENTAR EXPLICAR OS FATOS;

4.4. NÃO MAIS ACHAR QUE O FOI FOI O MELHOR E ÚNICO MELHOR POSSÍVEL PASSÍVEL DE EXISTIR. DIAS MELHORES VIRÃO DEIXANDO PARA TRÁS TUDO O QUE JÁ FOI ULTRAPASSADO;

5.5 ESQUECER DE IMAGENS, NOMES, FATOS, DATAS, COISAS, AROMAS, SENSAÇÕES JÁ ULTRAPASSADAS POIS ESTES FAZEM PARTE DO MOMENTO, E SOMENTE DESTE, QUE ACONTECERAM. NÃO ARRASTÁ-LAS DE REBOQUE VIDA AFORA;

6.6. NÃO ACHAR QUE O QUE SE ESQUECE NÃO EXISTE MAIS OU DEIXARÁ DE EXISTIR. DEIXAR A CARGO DO JUIZ SUPREMO “TEMPO” A DECISÃO DE CONVOCAR O APARENTEMENTE ESQUECIDO NO MOMENTO PROPÍCIO E ADEQUADO PARA QUALQUER REPARAÇÃO QUE AINDA SE FAÇA NECESSÁRIA;

7.7. NÃO ACHAR QUE A VIDA ACABA NUM TELEFONEMA;

8.8. NÃO ACHAR QUE A VIDA ACABA NUMA VIDA;

NÃO ACHAR NADA.
PARAR DE PENSAR.
VIVER O MELHOR IMPOSSÍVEL A TODO MOMENTO.
NÃO ABRIR NENHUMA FIRMA DE ADIVINHAÇÃO, ESPECULAÇÃO OU O DIABO.
O DIABO MORA NOS DETALHES

SENDO ASSIM, FIRMO ATRAVÉS DESTA A FIRME, CONSISTENTE E DECIDIDA DECISÃO DE NÃO VOLTAR ATRÁS POR MOTIVOS QUE NÃO O SEGUINTE; E SOMENTE O SEGUINTE:
– INTERVENÇÃO DIVINA.

TESTEMUNHADA PELO TEMPO, PELA VIDA, POR DEUS E CAMARADAS, SELO ESTE CONTRATO EM QUE AS PARTES ENVOLVIDAS LETICIA E LETICIA, SE COMPROMETEM A OBEDECER E HONRAR ESTA DECISÃO TOMADA PELA LIVRE INICIATIVA E EXPRESSÃO DE DOR…

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LETICIA

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LETICIA

Sobre auto-estima, momento presente e felicidade…ou “Dinheiro não traz felicidade – infelizmente, pois seria mais fácil…”

27 maio, 2008 às 7:07 pm | Publicado em * Comentários pessoais sobre as coisas da vida *, * Práticas de meditação * | 2 Comentários

Em um post anterior, escrevi que descobri o segredo da vida. Acredito hoje que ser feliz é ser capaz de viver plenamente o momento presente, o que implica: não estar o tempo todo sendo atazanado por lembranças do passado; não ter medo do que vai acontecer logo em seguida ou daqui há algum tempo; conseguir fazer as coisas que estão sendo feitas naquele exato momento de modo atento, sem erros, sem distrações, com concentração; não ficar o tempo todo lembrando daquela ex-colega de trabalho que tanto te magoou e do quanto você foi vitima – ou o contrario, do quanto você a magoou e do quanto ela foi sua vítima; conseguir enxergar a beleza do vermelho, o brilho dos tons de azul do céu, de como é fresca a brisa e do quanto ela nos acaricia, do quanto é maravilhosa a folha de alface com suas nervurinhas tão delicadas…. enfim…. pra mim, isso, entre outras coisas,  é ser feliz. Mas aí está um porém que coloca uma certa dificuldade: pra conseguir viver no presente, atento a tudo isso, precisamos estar “confortáveis em nossa própria pele”, como dizia uma ex-chefe minha.

“Confortável em sua própria pele”. Dá pra dizer que o outro nome disso é “boa auto-estima” ou, boa relação, relação afetuosa consigo mesmo. Pois, se você não está confortável dentro daquilo que você é pra você naquele exato momento, o exato momento se torna insuportável de ser vivido. Se as únicas coisas que conseguimos sentir quando estamos parados no presente é uma indefinível angústia, uma vontade louca de fazer algo, de ver televisão, de conversar, de sair e ver um monte de gente…..é porque não estamos confortáveis em nossa própria companhia…

Este “não estar confortável” pode ser uma causa do nosso pavor da solidão. Solidão, comer sozinho, andar sozinho, rir sozinho, chorar sozinho, etc, se tornam coisas muitos difíceis quando a estima por si mesmo é fraca. E como a falta de auto-amor é algo difícil de encarar ou mesmo de aceitar, acabamos atrelando/grudando nossa auto-estima em alguma coisa fora de nós: pessoas, coisas, situações…

Sabe aquela dor insuportável que algumas pessoas sentem quando levam um fora? Aquela dor quase desesperada e capaz de altas humilhações? Ela acontece porque atrelamos nossa auto-estima ao fato da outra pessoa gostar de nós. Ou seja, só se a(s) outra(s) pessoa(s) gosta(m) de nós é que somos pessoas legais. Se me deram um fora, eu não presto!

Há ainda casos de auto-estima atrelada à magreza perfeita e ao corpo de top-model. De onde vocês acham que vem este desespero em ser magro e saradinho a qualquer custo? O carinho por si mesmo está ligado a existência de um corpo idealizado – e inalcançável, diga-se de passagem, porque tudo na vida é passageiro, principalmente nossa forma física.

Preocupações excessivas com o cabelo, com a roupa que vai vestir na semana que vem, com a fama e o status, etc etc, decorrem, no meu entendimento, de uma distorçãozinha psicológica – quero dizer, de acreditarmos que somos merecedores de amor pelo simples fato de termos e parecermos algumas coisinhas….

Só que isso é uma baita de uma armadilha. Pois como já disse, tudo isso é passageiro. Hoje sou jovem e bela, amanhã não mais. Posso perder todo meu dinheiro, ser assaltado, sofrer um acidente, levar uma surra e quebrar o nariz….meu namorado pode se apaixonar por outra, meu casamento pode acabar, posso perder meu emprego…

Desculpe por isso parecer tão duro. Mas é a realidade. Tudo passa, tudo pode mudar….a vida é mudança. Sendo assim, atrelar a auto-estima, o amor a si, a estas coisas externas, é sofrimento na certa!

Mas calma. A felicidade é possível sim. A partir do momento em que aprendermos a olhar para quem realmente somos e a nos aceitarmos, qualquer que seja nossa forma física ou nossos atributos exteriores, seremos capazes de perceber a grandiosidade do momento presente e isso, por si, nos trará felicidade.

Olhar para quem realmente somos implica descobrir se a vida que estamos vivendo, se as escolhas que fazemos são realmente aquelas que queremos fazer. Não é porque minha família toda é “criminosa”, que eu sou uma criminosa. Não é porque meu pai me mandou estudar administração porque isso é uma tradição familiar é porque tenho que fazer isso. Não é porque as mulheres lutaram para entrar no mercado de trabalho, que tenho eu também deixar minha família de lado e lutar pela minha carreira.

Temos que descobrir o que somos no meio de tudo o que nos “mandam” fazer. Quem disse que tenho que ter uma barriga de tanquinho? Quem disse que tenho que fazer mestrado? Quem disse que tenho que deixar de ser servente do colégio?  Quem disse que tenho que ser presidente da empresa?

Todo mundo diz muita coisa. A televisão, os vizinhos, os familiares, os amigos. Mas viver a vida que os outros dizem que é a certa, a melhor, a garantida, só pra não entrar em conflito, só pra agradar os que querem ser agradados, só pra conseguir conquistar muitas coisas que logo vão apodrecer, tem um preço bem alto.

Um deles é não ser capaz de viver o momento presente com entrega. De olhar para o céu, igual ao de ontem, com cinco cores diferentes, e não ser capaz de se emocionar. De viver correndo, de um lado pro outro, almoçando com os colegas de trabalho, levando trabalho pra casa e nem perceber que o fillho está se envolvendo com drogas. De estar tão estressado e não perceber que a mãe, que você não vê há algumas semanas, logo vai morrer. De não conseguir perceber que seu coração está quase parando por falta de uma alimentação silenciosa e atenta….. Acho que ninguém quer morrer. Ou ser infeliz. Mas parece que as pessoas fazem de tudo pra isso acontecer.

Se ser feliz é viver o momento presente, viver o momento presente só é possível quando conseguimos expressar aquilo que realmente somos. Porque daí, o momento presente se torna recompensador – não precisamos de nada, pois temos tudo, aqui dentro, neste exato momento, neste exato lugar!

Este é um servicinho que ninguém pode fazer por nós. Pois é, tem coisas que não podem ser compradas nem por todo dinheiro ou poder do mundo….só faltava isso agora, pagar alguém para ser nós mesmos em nosso lugar – aposto que tem gente que sonha com isso….

Só você, “sozinhamente”, pode descobrir quem você realmente é e daí desenvolver uma auto-estima legal e consequentemente, viver o presente e a felicidade que ele traz. Pra mim,  meditação funciona…. e muito…

Do “monstro” austríaco Joseph Fritzl ao fato de ninguém prestar atenção…

21 maio, 2008 às 8:58 pm | Publicado em * Comentários pessoais sobre as coisas da vida * | Deixe um comentário

Esta história do austríaco Fritzl realmente me fez pensar. Em um ótimo artigo da Revista Der Spiegel (07/05/2008), um jornalista detalha o caso e lança algumas pérolas de análise sociológica que me permitiram entender algumas coisas…

Nós, brasileiros, gostamos de nos diminuir e exaltar a qualidade de vida do primeiro mundo europeu. Gostamos de dizer que odiamos o Brasil e de como gostaríamos de viver em uma sociedade onde tudo funcionasse perfeitamente bem. Mas a que preço?

Em sua análise do caso, o jornalista critica principalmente a falta de visão de policiais e da justiça em geral que nem sequer desconfiaram das histórias que Fritzl contava e dos 3 ou 4 filhos de sua filha que apareceram na porta de sua casa…. Leia se seguir um trecho da matéria em que ele tenta entender estes fatos:

(…) “No mundo acima [na sua casa normal], ele era simplesmente o discreto sr. Fritzl, elaborando cuidadosamente suas mentiras e distrações, avaliando seus efeitos na polícia e nos órgãos de bem-estar do menor. É claro, também ajudou o fato de viver em um ambiente, na verdade em um país inteiro, que teimosamente permanece uma sociedade consensual, apesar das muitas mudanças radicais da atualidade, uma sociedade com uma tendência de evitar e encobrir disputas”.

“Não são esquecidas as cerca de 40 mil imagens pornográficas encontradas nos computadores de um seminário católico romano em Saint-Pölten, a oeste de Viena, incluindo pornografia infantil e imagens de padres beijando com língua seminaristas diante de uma árvore de Natal. Era um escândalo? Não para o bispo Kurt Krenn, que era encarregado da diocese de Saint-Pölten e que, antes de renunciar sob pressão do papa, apenas se sentiu compelido a comentar que a coisa toda era apenas um “trote infantil” e que “não interessava” à conferência dos bispos”.

“Não é esquecido também o caso em 2006 de Natascha Kampusch, outro caso onde ninguém prestou atenção, ninguém sabia nada e ninguém nem mesmo alega ter suspeitado de nada. E agora um caso semelhante vem à tona de novo em um país com uma população de apenas 8,3 milhões”.

“Se ninguém estava interessado em prestar atenção nestes casos, por que alguém prestaria atenção no que este solitário estava fazendo em Amstetten? Gertrud Ramharter, uma vizinha que vivia do outro lado da rua em Ybbsstrasse, diz que repetidamente ouvia marteladas e barulho de construção vindo da propriedade de Fritzl. Ela se perguntava o que estava acontecendo, ela diz hoje. “O que ele está construindo? Quão grande será?” E havia Alfred Dubanovsky, um dos cerca de 100 inquilinos que alugaram quartos na casa de Fritzl ao longo dos anos e que eram informados que a locação seria cancelada sem aviso prévio caso entrassem no jardim ou no porão. Dubanovsky ainda lembra das sacolas que Fritzl sempre levava para o porão”.

“Mas enquanto os alemães provavelmente chamariam a polícia, preferivelmente de forma anônima e freqüentemente motivados por uma antiga disputa com um vizinho, os austríacos têm a tendência de olhar para o outro lado. Dada esta mentalidade, não é exatamente surpreendente ouvir a criminologista Katharina Beclin, de Viena, dizer que dos cerca de 25 mil casos de abuso sexual que ocorrem na Áustria a cada ano, apenas cerca de 500 são informados à polícia”.

A primeira coisa que isso tudo comprova é que a total satisfação das necessidades materiais, o dinheiro sobrando, as regalias e o altíssimo desenvolvimento tecnológico não são garantia de “felicidade”´. Estas coisas significam que vamos ter o que comer e onde morar com algum conforto. Isso é muito e nós, brasileiros, temos um grande caminho a fazer até que todos tenham a merecida e justa dignidade material. Mas elas não garantem que seremos amados, que teremos nossas necessidades afetivas e sexuais satisfeitas (podemos até pagar por companhia, mas até isso chega num ponto em que cansa. Uma hora vai aparecer alguém que queremos e que não poderemos comprar!). Nem mesmo garantirão que teremos uma vida de plena liberdade de consciência.

Será que para manter o arduamente conquistado “equilíbrio social” teremos que viver em uma sociedade “consensual” – ou seja, aquela que preza o consenso como forma de resolução de conflitos? Tudo bem, o consenso é positivo, mas apenas na medida em que não descamba na homogeneização das opiniões ou na comodidade dada pela harmonia forçada entre as diferenças. Eu gosto do conflito, acho que ele é importante para nosso crescimento ( o que não implica violência, guerra, etc, obviamente). Mas uma diferençazinha sempre traz alguma coisa pra pensarmos…..O duro é quando a diferençazinha começa a ser chata demais e optamos pela muito mais tranquila vida da “igualdade” suprema. A qualquer preço.

Preços: fingir que nada aconteceu; não escutar realmente; desconsiderar de modo educado a opinião contrária; incentivar um sistema educacional onde todos aprendem da mesma forma; pedir para os estrangeiros se retirarem do nosso país…. obrigar os outros a seguirem nossas crenças, vulgo, religiões….. etc, etc, etc…

***

Eu não acho que o “olhar para o outro lado”, ou o “não prestar atenção” sejam privilégios do povo austríaco. Como eu já falei no artigo anterior, prestar atenção e olhar de frente implicam prestar atenção e olhar de frente… Não é bem mais fácil deixar pra lá e nem mesmo questionar se aquilo é também responsabilidade nossa? Ou se aquilo poderia ter acontecido na nossa própria família? Com nossos próprios filhos?

E os pais ainda acham que os filhos se envolvem com drogas simplesmente por revolta infantil…. será que eles não prestam atenção que eles também tem responsabilidade? Tudo o que fazemos afeta e influencia alguém, positiva ou negativamente. Dizer que está tudo bem e simplesmente levar com a barriga podem nos trazer sustos (que susto? Tudo já vem sendo construído desde a infância!) desagradáveis no futuro…

Acho que vou ter que voltar a este assunto……..no próximo post, quem sabe…

Sobre o austríaco Joseph Fritzl e a ‘monstruosidade’ de seus atos…

14 maio, 2008 às 12:00 am | Publicado em * Comentários pessoais sobre as coisas da vida * | 5 Comentários

Não, eu não acho que Josef Fritzl, o austríaco sequestrador da própria filha, seja um monstro. Nós temos uma tendência a empurrar pra fora da “humanidade” aquilo que não concebemos ou que não conseguimos entender. Chamá-lo de monstro implica colocar as suas atitudes e pensamentos fora do rol das “coisas possíveis que um ser humano pode fazer”. Até que se prove o contrário, ele é humano. Pra mim, “monstros” são aqueles aspectos do ser humano que teimamos em negar e lançamos, discreta e infelizmente, nos porões de nossa consciência.

Chamá-lo de “monstro”, pra mim, é parecido com a crença no “demônio” – aquele ser, ou o que quer que ele seja, que também teimosamente consideramos culpados pelos males do mundo e por nossas atitudes pouco equilibradas – foi culpa do diabo! Ou, em outras palavras, dos obsessores, que insistiram em me tirar do sério e me fizeram agir assim ou assado.

Eu também não acredito em “santos”…. Dizer que alguém aguentou tal ou qual coisa porque “era um santo”, tira todo o mérito das escolhas de tal ser. Lembro-me de uma tia-avó postiça, negra, que passou o ‘diabo’ em uma época em que crianças negras eram vendidas para se tornarem empregadas de casas bem abastadas de uma elite branca. Posso dizer com firmeza que essa pessoinha sofreu! E não conheço ninguém hoje – ela está com mais de 70 – tão lúcida, tão realizada e grata por tudo o que recebeu da vida. Já me disseram que ela aguentou tudo “porque era uma santa”. Mas não pra mim, ela aguentou porque foi forte, porque soube fazer as escolhas mais adequadas para sua própria felicidade….

O que quero dizer com tudo isso é que não gosto de colocar em faculdades sobre-humanas coisas que são de nossa própria e exclusiva responsabilidade.

Então quer dizer que o Fritzl foi mesmo responsável por tudo o que fez? O advogado dele “(…) parte do princípio de que alguém que comete tais atos é um doente mental”. Para ele “não é responsável” pois nenhum ser humano em seu mais perfeito funcionamento psíquico seria capaz de atos tão atrozes. Ok, então ele é um doente mental….. Mas, o que é um doente mental? É alguém que nasce feio e mal? Propenso a crimes e loucuras?

Olhem, eu não creio nisso. Creio, sim, que ele tem sérios desequilíbrios psíquicos, mas não que seja alguém totalmente diferente de nós, seja em uma suposta “essência” seja por “natureza”…. Eu me identifico com ele….É isso mesmo, consigo enxergar nele traços que quase todos nós, de um modo ou de outro, de uma intensidade ou de outra, carrega e vive…

Podemos até chamá-lo de “monstro”, mas não no sentido de tocá-lo pra fora do mundo humano. Eu acho que ele é um “monstro” porque enfiou todas as suas angústias e dores mais profundas goela abaixo, criando dentro de si o mais terrível porão, infelizmente concretizado e realizado lá na Áustria, neste tempo…

Não sou psiquiatra, mas em nome da minha constante observação de mim mesma, me atrevo firmemente a fazer algumas considerações a respeito de alguns conceitos que encontrei nesta disciplina, e que tem relação com este caso. De acordo com o criminologista e psicólogo Thomas Müller, que parece acompanhar o caso, este parece um caso típico de “narcisismo maligno” com o agravante de um gosto por fazer dano…

Fui procurar o que significa o tal “narcisismo maligno”. Pelo que entendi, este conceito se refere a pessoas, que de modo extremamente exagerado, se acham “deuses” – de novo, pra fora da humanidade!

Digo “de modo extremamente exagerado” porque muitos de nós, uma hora ou outra em sua vida, já se sentiu um “deus”. As características das pessoas que se acham deusas, são (de acordo com este site aqui: http://virtualpsy.locaweb.com.br/index.php?sec=91&art=149). Claro que os comentários sobre cada uma destas características são meus:

  • Auto-referência excessiva: sabe aquela pessoa que só sabe falar de si, quando você tenta contar alguma coisa pra ela? Ou aquela que sempre coloca suas vontades e interesses na frente das dos outros?

  • Grandiosidade: aposto que você não conhece ninguém que se ache um “pouquinho” mais ou maior que os outros!

  • Tendência à superioridade: o melhor lugar pra enxergar isso é no shopping chique-elite-burguês da sua cidade. Já viu como algumas pessoas tratam as serventes?

  • Exibicionismo: áh, essa é fácil! O mundo da mídia de celebridades e da moda tá cheio disso!

  • Dependência da admiração por parte dos outros: idem ao anterior. Mas nem precisa ir tão longe. De um modo geral temos uma tendencia em agir de modo a agradar os outros e a angariar “simpatias” – custe o que custar, até mesmo a verdade!

  • Superficialidade emocional: as histórias de novelas tem bastante exemplo. Mas na vida “real” encontramos pessoas que pensam que as coisas mais importantes de suas vidas são o dinheiro, a fama, o status, seu próximo caríssimo sapato do estilista de vanguarda..

  • Crises de insegurança que se alternam com sentimentos de grandiosidade: a pessoa que sempre quer aparecer como o máximo, carrega somente uma insegurança em sua capacidade. Senão, por qual outro motivo ela teria que ficar o tempo todo, provando pra todo mundo, o quanto ela é boa? Quem é, é….Quem não é, quer parecer que é….

  • Rivalidade e inveja: isso nem existe nos dias de hoje….a Priscila Fantin (aquela atriz global, sabe?) acha que tudo o que escrevem de mentiras sobre elas na mídia é fruto da inveja…

  • Tendência para exploração do outro: aqui não precisa pensar apenas em trabalho escravo não. Explorar pode ser qualquer ação onde apenas enxergamos os nossos próprios interesses em detrimento dos outros. Chantagear parentes ou amigos com doenças para conseguir atenção, usar o talento de alguém para subirmos na carreira, usar os sentimentos de alguem por nós para nos sentirmos menos sozinhos e mal-amados, etc… Usar os outros pode ter milhares de nuanças…

  • Incapacidade de depender de outros: o auto-suficiente a ponto de morrer de inanição!

  • Falta de empatia para com outros: entendo empatia como uma capacidade que as pessoas tem de se colocar no lugar das outras e de serem capazes de compreender seu sofrimento ou alegria, agindo de modo coerente a esta compreensão. Em palavras mais simples, pode significar não roubar dinheiro público destinado à distribuição de remédios mais baratos, ou não usar a verba que serviria para a prevenção de doenças na compra de jatinhos particulares ou viagens à Europa…ou mesmo, não passar adiante uma fofoca, sem antes ter certeza de que aquilo é verdade – e, se for verdade, não passar adiante, simplesmente para não machucar alguém – já que conseguimos nos colocar no lugar dos outros…

  • Falta de compromisso interno em outras relações: pôxa vida, isso é profundo. Quando falo para as pessoas (apenas quando me perguntam, claro) que meu marido é verdadeiramente fiel, elas não acreditam, porque “pessoas altamente fiéis não existem”. Bom, discordo plenamente. Se eu sou capaz de assumir profundamente um compromisso – o que implica não abandonar uma pessoa simplesmente porque ela é chata, ter paciência nas horas em que tudo anda muito mal, ter palavra e cumpri-la, perdoar e abrir mão dos interesses próprios em prol da comunidade – sei que existem outras pessoas altamente fiéis…. O mundo não está acostumado em assumir “compromissos internos”…aqueles que não precisam de papéis ou assinaturas e que só dependem da firmeza de propósitos….

Assim, é só você colocar antes ou depois destas características todas os termos “excessivo”, “intenso”, “descomensurado”, “exagerado” e você terá um perfeito psicopata ou um “narcisista maligno” ou um Joseph Fritzl…. O que faz então que um ser humano, como qualquer outro, exagere nestes termos a ponto de agir de modo tão agressivo – isso é uma outra história que os psiquiatras também tentam explicar.

OBS. Dizem os psiquiatras: “O narcisismo não patológico é conseqüência de uma má evolução do Ego (…) As pessoas que não realizaram bem esta formação, por não haver interiorizado suficiente amor e estima recebidos do meio, acabam por desenvolver defesas narcisistas muito fortes… Ou seja, as pessoas que só levaram porrada na cara (e este parece ser o caso do Fritzl), que não encontraram refúgio nos braços de ninguém, muito pelo contrário, e cresceram com a crença que não prestavam pra nada, acabam criando uma defesa tremenda contra as outras pessoas a ponto de as enxergá-las como “coisas”….Perceberam o nível de desligamento do mundo e do amor em que estas pessoas vivem? Vixe, mas isso quer dizer entao que a filha dele, a Elizabeth, também vai se tornar uma psicopata? O que você acha?

Pra mim, histórias assim chocam tanto porque elas nos obrigam a olhar lá pra dentro de nós. Elas ficam nos cutucando e cutucando com as demoníacas idéias “Eu nunca faria isso/Será que eu faria isso?”; “Se ele é humano e eu também…”; “Pessoas assim tem que ser executadas/Será que eu mereço perdão?”; “Ele é um monstro/Eu sou um monstro em potencial?”…

Deve ser por isso que a história da Isabella e da Ana Carolina Jatobá gere tanto frisson….O que é que a classe média está vendo a seu próprio respeito nesta história????

Eu acredito profundamente nos seres humanos, porque hoje acredito em mim. Mas não acredito que iremos crescer e ter uma vida melhor se insistirmos em negar nossos lados obscuros e maléficos, jogando a culpa em monstros ou demônios – ou jogando tudo pra dentro do porão…

Mudanças e novidades….

14 março, 2008 às 5:03 pm | Publicado em * Comentários pessoais sobre as coisas da vida * | 1 Comentário

As pessoas que acompanham este blog, já devem ter percebido algumas mudanças. O visual novo vem mostrar não apenas minha mudança de humor, como também algumas diferenças no conteúdo deste blog.

Os textos que estavam aqui postados nas páginas “Sociedades atuais”, “crítica da mídia” e “sobre relacionamentos” foram redirecionadas para outro endereço.

Elas se encontram, junto com outras novidades, no Portal “Escola de Ser”.

A “Escola de Ser” é um projeto que venho desenvolvendo há algum tempo e que agora encontra sua primeira expressão concreta neste Portal.

Bom, visite para saber do que se trata!

O endereço é: http://escoladeser.wordpress.com

Este blog, que antes se chamava “Educação e Vida”, tem agora meu nome. Isso não se deve a nenhuma crise egocêntrica, mas ao fato de que minha proposta de inserir aqui temas relativos à “Educaçao e vida” foi transferida para a “Escola de Ser”. Aqui ficam apenas minhas reflexões pessoais e assuntos mais “particulares”.

Espero que gostem. Muito obrigada pela atençao e participação de vocês.

“Movimento pela vida simples”

5 janeiro, 2008 às 1:46 pm | Publicado em * Comentários pessoais sobre as coisas da vida * | 6 Comentários
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Fiz uma opção em minha vida: ter menos dinheiro na minha conta bancária e uma vida de mais “qualidade”.

Pra alguns, “qualidade” é ter a possibilidade de comprar o que se precisa, de fazer o que se ‘gosta’, não ter preocupações financeiras. Pra mim, o que mais vale é ser capaz de seguir meu próprio ritmo.

Até pouco tempo atrás, eu trabalhava em algo que gostava muito,  que me tranquilizava em termos financeiros e que até me dava certo “status” (imaginem, um antropólogo empregado por ser antropólogo!). Entretanto, percebi com o passar do tempo que tudo isso tinha um preço muito alto.

Quando você trabalha no coração do “sistema” você tem que mostrar seu valor – o tempo todo. Você tem que dar conta das coisas em um ritmo acelerado – alucinado, pra mim. Você tem que saber separar amizade de trabalho, mas ao mesmo tempo tem que sair pra beber com os colegas, participar de festas, dar presentes, etc, mesmo que aquele colega que você tirou no “amigo secreto” seja uma pessoa bem pouco confiável, ou, digamos de modo suave, seja bem pouco seu amigo. Você tem que falar e mostrar o tempo todo o quanto seu trabalho é maravilhoso, ou seja, se você quiser se dar bem, você tem que ser ‘marqueteiro’. Nada disso de ajudar os colegas, fazer coisas de modo silencioso, pois isso ninguém vai ver. O que não é visto não é considerado – mesmo que muitos tenham visto… Enfim. Isso pra mim é estar fora do ritmo. Do meu ritmo. Daquele que diz a hora em que devo falar e calar. A hora em que devo dormir e acordar, comer ou jejuar, aparecer ou desaparecer….

Passar por cima do meu ritmo, isso sim foi a maior violência que cometi contra mim mesma, no decorrer destes anos. Tudo isso pra me encaixar nos padrões aceitos do “seja bem sucedido”, “seja mestre”, “seja doutor”, “seja rico”, “seja homem”… e o mundo se curvará a seus pés….

Hoje, sei que sou lenta, gosto de profundidade, gosto de poder me dedicar às coisas de modo qualitativo, gosto de coisas reais e verdadeiras – como lavar louça, por exemplo. E sou mulher, principalmente.

Estes dias, lendo as sábias palavras do grande Thich Nhat Hanh, encontrei uma parte que coube direitinho nos meus sentimentos. Com ele, quero lançar aqui o “Movimento pela vida simples”…. hehehe… Mas quem sabe, isso pode ajudar outras pessoas que, como eu antes, sofrem por viver uma vida que não parece sua…

“Se você quer ter muito dinheiro pra gastar, você precisa trabalhar árdua e rapidamente, mas se você viver com simplicidade, pode trabalhar com suavidade e plenamente consciente do que está fazendo. Conheço muitos jovens que preferem trabalhar menos, talvez quatro horas por dia, recebendo um salário baixo, para poder viver uma vida simples e feliz. Esta pode ser uma solução para os problemas da nossa sociedade – reduzir a produção de bens inúteis, compartilhar o trabalho com aqueles que não o têm e viver uma vida simples e feliz. Alguns indivíduos e comunidades já demonstraram que isso é possível.

É um sinal promissor para o futuro, não é verdade?”.

Sobre cozinhar e cuidar do mundo doméstico com plena atenção

22 novembro, 2007 às 3:24 pm | Publicado em * Comentários pessoais sobre as coisas da vida *, * Práticas de meditação * | 1 Comentário

Achei, “por acaso”, este texto, de um blog de uma pessoa que não conheço. Eu estava procurando no Google, sobre o que realmente significa ser um “erudito” em algum coisa. E encontrei este texto, que me emocionou até. Principalmente a parte do Thich Nhat Hanh, no final.

Segue o texto (retirado daqui):

A Prática de Cada dia
Giorgia Sena Martins

Antes de praticar no mosteiro (zen budista), nós participávamos de alguns retiros de meditação aqui em Florianópolis. Nesses retiros, contratávamos uma pessoa que cozinhasse para nós, a fim de que pudéssemos participar de todas as sessões de meditação. Acreditávamos que, assim, todos aproveitaríamos melhor o retiro. Afinal, cozinhar não era considerado parte da prática.

Na primeira vez que fui para o mosteiro, espantei-me ao ver que lá quem cozinhava era uma monja que tinha o cargo de “Tenzô”. Tenzô é um dos diretores do mosteiro, cargo de grande importância dentro da tradição Zen Budista. Na hora, pensei: “Puxa vida, que sacrifício enorme! Cozinhar para as outras pessoas, deixar de praticar! Isso não faz sentido, que coisa! Realmente tem de ser uma pessoa muito espiritualizada…Por que eles não contratam alguém para cozinhar no mosteiro?”

Voltei para Floripa e os nossos retiros continuaram sendo daquela mesma forma, com uma pessoa contratada especialmente para cozinhar. Voltei ao mosteiro e continuei me espantando com a existência do Tenzô.

Até que, recentemente, em fevereiro último, fizemos um retiro no mosteiro em que não estava presente a monja que é Tenzô. Assim, revezamos a função de Tenzô (cozinheiro) e eu fui encarregada de cozinhar em alguns dias.

Quando me deram a função, gelei. Embora eu saiba cozinhar bem direitinho – desde a adolescência – nunca havia cozinhado num mosteiro (as comidas lá são um pouquinho diferentes). Além disso, Tenzô deve cozinhar de forma ordenada, organizada, deixar tudo limpo, lavar os utensílios logo depois que os utiliza, não desperdiçar um único grão de arroz, ter toda a comida pronta nos horários certinhos…

Ou seja, é uma tremenda responsabilidade! E só a idéia de “deixar a prática” da meditação para ter de cozinhar já me assustava, me fazia parecer perda de tempo. Ainda que eu houvesse lido por diversas vezes acerca da importância do tenzô, aquele não era um ensinamento que eu houvesse realmente internalizado, apreendido. Nada disso.

Foi realmente supreendente. Eu tinha de me organizar, programar os horários em que deveria deixar a meditação para preparar o café da manhã, o almoço e o jantar. Eu precisava fazer tudo de forma muito atenta, presente, consciente, organizada – do contrário, não daria tempo para nada. Ou, eu corria o risco de não ter as coisas prontas no horário certo. É claro que isso me angustiava, me deixava apreensiva, me apertava o coração e me fazia entrar em contato com um monte de problemas meus, bloqueios, medos, tensões: eu tinha de lidar com tudo aquilo naquele exato momento, não podia fugir, não podia deixar pra trás, não podia desistir. Afinal, a comida das outras pessoas precisava ficar pronta – do jeito certo e na hora certa.

A cozinha do mosteiro lhe dá muitas lições, ali você aprende que não pode pensar só em si, aprende a se doar pro outro. A prática não é só sentar, meditar. A prática é servir, a prática é dar. Naquele momento, sozinha na cozinha, em silêncio, enquanto os outros meditavam, eu podia perceber claramente o que ia dentro de mim, podia me observar, podia ver meus “bichos”, podia ver a forma como encaro as coisas, os problemas, a vida. Ali, a minha prática de meditação (ou falta dela) se mostrava de maneira muitíssimo clara.

Sinto que saí realmente fortalecida daquela experiência. E que cozinhar, é sim, prática. E é prática de meditação, com toda a certeza. Senti isso. Embora já soubesse com “a cabeça”, agora sei com o coração. Talvez, ter sido tenzô, tenha sido a maior experiência daquele retiro. Importante, profunda, real. A prática nas coisas da vida, do dia-a-dia. A prática fora da almofada de meditação, em situação concreta.

Hoje em dia, eu torço para que me surja a oportunidade de ser Tenzô. É duro, difícil, cansativo, exige muito, mas é uma grande prática. Contudo, vejo que essa é uma experiência difícil de transmitir para quem não a sentiu. Recentemente, num retiro que fizemos em Florianópolis, vi que uma colega de prática zen budista interpretava o fato de ir para a cozinha como um sacrifício, algo que nos “roubava” oportunidades de praticar, que nos tirava o conforto, que incomodava o retiro. Com pena de mim, ela até se ofereceu para cozinhar um dia. Por mais que eu insistisse, ela não se convencia de que, para mim, aquela era uma oportunidade muito, muito preciosa.

Ontem à noite, li um trecho do livro “Aprendendo a Lidar com a Raiva” (Ed. Sextante, pág. 133), de Thich Nhat Hanh, mestre zen vietnamita, que se aplica ao nosso tema de hoje. Transcrevo-o aqui, para dividir com você. A partir de agora, até o fim do texto, todas as palavras são de Thich Nhat Hanh:

“Há cerca de quinze anos, uma erudita budista americana me visitou quando eu estava nos Estados Unidos. Ela disse: “Querido mestre, seus poemas são tão bonitos. Você passa um longo tempo cultivando alface e fazendo coisas desse tipo. Por que você não usa seu tempo para escrever mais poesias?”.

 Ela lera em algum lugar que eu apreciava cultivar legumes e verduras, cuidando pessoalmente das alfaces e pepinos, e pensava de uma maneira pragmática, ao sugerir que eu não desperdiçasse meu tempo trabalhando no jardim e o usasse para escrever poemas.

Respondi: Minha querida amiga, se eu não cultivasse as alfaces, não conseguiria escrever os poemas que escrevo. Esta é a verdade. Se você não procurar viver plenamente consciente cada momento do seu cotidiano, você não poderá escrever.”

“Você não conseguirá produzir nada de valor para oferecer aos outros. O poema é uma flor que você oferece às pessoas. Um olhar de compaixão, um sorriso, uma ato repleto de bondade amorosa também é uma flor que floresce na árvore da plena consciência e da concentração.

Embora você não pense na poesia enquanto está preparando o almoço da sua família, o poema está sendo escrito. Você não pode passar o dia inteiro escrevendo a história ou o romance. Você também precisa fazer outras coisas. Você toma chá, prepara o café da manhã, lava a sua roupa, rega suas plantas. O tempo que você passa fazendo essas coisas é extremamente importante.

Você precisa se empenhar cem por cento no ato de cozinhar, de regar a horta, de lavar alouça. Você precisa apreciar profundamente cada coisa que estiver fazendo. Isso é muito importante para a sua carta, seu poema, ou qualquer coisa que deseje produzir.”

“A iluminação não está separada do ato de lavar a louça ou cultivar a alface. A prática dos ensinamentos envolve aprender a viver cada momento da vida diária com plena consciência e profunda concentração. É exatamente nesses momentos que vai se construindo o objeto de arte.”

É isso!

A COMPLICADA ARTE DE VER

20 novembro, 2007 às 2:43 pm | Publicado em Sem-categoria | 2 Comentários

Rubem Alves

Ela entrou, deitou-se no divã e disse: “Acho que estou ficando louca”. Eu
fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura.
“Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os
tomates, os pimentões – é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para
a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas.
Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um
susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente
ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a
rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a
ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o
mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões… Agora, tudo o que
vejo me causa espanto.”

Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de
livros e de lá retirei as “Odes Elementales”, de Pablo Neruda. Procurei a
“Ode à Cebola” e lhe disse: “Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: ‘Rosa de água com escamas de cristal’. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta… Os poetas ensinam a ver”.

Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos
dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é
idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de
fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não
pertence à física.

William Blake sabia disso e afirmou: “A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê”. Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma
epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a
morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão,
dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só
viam o lixo.

Adélia Prado disse: “Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma
pedra e vejo uma pedra”. Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.

Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. “Não é bastante não ser
cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os
campos e os rios”, escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso
e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo
concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada
“satori”, a abertura do “terceiro olho”. Não sei se Cummings se inspirava no
zen-budismo, mas o fato é que escreveu: “Agora os ouvidos dos meus ouvidos
acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram”.

Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, “seus olhos se abriram”. Vinícius de Moraes adota o mesmo mote em “Operário em Construção”: “De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa – garrafa, prato, facão – era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção”.

A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos
estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por
sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de
ruas – e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é
necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam… Mas, quando os olhos
estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer:
brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.

Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os
olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos
brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro
disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do
céu, tornado outra vez criança, eternamente: “A mim, ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas
flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas”.

Por isso – porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a
ver – eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um
professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os
assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus
menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar “olhos vagabundos”…

Descobri o segredo da vida…

11 outubro, 2007 às 11:54 pm | Publicado em * Comentários pessoais sobre as coisas da vida * | 5 Comentários

orvalho2.jpg

Você já parou pra prestar atenção nas gotas de orvalho sobre uma folha verdinha?

Acho que eu também descobri um segredo. Não é bem aquele do filme hiper famoso, mas pode até ter a ver com ele, dependendo do ponto de vista…. 

A minha maior pergunta, até hoje, era, “porque a humanidade não muda”? Esses dias encontrei um livro de um autor chamado J. Krishnamurti, com o título que me assombrou: “A humanidade pode mudar?”, da editora Nova Era. Exatamente a minha pergunta. Claro que o comprei. E demorei para ler, pois ele quebra muitas certezas – tenho lido livros assim. Como já falei em um post anterior.  

Não que o Krishnamurti traga a resposta pronta. Ainda bem. Hoje desconfio de qualquer um que entregue de bandeja respostas que eu mesma, por mim mesma, tenho que encontrar. Ele, na verdade, me ajudou a encontrar uma grande resposta. Algo que eu já venho vivenciando graças a meditação, ao zazen… 

Acho que um início de resposta para a pergunta “por que os homens não mudam” pode estar em uma pergunta que Krishnamurti faz em uma altura do livro (p.279) e que eu adaptei para vocês entenderem melhor: “De que maneira um ser humano que, durante anos, escutou as grandes verdades das religiões e das filosofias com um coração seco, sem lágrimas nos olhos, que entende tudo isso e nada faz, cujo coração está partido, vazio e cuja mente está cheia de palavras e teorias, cheio de si mesmo – de que maneira ele fará com que o coração volte a amar?”….  

Como fazer então para que o coração volte a amar, para que os olhos se encham de lágrimas e que o conhecimento obtido nos faça agir? Como fazer para liberar nossa mente de tantas palavras e teorias?  O que significa ficar vazio de “si mesmo”??? 

Bom, como eu disse, não existem respostas prontas e mágicas, pois é preciso vivenciar. Foi pela minha vivência que enxerguei no parágrafo abaixo a resposta que procurava. O segredo que precisava desvelar. Que isso possa ser útil a quem quiser encontrar sua própria resposta:  

Da página 307:

“Quando estiver comendo, coma. Quando sair para um passeio, ande. Não diga “eu deveria estar fazendo algo diferente”. Quando estiver lendo, dê a isso a sua atenção completa., seja um romance policial, uma revista, a Bíblia, seja o que for. Atenção completa é atenção completa e, portanto, não há essa de “eu deveria estar fazendo algo diferente”.  

Só quando estamos desatentos é que surge o sentimento de “pelo amor de Deus, eu tenho que fazer alguma coisa melhor”. Se dá atenção completa quando está comendo, isto é ação.  

O importante não é o que fazemos, mas se podemos dar a isso total atenção. Por atenção, não quero dizer algo que aprendemos através de concentração na escola ou na empresa, mas observar com nosso corpo, nossos nervos, nossos olhos, nossos ouvidos, nossa mente, nosso coração – inteiramente.  

Se fizermos isso, haverá uma mudança enorme em nossa vida. A vida exige essa atenção a todo minuto, mas fomos tão treinados em desatenção que procuramos sempre escapar da atenção para a desatenção.  Dizemos “como vou observar? Eu sou preguiçoso”. Seja preguiçoso, mas totalmente atento à preguiça. Seja totalmente atento à desatenção. Saiba que está inteiramente desatento. E quanto souber que está inteiramente atento à desatenção, estará atento”.  

Eu sei que pode ser difícil prestar atenção com tanta coisa na nossa cabeça. Respirar ajuda.

O que é meditar?

1 setembro, 2007 às 5:04 pm | Publicado em * Práticas de meditação * | Deixe um comentário

“Ao contrário do que muitos pensam, meditar não é se sentar e ficar todo zen, alienado, tipo bonzinho o tempo todo.

Meditar não é estar alheio às injustiças sociais e ao desrespeito. É estar alerta no mundo, pronto para uma ação amorosa. É um árduo, disciplinado e diário caminho, que inclui estar atento e lúcido o tempo todo, conhecer e governar a mente, seja no trabalho, no lazer ou no trânsito louco.

É parar a mente, o diálogo interno e não se apegar a nenhum pensamento, deixá-lo fluir, para viver o presente integralmente.

Portanto, a meditação, prática tanto do budismo como da tradição cristã, é um antídoto a mais para combater a desarmonia, o desequilíbrio e outros males contemporâneos”.

Adaptado de: http://sangavirtual.blogspot.com 

O que foi que eu fiz? Uma música do Linkin Park

25 agosto, 2007 às 12:19 am | Publicado em * Comentários pessoais sobre as coisas da vida * | Deixe um comentário

Quem diria…..eu colocando aqui um vídeo do Linkin Park……..mas é muito bonito….tem até legenda….

Seguem algumas imagens do vídeo………e no final, o link para o vídeo inteiro, no YouTube….

E essa outra,

http://br.youtube.com/watch?v=74YpVyIvJuU

Comentários de um parágrafo sobre nossas percepções

16 agosto, 2007 às 9:49 pm | Publicado em * Práticas de meditação * | Deixe um comentário

Se nossas percepções de fato são padrões mentais condicionados por experiências passadas e expectativas presentes, o que focamos e como focamos se tornam fatores importantes na determinação de nossas experiências. E, quanto mais profundamente acreditamos que algo é verdade, mais chance temos de isso se tornar verdade nos termos da nossa experiência. Assim, se acreditamos que somos fracos, burros ou incompetentes, não importa quais são nossas qualidades reais e não importa se nossos amigos e colegas nos vêem de outra forma, ainda vivenciaremos a nós mesmos como fracos, burros ou incompetentes“.

– Yongey Mingyur Rinpoche –

Resolvi comentar este pequeno fragmento de texto em minhas próximas postagens. Um texto pequeno como esse tem um conteúdo que encheria páginas e páginas de um livro gigante. Vejam como as coisas que são realmente profundas são simples! Ao invés de um livro gigante, temos apenas um parágrafo, que pode preencher dias e dias de nossas vidas com um conhecimento muito essencial.

Assim, cada dia eu pretendo parar em uma frase. Poderia parar em uma palavra apenas, e já veríamos como o pensamento pode ir longe…..Ler é isso, é prestar atenção nas palavras e nas frases. Isso eu aprendi lá no grupo de estudos da SER, com o Cosme……E nunca vou esquecer……..As vezes, ler apenas uma frase no dia, pode mudar nossa vida…..Dependendo do grau de profundidade em que este conhecimento entra em nós.

Bom, a frase “nossas percepções de fato são padrões mentais condicionados por experiências passadas e expectativas presentes” diz muito. Mas como eu não quero dizer muitas coisas, pois quero deixar espaço para vocês pensarem, vou resumir meu entendimento no seguinte: o que a gente percebe do mundo a nosso redor, aquilo que a gente vê, o modo como entendemos o mundo, são influenciados pelas coisas que vivemos antes – outras experiências que achamos parecidas, traumas, medos que sentimos um dia, dores guardadas, etc… – e também por tudo aquilo que a gente espera que aconteça, nossos sonhos, nossos desejos e vontades……

Onde é que a gente vive então? No pensamento ou na realidade????

Outro mestre disse…

11 agosto, 2007 às 3:36 pm | Publicado em * Práticas de meditação * | Deixe um comentário

“Sentar-se é o caminho para esclarecer o solo da mente e permanecer tranquilamente em sua Natureza Original”

Um velho mestre disse:

11 agosto, 2007 às 3:22 pm | Publicado em * Práticas de meditação * | Deixe um comentário

“Quando a confusão cessa, a claridade surge; quando a claridade surge, a sabedoria aparece; quando a sabedoria aparece, a Realidade se mostra como ela é”.

"A paz está em cada passo"

9 junho, 2007 às 1:10 am | Publicado em * Práticas de meditação * | 1 Comentário

“A paz está em cada passo”

30 maio, 2007 às 10:03 pm | Publicado em * Práticas de meditação * | Deixe um comentário

“A mente pode ir em várias direções
mas neste belo caminho
eu ando em paz
.”
Nhat Hanh

Fala…..Não, não digas nada…

25 maio, 2007 às 12:06 am | Publicado em * Comentários pessoais sobre as coisas da vida * | 2 Comentários

Estou inspirada para músicas estes dias. Lembrei por acaso do Secos e Molhados e daquela música linda, “Fala”…. Creio que poderíamos, todos, parar pra prestar atenção nesta letra e tomar sua “lição” pra nossa vida…….como a gente fala demais!!!!
Pra aparecer? Pra fazer propaganda de si mesmo? Pra ganhar uma promoção? Pra provarmos alguma coisa – para nós ou para os outros??? Pra sempre ter uma resposta??? Socorro….com tanto barulho, não consigo escutar nada…
Cansei de falar….
A música diz tudo…

Fala
Secos e Molhados
Composição: João Ricardo

Eu não sei dizer
Nada por dizer
Então eu escuto
Se você disser
Tudo o que quiser
Então eu escuto
Fala

Fala
Se eu não entender
Não vou responder

Então eu escuto
Eu só vou falar
Na hora de falar
Então eu escuto
Fala
Fala

Nesta mesma onda, achei a outra….parecida no sentido…pra que falar tanto mesmo?

Não, Não Digas Nada
Secos e Molhados
Composição: João Ricardo, sobre poema de Fernando Pessoa

Não: não digas nada
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já
É ouvi-lo melhor
Do que o dirias
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias

És melhor do que tu
Não digas nada, sê
Graça no corpo nu
Que invisível se vê
Não: não digas nada
Não: não digas nada

Peregrinos, para onde? Apenas uma música

19 maio, 2007 às 6:28 pm | Publicado em * Comentários pessoais sobre as coisas da vida * | Deixe um comentário

Peregrino

(Enya.” A day without rain”. livre tradução)

Peregrino, como você caminha
pela estrada que você escolheu
para descobrir
onde os ventos morrem
e para onde as histórias vão.
Todos os dias vem de
apenas um dia
isso é algo que você deve saber,
você não pode mudar o que já passou
mas apenas para onde vai.

Um caminho leva aos diamantes,
m caminho leva para o ouro,
outro o leva somente
para tudo aquilo que você aprendeu.
Em seu coração você imagina
quais destes é verdadeiro
o caminho que leva para
lugar nenhum,
o caminho que o leva até você mesmo.

Você irá encontrar as respostas
em tudo o que você diz e faz?
Você irá encontrar as respostas
em você mesmo?

Cada coração é um peregrino,
cada um quer saber
a razão dos ventos morrerem
e para onde as histórias vão.
Peregrino, em sua jornada
você deverá ir longe,
pois peregrino o caminho é longo
para descobrir quem você é.

Peregrino, o caminho é longo
para descobrir quem você é…

Onde está o amor? uma tradução…

24 março, 2007 às 4:10 pm | Publicado em * Comentários pessoais sobre as coisas da vida * | 1 Comentário

Já pararam para prestar atenção nesta letra? Segue a original e do lado a tradução de umas frases marcantes para mim – quem quiser a tradução inteira, é fácil de achar na net:

Where Is The Love
Black Eyed Peas

What’s wrong with the world, mama – O que há de errado com o mundo, mãe?

People livin’ like they ain’t got no mamas – Pessoas vivendo como se nao tivessem mães

I think the whole world addicted to the drama – Penso que o mundo está viciado em drama

Only attracted to things that’ll bring you trauma – Atraído apenas por coisas traumáticas

Overseas, yeah, we try to stop terrorism

But we still got terrorists here livin’

In the USA, the big CIA

The Bloods and The Crips and the KKK

But if you only have love for your own race – Se você amar apenas aqueles de sua própria raça (seus iguais)

Then you only leave space to discriminate – Então só sobrará espaço para a discriminação

And to discriminate only generates hate – E discriminação gera apenas ódio

And when you hate then you’re bound to get irate, yeah – E quando você odeia, você está perto de ficar irado

Madness is what you demonstrate – E loucura é o que você demonstra (ou, você parece um louco)

And that’s exactly how anger works and operates – E é exatamente desta forma que a raiva funciona

Man, you gotta have love just to set it straight – Cara, você tem que amar pra colocar isso nos eixos!

Take control of your mind and meditate – Tome o controle de sua mente e medite

Let your soul gravitate to the love, y’all, y’all – Deixe sua alma gravitar para o amor

 

People killin’, people dyin’ – Pessoas matando, pessoas morrendo

Children hurt and you hear them cryin’ – Crianças sofrendo e você ouve seu choro

Can you practice what you preach – Você seria capaz de praticar o que você prega

And would you turn the other cheek – E ofereceria sua outra face?

Father, Father, Father help us – Pai, nos ajude

Send some guidance from above – Envie alguma orientação

‘Cause people got me, got me questionin – Porque as pessoas ficam me perguntanto

‘Where is the love (Love)Where is the love (The love)Where is the love (The love)Where is the love

The love, the love – Onde está o amor????

 

It just ain’t the same, always unchanged

New days are strange, is the world insane

If love and peace is so strong

Why are there pieces of love that don’t belong

Nations droppin’ bombs

Chemical gasses fillin’ lungs of little ones

With ongoin’ sufferin’ as the youth die young

So ask yourself is the lovin’ really gone

So I could ask myself really what is goin’ wrong

In this world that we livin’ in people keep on givin’in

Makin’ wrong decisions, only visions of them dividends

Not respectin’ each other, deny thy brother

A war is goin’ on but the reason’s undercover

The truth is kept secret, it’s swept under the rug

If you never know truth then you never know love – Se você não conhecer a verdade, entao nunca conhecerá o amor

 

Where’s the love, y’all, come on (I don’t know)

Where’s the truth, y’all, come on (I don’t know)

Where’s the love, y’all

 

People killin’, people dyin’

Children hurt and you hear them cryin’

Can you practice what you preach

And would you turn the other cheek

Father, Father, Father help us

Send some guidance from above

‘Cause people got me, got me questionin

‘Where is the love (Love)

 

I feel the weight of the world on my shoulder – Sinto o peso do mundo nos meus ombros

As I’m gettin’ older, y’all, people gets colder – Enquanto vou ficando mais velhos, as pessoas vão ficando mais frias

Most of us only care about money makin’- A maioria de nós só se importa em fazer dinheiro

Selfishness got us followin’ our wrong direction – O egocentrismo tem nos feito seguir na direção errada

Wrong information always shown by the media – Informações distorcidas mostradas pela mídia

Negative images is the main criteria – Imagens negativas são o critério principal

Infecting the young minds faster than bacteria – Infectando as jovens mentes mais rápido do que bactérias

Kids wanna act like what they see in the cinema – Crianças querendo agir tal como os personagens dos filmes

Yo’, whatever happened to the values of humanity – O que aconteceu com os valores da humanidade?

Whatever happened to the fairness in equality

Instead in spreading love we spreading animosity – Ao invés de espalhar amor estamos espalhando animosidade

Lack of understanding, leading lives away from unity – Falta de entendimento, afastando as vidas da unidade

That’s the reason why sometimes I’m feelin’ under

That’s the reason why sometimes I’m feelin’ down – É por isso que às vezes eu fico triste

There’s no wonder why sometimes I’m feelin’ under

Gotta keep my faith alive till love is found – Tenho que manter minha fé até que o amor seja encontrado

Now ask yourself – Agora pergunte a si mesmo

Where is the love? – Onde está o amor?

Um grande livro…

3 março, 2007 às 4:39 pm | Publicado em * Comentários pessoais sobre as coisas da vida *, * Práticas de meditação * | Deixe um comentário


…o livro que mudou a minha vida, quebrou minhas certezas – quiméricas, me fez me enxergar nua e claramente: “Além do Materialismo Espiritual“, de Chogyam Trungpa…..depois eu falo por que…

“Ordem Interser”…

5 fevereiro, 2007 às 3:46 pm | Publicado em * Práticas de meditação *, * Sobre o budismo de Thich Nhat Hanh - INTERSER, * Viver o presente * | Deixe um comentário
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“Eu acredito que o encontro entre o budismo e o Ocidente vai dar origem a algo muito importante. O Ocidente possui vários valores como a ciência, o espírito de investigação livre, a democracia. Se esses valores se encontrarem com o budismo, a humanidade ganhará algo muitíssimo novo e estimulante. (…)

O princípio budista de agir e ver as coisas de forma não dualista, se combinado com a maneira ocidental de fazer as coisas, poderá mudar totalmente nosso sistema de vida. O que os budistas norte-americanos estão fazendo é importante para todos nós: trazer o budismo para a civilização ocidental.

O budismo não é um só. Os ensinamentos do budismo são muitos. Ao entrar num país ele toma uma nova forma. Quando eu visitei pela primeira vez uma comunidade budista nos Estados Unidos, perguntei a meu acompanhante: – Por favor, mostre-me seu Buda, o Buda americano. A pergunta surpreendeu meu amigo porque ele pensava que Buda fosse universal. Na China existe o Buda Chinês, no Tibete o Buda Tibetano e, também, os ensinamentos diferem. A forma de ensinamento budista neste último país é diferente da dos outros países. Budismo para ser budismo tem que se apropriar da psicologia e cultura da sociedade em que serve. Minha pergunta era muito simples: – Onde está seu bodhisattva? Mostre-me um bodhisattva americano. Meu amigo não soube fazê-lo. (…)

Eu gostaria de apresentar a vocês uma forma de budismo que pode ser facilmente aceita aqui no Ocidente. Temos experimentado essa forma de budismo ao longo dos últimos 20 anos e ela cabe muito bem na sociedade moderna.

A “Ordem do Interser“(ou “Tiep Hien”) foi fundada no Vietnã durante a guerra. Deriva a Escola Zen de Lin Chi e está em sua 42a geração. É uma forma de budismo engajado, budismo aplicado na vida diária, na sociedade, e não somente em centros de retiro. Tiep Hien são palavras vietnamitas de origem chinesa. Eu gostaria de explicar o seu significado porque se tomará mais fácil compreender o espírito dessa ordem.

Tiep quer dizer estar em contato. A noção de budismo engajado já aparece na palavra Tiep. Antes de tudo temos que estar em contato conosco mesmos. No mundo moderno a maioria de nós não quer ficar em contato consigo mesmo. Preferimos nos pôr em contato com outras coisas, como a religião, o esporte, a política ou um livro – queremos esquecer a nós mesmos. Sempre que temos um tempo de lazer convidamos, logo, alguma coisa para entrar em nós, como a televisão, por exemplo; abrindo-nos para que ela venha até nós e nos colonize. Assim, antes de tudo, em contato significa em contato consigo mesmo, a fim de encontrar a fonte da sabedoria, do entendimento, da compaixão em cada um de nós. Estar em contato consigo mesmo é o sentido da meditação; estar consciente do que está acontecendo no seu corpo, nos seus pensamentos, na sua mente. Esse é o primeiro significado de Tiep.

Significa também estar em contato com os Budas e bodhisattvas, pessoas cujo pleno entendimento e compaixão são tangíveis, efetivos. Estar em contato consigo mesmo quer dizer estar conectado com a fonte da sabedoria e compaixão. As crianças compreendem que Buda está nelas próprias. No primeiro dia de um retiro que houve em Ojai, na Califórnia, um menino afirmou ser Buda. Eu lhe disse que isso era verdade em parte, pois às vezes ele era às vezes não dependendo do grau em que sua mente estivesse desperta.

A segunda parte do significado de Tiep é dar continuidade, fazer algo perdurar. Significa que o caminho para o entendimento e a compaixão, aberto por Buda e bodhisattvas, deve ser continuado, Isso só é possível quando entramos em contato com nosso verdadeiro eu; e isso eqüivale a perfurar o solo até atingir a fonte de água fresca escondida sob a terra para que o poço se inunde dela. Quando entramos em contato com nosso verdadeiro ser, a fonte de sabedoria, entendimento e compaixão jorram como água. Esta é a base de todas as coisas. Estar conectado com nosso verdadeiro ser é necessário para dar continuidade ao caminho iniciado por Buda e bodhisattvas.

Hien significa momento presente. Temos que estar no aqui e agora, porque só o presente é real, só no momento presente é que podemos estar vivos. No budismo não praticamos em nome do futuro ou para renascer no paraíso, mas sim para ser paz, compaixão e alegria no momento presente. Hien quer também dizer tornar real, manifestar, realizar. O amor e o entendimento não são apenas conceitos e palavras; são realidades manifestadas em si próprio e na sociedade. É isso que Hien significa.

É difícil encontrar, no inglês ou no francês, palavras que transmitam o significado de Tiep Hien. Mas existe um termo no suttra Avatamsaka que transmite bem o espírito dessa palavra. É o termo interser, isto é, ser mutuamente. Interser é uma palavra nova, e espero que seja incorporada às palavras dos dicionários. Nós já falamos anteriormente acerca do todo contido no um e do um contido no todo. Numa folha de papel podemos ver o todo: a nuvem, a floresta, o lenhador. Eu sou; portanto, você é. Você é; portanto, eu sou. Esse é o significado da palavra interser. Nós não somos, nós intersomos. (…)

PRECEITOS DA ORDEM DO INTERSER

4 fevereiro, 2007 às 3:43 pm | Publicado em * Práticas de meditação *, * Sobre o budismo de Thich Nhat Hanh - INTERSER, * Viver o presente * | Deixe um comentário
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Os preceitos geralmente começam com advertências relativas ao corpo, como não mate. Os preceitos da Tiep Hien aparecem, de certa forma, em ordem inversa – os que dizem respeito à mente vêm antes. No budismo a mente é a raiz de tudo. Os preceitos da Ordem de Interser são os seguintes:

PRIMEIRO – Não idolatre nem se apegue a nenhuma doutrina, teoria ou ideologia, nem mesmo às budistas. Os sistemas de pensamento devem servir como um meio para guiá-lo e não como verdade absoluta.

Este preceito é o rugido do leão. Seu espírito é característico do budismo. Nós sempre dizemos que os ensinamentos de Buda são apenas uma embarcação para ajudá-lo a cruzar o rio ou um dedo apontando para a lua. Não confunda o dedo com a lua. A embarcação não é a margem. Se nos apegamos à embarcação, se nos apegarmos ao dedo estaremos perdendo tudo. Não podemos, em nome do dedo ou da embarcação, matar uns aos outros. A vida humana é mais preciosa do que qualquer ideologia ou doutrina.

A Ordem de Interser nasceu no Vietnã durante a guerra, que era um conflito entre duas ideologias do mundo. Em nome de ideologias e doutrinas pessoas matam e são mortas. Se você tem uma arma poderá atirar em uma, duas, três ou cinco pessoas; mas se você tem uma ideologia e se fixa a ela, pensando que é verdade absoluta, poderá matar milhões. Este preceito inclui o preceito de não matar em seu mais profundo sentido. A humanidade sofre muito por apego a pontos de vista:

– Se você não seguir este ensinamento eu corto sua cabeça fora.

Em nome da verdade matamos uns aos outros. O mundo está, agora, encalhado nessa situação. Muitos pensam que o marxismo é o mais alto produto da mente humana, que nada pode ser comparado a ele. Outros pensam que consiste numa loucura, e que devemos destruir todos os marxistas. Estamos presos nessa situação.

O budismo não é assim. Um dos ensinamentos básicos de Shakyamuni é este: a vida é a mais preciosa coisa. Isto vem como resposta ao nosso maior problema: guerra e paz. Esta só pode ser alcançada quando não estamos apegados a um ponto de vista, quando estamos livres do fanatismo. Quanto mais você decide praticar este preceito, mais profundamente estará penetrando na realidade e compreendendo os ensinamentos de Buda.

SEGUNDO – Não pense que o conhecimento que você tem no presente é imutável, verdade absoluta. Evite estreitar sua mente limitando-a apenas à sua visão presente. Aprenda e ponha em prática o desapego de opiniões afim de que, assim, possa abrir-se para receber pontos de vista de outros. A verdade é encontrada na vivência, não no conhecimento conceitual. Esteja pronto a aprender, a observar a realidade em você mesmo e no mundo, ao longo de toda a sua existência.

Este preceito é oriundo do primeiro. Lembre-se do jovem pai que se recusou a abrir a porta ao seu próprio filho, achando que o menino já havia morrido. Buda disse: – Se você se apega a alguma coisa como verdade absoluta, quando a verdade em pessoa bater à sua porta, você não a deixará entrar.

Um cientista com uma mente aberta, que é capaz de questionar o atual conhecimento da ciência, terá maior chance de descobrir uma verdade que está mais além. Também um budista, em sua meditação, em sua busca por maior entendimento, tem que questionar seu presente ponto de vista quanto à realidade. A técnica para chegar ao entendimento é superar os pontos de vista e o conhecimento. O desapego de pontos de vista é ensinamento básico de Buda em relação ao entendimento.

TERCEIRO – Não force ninguém – nem as crianças – por meio algum, a adotar seus pontos de vista; seja através de autoridade, ameaça, dinheiro, propaganda ou mesmo educação. Porém, através de diálogo compassivo, ajude os outros a se livrarem da estreiteza mental e do fanatismo.

Este preceito também é oriundo do primeiro. É o espírito da livre investigação. Acho que os ocidentais podem aceitá-lo porque o entendem. Se vocês arrumarem uma forma de organizá-lo globalmente, será um auspicioso evento para o mundo.

QUARTO – Não evite contato nem feche os olhos para o sofrimento. Não perca a noção da existência do sofrimento na vida do mundo. Procure estar com os que sofrem por todos os meios, seja por contato pessoal, visitas, imagens, sons. Desperte dessa forma sua própria consciência e a dos outros para a realidade do sofrimento no mundo.

A primeira palestra com respeito ao Dharma feita por Buda foi sobre as Quatro Nobres Verdades. A primeira verdade é a existência do sofrimento. Este tipo de contato e consciência é necessário. Se não nos confrontarmos com a dor, com os males, não procuraremos a causa dos mesmos para, assim, achar um remédio que nos faça sair da situação.

A América é, de certa forma, uma sociedade fechada. Os americanos não estão muito conscientes do que se passa fora da América. A vida aqui é tão movimentada que, mesmo mostrando imagens de fora pelos jornais e TV, não se estabelece um real contato. Espero que vocês encontrem alguma forma de se conscientizarem do sofrimento no mundo. É claro que dentro da América também existe sofrimento; é deveras importante entrar em contato com os mesmos. Mas muito sofrimento no Ocidente é inútil e pode esvair-se quando olharmos o real sofrimento de outros povos. Às vezes sofremos por causa de algum fator psicológico. Não conseguimos escapar de nós mesmos e, então, sofremos. Se tivermos contato com o sofrimento do mundo e formos tocados por ele, podemos seguir adiante ajudando as pessoas que estão sofrendo, e o nosso próprio sofrimento poderá desaparecer.

QUINTO – Não acumule fortuna enquanto milhões estão passando fome. Não tenha como meta de vida, a fama, o proveito, a riqueza ou o prazer sexual. Leve uma vida simples e partilhe seu tempo, energia e recursos materiais com aqueles que necessitam.

O Sutra das oito realizações dos grandes seres diz “A mente humana está sempre à caça de posses e nunca se satisfaz. Os bodhsattvas se movem em direção oposta e seguem o princípio da auto-suficiência. Eles vivem de maneira simples, a fim de praticarem o caminho, e consideram a realização da perfeita compreensão sua única carreira”. No contexto da sociedade moderna viver em simplicidade significa também permanecer o mais livre possível da destrutiva máquina social e econômica, evitando, assim, o stress, a depressão, a pressão alta e outras doenças modernas. Devíamos fazer todos os esforços para evitar as pressões e ansiedade que assolam a vida moderna. A única forma é consumir menos. Uma vez que somos capazes de viver simplesmente e felizes, seremos capazes de ajudar os outros.

SEXTO – Não guarde ódio ou rancor. No momento em que esses sentimentos surgirem, medite na compaixão para poder compreender em profundidade as pessoas que os causaram. Aprenda a ver os outros com os olhos da compaixão.

Quando a irritação e a raiva surgem, temos que estar conscientes e tentar entendê-las. Uma vez que as entendemos, nos tomamos mais capazes de perdoar e amar. Meditar na compaixão significa meditar no entendimento. Se não compreendemos, não podemos amar.

“Aprenda a olhar os outros seres com olhos de compaixão”. Esta frase é diretamente extraída do capítulo sobre Avalokitesvara no Sutra de Lótus. Você talvez gostaria de escrevê-la e colocá-la no local em que se senta para meditar. Seu original chinês tem apenas cinco palavras: “Olhos compassivos olhando seres vivos”. Quando recitei pela primeira vez o Sutra de Lótus, fiquei em silêncio ao chegar a essas cinco palavras. Eu sabia que elas bastavam para mudar toda a minha vida.

SÉTIMO – Não se deixe perder em dispersões ou no ambiente que o cerca. Aprenda a focar sua atenção na respiração para recobrar o controle do corpo e da mente. Aprenda a manter a mente alerta e a desenvolver entendimento e concentração.

Este preceito está no meio. É o coração dos 14 preceitos. O mais importante deles é viver em plena consciência. Sem este preceito, sem a mente estar desperta, os outros preceitos não podem ser totalmente observados. É como carregar uma haste. Na Ásia usavam carregar coisas penduradas nas extremidades de uma haste colocada sobre os ombros. Este preceito é como o meio da haste que você carrega sobre os ombros.

OITAVO – Não diga palavras que possam criar discórdia e causar ruptura na comunidade. Todos os esforços devem ser empregados no sentido de reconciliar e resolver os conflitos, por menores que sejam.

Agora chegamos ao segundo grupo de preceitos; referem-se à fala. Os sete primeiros lidam com a mente, dois com a fala e cinco com o corpo. Este preceito se refere à reconciliação, ao esforço para estabelecer a paz, não somente na família, mas também na sociedade. Para ajudar a reconciliar um conflito, temos que estar em contato com ambos os lados. Temos que transcender o conflito; se ainda estamos em conflito, fica difícil reconciliar. Temos que ter um ponto de vista não dualístico para podermos ouvir ambos os lados e compreender. O mundo precisa de seres assim, com capacidade de compreender e ter compaixão.

NONO – Não diga mentiras para favorecer seus interesses pessoais ou para impressionar os outros. Não diga palavras que causem divisão e rancor. Não espalhe notícias que você não sabe ao certo. Não critique nem condene coisas das quais você não tem certeza.

Fale sempre a verdade, e construtivamente. Tenha coragem de denunciar as situações injustas, mesmo quando elas possam ameaçar sua segurança. As palavras que dizemos podem criar amor, confiança e felicidade em tomo de nós, ou podem criar um inferno. Devemos ter cuidado com o que dizemos. Se nossa tendência é falar em demasia devemos nos tornar conscientes disso e aprender a falar menos. Temos que estar conscientes do que falamos e dos resultados de nossa fala. Há uma gatha que pode ser recitada antes de atender ao telefone:

Palavras podem percorrer milhares de milhas.

Elas se destinam a construir compreensão e amor.

Cada palavra deve ser uma jóia,

uma bela tapeçaria.

Devemos falar construtivamente. Podemos, em nossa fala, tentar não causar mal-entendidos, rancor ou ciúme; e sim aumentar o entendimento e a mútua aceitação. Ela pode até mesmo ajudar a reduzir nossa conta telefônica. O nono preceito requer, também, franqueza e coragem. Quantos de nós são suficientemente corajosos para denunciar a injustiça numa situação em que falando a verdade a segurança pessoal pode ser ameaçada?

DÉCIMO – Não use a comunidade budista para ganhos ou proveitos pessoais. Nem a transforme em partido político. Contudo, uma comunidade religiosa deve tomar posição clara contra a opressão e a injustiça e esforçar-se para mudar a situação sem engajar-se em conflitos partidários.

Isso não significa que devemos nos silenciar acerca da injustiça. Significa apenas que devemos fazê-lo com plena consciência e não tomar partido. Devemos dizer a verdade e não, apenas, pesar as conseqüências políticas. Se tomamos partido, perdemos nosso poder de ajudar e mediar o conflito.

Durante uma visita à América conheci um grupo de pessoas que queriam angariar fundos para ajudar o governo do Vietnã a reconstruir o país. Perguntei se eles também gostariam de fazer algo para ajudar o povo-de-barco e eles disseram que não. Achavam que politicamente não era bom falar sobre o povo-de-barco porque causaria descrédito ao governo do Vietnã. Para terem êxito numa coisa eles se abstêm de fazer outra coisa que acham certa.

DÉCIMO PRIMEIRO – Não viva uma vocação que seja prejudicial à humanidade e à natureza. Não invista em companhias que privem outros da chance de viver. Escolha uma vocação que ajude a realizar seu ideal de compaixão.

Este é um preceito duro de observar. Se você tem bastante sorte em ter uma vocação que o ajude a realizar seu ideal de compaixão, ainda assim você precisa entender mais profundamente. Se sou um professor, fico contente com meu trabalho de ajudar as crianças; fico contente de não ser um açougueiro que abate bois e porcos. Contudo, o filho e a filha do açougueiro vêm à minha aula e eu os ensino. Eles tiram proveito da minha correta subsistência. Meu filho e minha filha comem da carne que o açougueiro prepara. Um elo nos liga. Não posso dizer que minha subsistência é perfeitamente correta. Pode não ser. Na observação deste preceito está implícito achar meios de realizar uma subsistência coletiva.

Você pode tentar seguir uma dieta vegetariana para diminuir o abate de animais, mas não pode evitar completamente a matança. Ao beber um copo d’água você mata muitos ínfimos seres. Mesmo em seu prato de vegetais existem muitos deles, fervidos e fritos. Eu estou consciente de que meu prato vegetariano não é totalmente vegetariano, e de que nem meu mestre, o Buda, poderia evitá-lo se estivesse aqui. O problema é se estamos ou não determinados a seguir na direção da compaixão. Se estamos, podemos com isso reduzir o sofrimento ao mínimo? Se perco minha direção, tenho que olhar para a estrela do Norte e sigo para o Norte. Isso não quer dizer que eu espere chegar até a estrela do Norte. Eu apenas sigo naquela direção.

DÉCIMO SEGUNDO – Não mate. Não deixe que os outros matem. Por todos os meios possíveis defenda a vida e evite a guerra.

O orçamento e os gastos em defesa nos países ocidentais são enormes. Estudos demonstram que se a corrida armamentista parasse, o dinheiro seria mais do que suficiente para acabar com a pobreza, a fome, o analfabetismo e muitas doenças no mundo. Este preceito não é aplicado somente aos seres humanos, mas a todos os seres vivos. Como vimos antes, ninguém pode observar este preceito com perfeição; porém sua essência é respeitar a vida, fazer o que está a nosso alcance para protegê-la. Isto quer dizer não matar nem deixar que outros matem. É difícil. Aqueles que tentam observar este preceito devem estar trabalhando pela paz, para que eles mesmos tenham paz. Impedir a guerra é melhor do que protestar contra ela. Protestar significa que já é tarde, que ela já teve início.

DÉCIMO TERCEIRO – Não possua nada que deveria pertencer a outros. Respeite a propriedade alheia; mas impeça que outros se enriqueçam através do sofrimento alheio.

Conscientizando-nos do sofrimento causado pela injustiça social, o décimo terceiro preceito nos incita a trabalhar por uma sociedade mais viável. Este preceito é ligado ao décimo quarto (a conscientização do sofrimento), ao quinto (modo de viver), ao décimo primeiro (subsistência correta) e ao décimo segundo (proteção da vida).

Para compreender este preceito em profundidade, precisamos meditar também sobre esses quatro preceitos a que acabamos de nos referir. Desenvolver meios de impedir que outros enriqueçam à custa do sofrimento humano e do sofrimento de outros seres é dever dos legisladores e políticos. Porém, cada um de nós pode agir nesse sentido. Estando próximos de pessoas oprimidas podemos, de certo modo, ajudá-las a proteger seu direito à vida e a defenderem-se contra a opressão e exploração. Não podemos deixar que pessoas se enriqueçam do sofrimento humano e de outros seres. Como comunidade devemos impedir isso. Temos que considerar o problema de como trabalhar pela justiça em nossa própria cidade. Os votos do bodhisattva – de ajudar todos os seres vivos – são extensos. Cada um de nós pode fazer um voto de sentar-se em seu barco de salvamento.

DÉCIMO QUARTO – Não maltrate seu corpo. Aprenda a tratá-lo com respeito. Não encare seu corpo como um simples instrumento. Preserve energia vital- sexo, respiração, espírito – para a auto-realização. A expressão sexual não deve se manifestar quando não há amor ou compromisso. Nos relacionamentos sexuais esteja consciente do sofrimento futuro que poderá causar a outros. Preserve a felicidade dos demais; respeite os direitos e os compromissos alheios. Esteja inteiramente cônscio da responsabilidade de trazer novas vidas ao mundo. Medite no mundo para o qual você está trazendo novos seres.

Você pode ter a impressão de que este preceito desencoraja ter filhos; mas não é bem assim. Ele apenas nos recomenda a tomar consciência do que estamos fazendo. Este mundo é suficientemente seguro para pôr mais crianças nele? Se você quer pôr mais crianças no mundo, faça então alguma coisa pelo mundo. Este preceito tem a ver com o celibato. Tradicionalmente os monges budistas eram celibatários por, pelo menos, três motivos.

O primeiro é que aos monges do tempo de Buda era recomendado praticar meditação a maior parte do dia. Eles tinham que estar em contato com o povo da cidade para ensinar-lhe o Dharma e para pedir comida. Se tivesse que sustentar uma família, não seria possível ao monge cumprir com seus deveres.

A segunda razão é que a energia sexual tinha que ser preservada para a meditação. Consta nas tradições religiosas e médicas da Ásia que o ser humano tem três fontes de energia: sexo, respiração e espírito. Sexual é a energia que você emprega numa relação de sexo. Energia respiratória é a que você emprega quando fala muito e respira pouco. Energia espiritual é a que você gasta quando se preocupa demais e não dorme direito. Se você gasta essas três fontes de energia, seu corpo não tem suficiente força para realizar o caminho e penetrar profundamente a realidade. Os monges budistas observavam o celibato não por advertência moral, mas para a conservação da energia. Quem já provou um longo período de abstinência sabe o quanto é importante preservar essas três fontes de energia.

A terceira razão pela qual os monges budistas observavam o celibato é a questão do sofrimento. Naquele tempo – e ainda hoje – vê-se na Índia muita criança sem comer, muita criança doente sem atendimento médico; e uma mulher pode dar à luz 10, 12 crianças, sem ter a possibilidade de alimentar sequer 2 ou 3. Vida é sofrimento: esta é a terceira verdade do budismo. Pôr uma criança no mundo é uma grande responsabilidade. Se você é rico, talvez possa fazê-lo sem maiores problemas. Mas se você é pobre, toma-se um problema de verdade. Renascer significa antes de tudo renascer em seus filhos. Eles são uma continuação de você. Neles você renasce. E continua o ciclo de sofrimentos. Consciente de que em sua sociedade ter mais crianças era fazê-las sofrer, Buda aconselhou os monges a não terem filhos. Acho que ao longo dos últimos 2.500 anos os monges budistas, em vários países, ajudaram a frear a taxa demográfica. E isso é muito importante.

O décimo quarto preceito nos aconselha a respeitar nosso próprio corpo e a conservar nossa energia para a realização do caminho. Não apenas a meditação, mas qualquer tipo de esforço no sentido de mudar o mundo requer energia. Devíamos cuidar bem de nós mesmos.

Em minha opinião, a libertação sexual do Ocidente causou bons resultados, mas, também, causou problemas. Devido aos métodos modernos de controle de natalidade a libertação feminina tem sido algo bem real. Antigamente, tanto na Ásia como na Europa, as jovens tinham grandes problemas e muitas delas suicidavam-se quando ficavam grávidas. Desde que o controle de natalidade foi descoberto, esse tipo de tragédia diminuiu bastante. Mas a libertação sexual causou também muita tensão, muitos aborrecimentos. Acho que parte da depressão que as pessoas sofrem atualmente deve-se a esse fato. Por favor, meditem no problema. É muito importante para a sociedade ocidental.

Se você deseja ter filhos, por favor, faça alguma coisa pelo mundo em que vai trazê-los. Isso fará de você alguém que trabalha pela paz.

Para quem quiser saber mais, uma ótima opção é o blog: http://sangavirtual.blogspot.com

A Ordem do Interser 2

3 fevereiro, 2007 às 3:36 pm | Publicado em * Práticas de meditação *, * Sobre o budismo de Thich Nhat Hanh - INTERSER, * Viver o presente * | 1 Comentário
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Traduzido do livro “Interbeing” – Thich Nhat Hanh por http://sangavirtual.blogspot.com

A palavra tiep significa “estar em contato com” e “continuar.” Hien quer dizer “perceber” e “fazer aqui e agora.” Para entender melhor o espírito da Ordem Tiep Hien, é útil começar examinando estas quatro expressões.

Com o que nós estamos em contato? A resposta é a realidade, a realidade do mundo e a realidade da mente. Estar em contato com a mente significa estar atento aos processos de nossa vida interior – sentimentos, percepções, formações mentais e também redescobrir nossa verdadeira mente que é a fonte de entendimento e compaixão. Entrar em contato com a verdadeira mente é como cavar profundamente na terra e alcançar uma fonte escondida que enche nosso poço com água fresca. Quando descobrirmos nossa verdadeira mente, ficaremos cheios de entendimento e compaixão que nos nutre e também àqueles ao nosso redor. Estar em contato com a verdadeira mente é estar em contato com Budas e bodisatvas, seres iluminados que nos mostram o caminho do entendimento, paz e felicidade.

Estar em contato com a realidade do mundo significa estar em contato com tudo o que está ao redor nos reinos animal, vegetal e mineral. Se quisermos entrar em contato, temos que sair de nossa concha e olhar claramente e profundamente para as maravilhas de vida – os flocos de neve, o luar, as flores bonitas – e também o sofrimento – fome, doença, tortura e opressão. Transbordando de entendimento e compaixão, podemos apreciar as maravilhas de vida e, ao mesmo tempo, agir com firme resolução para aliviar o sofrimento. Muitas pessoas distinguem entre o mundo interno de nossa mente e o mundo exterior, mas estes mundos não estão separados. Eles pertencem à mesma realidade. As idéias de dentro e fora são úteis na vida cotidiana, mas podem se tornar um obstáculo que nos impede de experimentar a realidade última. Se olharmos profundamente em nossa mente, veremos o mundo profundamente ao mesmo tempo. Se nós entendermos o mundo, entenderemos nossa mente. Isto é chamado “a unidade entre mente e mundo”.

O Cristianismo moderno usa as idéias de teologia vertical e horizontal. Vida espiritual é a dimensão vertical de estar em contato com Deus, enquanto vida social é a dimensão horizontal de estar em contato com seres humanos. No Budismo, há pessoas que também pensam desse modo. Eles falam sobre o nível mais alto de praticar o Caminho do Buda e o nível mais baixo de ajudar os seres vivos. Mas esta compreensão não está de acordo com o verdadeiro espírito do Budismo que ensina que a natureza da iluminação, é inata a todo ser e não só a uma entidade transcendental. Assim, no Budismo o vertical e o horizontal são um. Se nós penetramos no horizontal, achamos o vertical, e vice-versa. Este é o significado de “estar em contato com”.

A seguir vem o conceito de continuação. Tiep significa amarrar dois fios para fazer um fio mais longo. Significa estender e perpetuar a carreira de iluminação que foi iniciada e nutrida pelos Budas e bodisatvas que nos precederam. É útil se lembrar que a palavra “o Buda” quer dizer uma pessoa que está desperta. A palavra “bodisatva” também significa uma pessoa iluminada. O caminho de iluminação que foi iniciado pelos Budas e bodisatvas deve ser continuado, e esta é a responsabilidade de todos nós que empreendemos a prática do Budismo. Semear as sementes de iluminação e tomar um grande cuidado com a árvore de iluminação são o significado de tiep, “continuar”.

O terceiro conceito é “perceber” ou tomar consciência. Hien significa não habitar ou ser capturado no mundo de doutrinas e idéias, mas trazer e expressar nossos insights da vida real. Idéias sobre entendimento e compaixão não são entendimento e compaixão. Entendimento e compaixão devem ser reais em nossas vidas. Eles devem ser vistos e devem ser tocados. A real presença do entendimento e compaixão aliviará o sofrimento e causará o nascimento da alegria. Mas perceber não significa só agir. Em primeiro lugar, tomar consciência significa se transformar. Esta transformação cria uma harmonia entre nós mesmos e a natureza, entre nossa própria alegria e a alegria de outros. Uma vez que nós adquirimos contato com a fonte de entendimento e compaixão, esta transformação é percebida e todas nossas ações protegerão naturalmente e aumentarão a vida. Se nós desejarmos compartilhar alegria e felicidade com outros, temos que ter alegria e felicidade dentro de nós mesmos. Se desejarmos compartilhar tranqüilidade e serenidade, deveríamos as perceber primeiro dentro de nós mesmos. Sem uma mente tranqüila e calma, nossas ações só criarão mais dificuldade e destruição no mundo.

A última expressão para examinar é “fazendo aqui e agora.” Só o momento presente é real e disponível para nós. A paz que nós desejamos não está em algum futuro distante, mas é algo que nós podemos perceber no momento presente. Praticar Budismo não significa suportar sofrimento agora por causa de paz e liberação no futuro. O propósito da prática é não buscar renascimento em algum paraíso ou Terra do Buda depois da morte. O propósito é ter paz para nós mesmos e os outros agora mesmo, enquanto estamos vivos e respirando.

Os meios e os fins não podem ser separados. Bodisatvas cuidam das causas, enquanto as pessoas comuns se preocupam mais com efeitos, porque bodisatvas vêem que causa e efeito são um. Meios são fins neles mesmos. Uma pessoa iluminada nunca diz: “Este é só um meio.” Baseado no insight que meios são fins, todas as atividades e práticas deveriam ser realizadas em plena consciência e pacificamente. Ao sentar, caminhar, limpar, trabalhar ou servir, deveríamos sentir paz dentro de nós mesmos. O objetivo da meditação sentada é primeiro estar calmo e desperto durante a meditação sentada. Trabalhar para ajudar os famintos ou os doentes significa estar calmo e amoroso durante aquele trabalho. Quando nós praticarmos, não esperamos que a prática retorne recompensas grandes no futuro, mesmo o nirvana, a Terra Pura, iluminação. O segredo do Budismo é estar desperto aqui e agora. Não há nenhum caminho para a paz; a paz é o caminho. Não há nenhum caminho para a iluminação; iluminação é o caminho. Não há nenhum caminho para a liberação; liberação é o caminho.

Até agora, nós examinamos os significados das palavras “tiep” e “hien.” Procurando uma palavra ou frase para expressar o significado de Tiep Hien, a palavra “Interser” foi proposta. É uma tradução de um termo chinês achada no ensinamento do Avatamsaka Sutra. Eu espero que esta palavra recentemente inventada seja adotada amplamente em um futuro próximo.

Membros da Ordem do Interser se comprometem a observar e praticar os Quatorze Treinamentos de Plena Atenção. Nos sutras, o Buda usou freqüentemente a palavra shila (preceitos) para descrever estes treinamentos, mas ele também usou a palavra shiksha (treinamentos). Este termo posterior é mais consistente com o entendimento budista de como praticar estas diretrizes, e assim eu recentemente comecei a usar “treinamentos de plena atenção” em vez de “preceitos”. Treinamentos de Plena Atenção são práticas, não proibições.

Eles não restringem nossa liberdade. Eles nos protegem, garantem nossa liberdade e evitam que sejamos enredados em dificuldades e confusão. Quando falharmos, nos erguemos e tentamos fazer novamente nosso melhor. Na realidade, nós nunca podemos ter sucesso cem por cento. Os treinamentos de plena atenção são como a Estrela de Norte. Se nós quisermos viajar para o norte, podemos usar a Estrela do Norte para nos guiar, mas nunca esperamos atingir a Estrela de Norte.

Os Treinamentos de Plena Atenção deveriam ser entendidos e praticados em termos do Treinamento Triplo: plena atenção, concentração e insight. Plena atenção conduz à concentração, e concentração conduz ao insight. Os Quatorze Treinamentos de Plena Atenção são uma expressão concreta da plena atenção na vida diária.

De acordo com o Documento de Fundação da Ordem do Interser, “O objetivo da Ordem é atualizar o Budismo estudando, experimentando, e aplicando o Budismo na vida moderna”. Entendimento só pode ser atingido através da experiência direta. Os resultados da prática deveriam ser tangíveis e verificáveis.

O Documento lista quatro princípios como sendo a base da Ordem: desapego de visões, experimentação direta na natureza da origem interdependente através da meditação, pertinência, e meios hábeis. Vamos examinar cada um destes princípios.

1. Desapego de visões: ser apegado significa ser preso a dogmas, preconceitos, hábitos e o que nós consideramos ser a Verdade. O primeiro objetivo da prática é estar livre de todos os apegos, especialmente apegos a visões. Este é o ensinamento mais importante do Budismo.

2. Experimentação direta: O Budismo enfatiza a experiência direta da realidade, não filosofia especulativa. Prática e realização direta, e não pesquisa intelectual geram insight. Nossa própria vida é o instrumento pelo qual nós experimentamos com a verdade.

3. Pertinência: Um ensinamento para gerar entendimento e compaixão, tem que refletir as necessidades das pessoas e a realidade da sociedade. Para fazer isto, tem que obedecer dois critérios: tem que se alinhar com as doutrinas básicas do Budismo, e deve ser verdadeiramente útil e pertinente. Diz-se que há 84.000 portas do Dharma pelas quais se pode entrar no Budismo. Para o Budismo continuar como uma fonte viva de sabedoria e paz deveriam mesmo ser abertas mais portas.

4. Meios hábeis (upaya); meios hábeis consistem em imagens e métodos criados por professores inteligentes para mostrar o Caminho do Buda e guiar as pessoas nos seus esforços para praticar o Caminho em suas circunstâncias particulares. Estes meios são chamados portas do Dharma.

No que se refere a estes quatro princípios, o Documento diz, “O espírito de desapego a visões e o espírito de experimentação direta leva à mente aberta e a compaixão, ambos no reino da percepção da realidade e das relações humanas. O espírito de pertinência e o espírito de meios hábeis levam a capacidade de ser criativo e reconciliar, ambos necessários para o serviço dos seres vivos.” Guiado por estes princípios, a Ordem do Interser tem uma atitude aberta a todas as escolas budistas. A Ordem do Interser não considera qualquer sutra ou grupo de sutras como seu texto básico. A inspiração é tirada da essência do Budadharma como achada em todos os sutras. A Ordem não reconhece qualquer arranjo sistemático dos ensinamentos budistas como proposto por várias escolas de Budismo. A Ordem busca perceber o espírito do Dharma dentro do Budismo assim como o desenvolvimento desse espírito ao longo da história da Sangha e os ensinamentos em todas as tradições budistas.

Além disso, o Documento expressa uma vontade para estar aberto e mudar. “A Ordem do Interser rejeita o dogmatismo no modo de ver e na ação. Busca todas as formas de ação que possam reavivar e sustentar o verdadeiro espírito de insight e compaixão na vida. Considera que este espírito é mais importante que qualquer instituição budista ou tradição. Com a aspiração de um bodhisattva, membros da Ordem do Interser buscam se transformar para mudar a sociedade na direção da compaixão e entendimento vivendo uma vida alegre e atenta.” (…)

Os Treinamentos de Plena Atenção budistas são diretrizes para viver todos os dias. A maioria das regras religiosas são proibições que começam com o controle do corpo – não matar, não roubar, e assim sucessivamente. Os Quatorze Treinamentos de Plena Atenção da Ordem do Interser começam com a mente, e os primeiros sete lidam com problemas associados à mente. De acordo com o Buda, “A mente é o rei de todos os dharmas. A mente é a pintora que pinta tudo.” Os Quatorze Treinamentos de Plena Atenção refletem o Nobre Caminho Óctuplo, o ensinamento básico tanto na escola Theravada e quanto Mahayana. O Caminho Óctuplo pode ser descrito como o treinamento essencial. O Caminho Óctuplo também começa com a mente – Visão Correta e Pensamento Correto. Nós podemos organizar os Quatorze Treinamentos em três categorias. As primeiras sete com a mente, os próximos dois com a fala, e os últimos cinco com o corpo, embora tenhamos que perceber que esta divisão é arbitrária. A mente é como uma lâmpada de consciência, sempre presente. Os que regularmente recitam e praticam os treinamentos de plena atenção verão isto.

Começos da Ordem do Interser

2 fevereiro, 2007 às 3:26 pm | Publicado em * Práticas de meditação *, * Sobre o budismo de Thich Nhat Hanh - INTERSER, * Viver o presente * | Deixe um comentário

Começos da Ordem do Interser

Irmã Chân Không

Eu sempre vivi como uma monja – comendo comidas simples, tendo apenas algumas poucas roupas, não usando cosméticos e não tendo dinheiro no banco. Eu até doei o colar e os braceletes de diamante, dados por meus pais, a um projeto para os pobres. Com a idade de vinte anos, eu sabia que, um dia, eu iria raspar minha cabeça e me juntar a uma ordem de monjas budistas. Em 1960, Thây Thanh Tu, Thây Tri Quang e Thây (Thich) Nhat Hanh, todos eles, aconselharam-me antes de ser ordenada, mas em 1963 Thây Tri Quang me encorajou a me tornar uma monja. Perguntei a Thây (Thich) Nhat Hanh e ele me disse que os preceitos para monges e monjas, formulados há 2500 anos atrás, precisavam ser renovados. Ele me mostrou então 14 novos preceitos que ele tinha escrito e que, na sua opinião, carregavam dentro de si os mais profundos ensinamentos do Buda e se encaixariam melhor à nossa época. Ele também me disse que me indicaria qual a melhor época para me tornar monja. Mas, naquele momento, ele convidou seis de nós, líderes da Escola da Juventude Para o Serviço Social, a receber formalmente os 14 preceitos.

No dia 05 de fevereiro de 1966, um dia de lua cheia, Thich Nhat Hanh ordenou os primeiros seis membros da Ordem Tiep Hien, a Ordem do Interser. Esta Ordem foi criada por Thây para ajudar a trazer o budismo diretamente para arena dos problemas sociais, num tempo em que a guerra se espalhava e os ensinamentos do Buda eram urgentemente necessários. Ele propôs que a Ordem fosse composta de monges, monjas, leigos e leigas e disse a nós seis que éramos livres para escolher se preferíamos viver e praticar como monásticos ou como leigos. As três mulheres escolheram viver celibatariamente como monja, embora não tivéssemos raspado a cabeça. Os três homens escolheram casar e praticar como budistas leigos. Entre nós três, mulheres, estava Nhat Chi Mai, que se imolou, pondo fogo em si mesma, pela paz, apenas um ano depois.

A ordenação foi uma celebração maravilhosa. Cada um de nós recebeu uma lâmpada na qual Thây escreveu na antiga caligrafia chinesa “Lâmpada do Mundo”, “Lâmpada da Lua Cheia”, “Lâmpada da Sabedoria” etc. Durante a cerimônia, nós nos comprometemos a estudar, praticar e observar os Catorze Preceitos da Ordem do Interser. Desde aquele dia, tenho sentido que esses preceitos são o meu professor principal, especialmente quando tenho estado sob stress e sem saber a melhor maneira de agir. Estes são os Catorze Preceitos:

Os Catorze Treinamentos da Plena Consciência

As condições requeridas por Thây Nhat Hanh para aqueles formalmente ordenados com ele era o de praticar ao menos 60 dias de Plena Consciência por ano e praticar com uma comunidade de amigos. Mesmo quando estou muito ocupada, eu me renovo a cada semana com um Dia de Plena Consciência no templo da nossa Escola para a Juventude, da manhã de sábado à manhã de domingo. Eu sempre vinha carregada de preocupações e resposnsabilidades urgentes, mas depois de um momento, eu podia me acalmar um pouco e parar até os meus mais ansiosos pensamentos. Eu tentava habitar com plena consciência em cada ato, começando por trazer o meu saco de dormir no quarto, fervendo alguma água para o banho e pondo minhas roupas de meditação. Então eu praticava meditação caminhando sozinha na floresta, apanhando flores e talos de bambu para os arranjos da sala de meditação. Depois de três horas vivendo firmemente em cada ato consciente e liberando minhas preocupações, eu começava a me sentir renovada. E, então, nós seis nos juntávamos para recitar os preceitos e cantar o Sutra do Coração. Depois, compartilhávamos o chá e nossas experiências da semana passada, jantávamos silenciosamente e praticávamos a meditação sentada antes de irmos para a cama. Nós meditávamos juntos de novo de manhã cedinho. Durante o tempo individual, antes e depois da meditação da tarde e do próximo dia, eu, às vezes tinha de reassumir meus trabalhos urgentes trabalhando sozinha na minha sala, mas sempre de um modo plenamente consciente.

Um dia, Nhat Chi Mai disse a mim, ” Nós somos uma Ordem tão nova que a Igreja Budista não nos aceita como monjas”. Eu a confortava dizendo “Não se preocupe.Nós não precisamos da aceitação deles. Fomos ordenadas por Thây por que queríamos seguir os Catorze Preceitos. Outros podem nos ver como leigas, monjas ou o que quer que seja. O que é importante é que nós praticamos os preceitos como se eles fossem diretrizes para lidar com nosso caminho de serviço e nos ajudar a transformar nossas tendências negativas, como o fanatismo, estreiteza, raiva e aversão”. De fato, ao continuarmos nossa prática sinceramente, muitos dos monges superiores começaram a nos apreciar. Apesar deles não nos reconhecerem como monjas, eles nos tratavam com igual respeito.

Hoje, milhares de amigos na Europa, América do Norte, Austrália e Ásia conhecem e praticam esses Catorze Preceitos, apesar da maioria não ter tido a oportunidade de recebê-los formalmente de Thây. Eu sempre aconselho aos que desejam praticar os preceitos a organizar uma sangha, uma comunidade de amigos, para recitar os preceitos a cada mês e compartilhar suas experiências de viver os preceitos. Se agirem assim, eles já são membros da comunidade extendida da Ordem do Interser.

Irmã Chân Không – Learning True Love: How I Learned and Practiced Social Change in Vietnam

FONTE: interserblog.blogspot.com


* “Por que não sou mais espírita” ou “o que os espíritas podem aprender dos budistas”*

29 janeiro, 2007 às 10:26 pm | Publicado em * Sobre a filosofia espírita * | Deixe um comentário

Por Leticia Rothen Sato

Fui/sou espírita há 10 anos. Sou, porque não posso simplesmente renegar algo que deu a minha vida a base para pensar de modo mais coerente e consistente. Que me deu a capacidade de organizar meus pensamentos em torno de uma ordem consoladora. Que me deu um sentido, enfim.Fui porque, após um ano de longas e dolorosas crises de crescimento, percebi que o meu pensamento estava organizado demais. Que eu estava presa em mundo mental, ideal, do qual não queria sair mas o qual, ao mesmo tempo, me esgotava e me gerava dor. Por mais que já fossem pensamentos positivos, eles fervilhavam em minha mente e me tomavam toda a energia que eu precisava ter para – AGIR….

Assim, não é “culpa” do movimento espírita, não tem a ver com nenhum revolta ou vontade de inovar de minha parte. Tem a ver apenas com a compreensão de que vivo um momento que não mais se encaixa naquilo que a doutrina, ainda divina e maravilhosa pra mim, apresenta. Na verdade, não tem nem a ver com o conteúdo da doutrina em si. Mas com a forma como este conteúdo é transmitido…

Eu, como espírita, pensava demais. Discutia teoria demais. Falava demais. E também lutava muito. Contra os obsessores, contra o mal, contra os pensamentos negativos, contra religiões atrasadas, etc…E quanto mais lutava, mais ficava presa a tudo isso.

Hoje eu acredito que, quanto mais lutamos contra os pensamentos, mais fortes eles ficam. Quanto mais queremos dominar o “mal” em nós, maior e mais assustador ele fica. Porque quando você luta contra algo, não quer reconhecer que aquilo está dentro de você. A gente luta contra algo que consideramos fora de nós, que não pode entrar em nós. E quando fazemos isso, não percebemos que bastava aceitar para a “coisa” ir embora, ou se transmutar.

Descobri que os pensamentos negativos ou o que for não podem ser nossos inimigos. Eles são parte de nós. Temos apenas que reconhecê-los, aceitá-los e perceber que nós somos mais do que eles, somos mais fortes e que eles não podem nos dominar.

Simples assim. Olhar para o pensamento. Identificar qual foi sua raíz. Perceber que do mesmo modo que ele veio, ele vai embora. E do mesmo modo que veio um pensamento negativo, pode vir tambem um positivo. Basta apenas respirar e se acalmar. Não achar que é o final dos tempos, que os obsessores agora entraram na nossa cabeça, que o pecado nos tomou, ou etc….

Aqui entra o budismo pra mim: “O Buda propôs a prática do pensamento correto. Durante a meditação sentado ou durante os horários de trabalho, pensamentos negativos podem surgir, mas você não se permite ser uma vítima de pensamentos negativos. Você somente permite que eles venham e você os reconhece. Isto é um pensamento, e este pensamento é apenas um pensamento; não é a realidade. Mais tarde, você pode escrevê-lo em um pedaço de papel e olhar para ele. Quando você é capaz de reconhecer seu pensamento, você não mais é vitima dele. Você é você mesmo, mesmo que estes pensamentos sejam negativos”.

Quando você reconhece um pensamento, você deve sorrir e se perguntar, em qual “campo” este pensamento foi produzido: no do medo, da raiva, das preocupações, dos mal entendimentos? Você não precisa se esforçar tanto assim. Você apenas sorri para seu pensamento, e agora você reconhece que o pensamento surgiu do território da percepção errada, do medo, raiva ou inveja. Quando você é capaz de produzir um pensamento que vai na direção do entendimento e do amor, na direção do pensamento correto, este pensamento vai ter um efeito imediato na sua saúde física e mental. E ao mesmo tempo, terá um efeito na saúde do mundo”….

Palavras do grande mestre Thich Nhat Hanh. Com quem estou aprendendo a prestar atenção…

LEIA OUTROS TEXTOS SOBRE O ESPIRITISMO:


  1. Transmissão da Doutrina: evangelizar ou catequisar?

  2. Ensino Filosófico e Ensino Religioso (Rita Foelker)

  3. O Espiritismo está na moda ou O que é, afinal, o Espiritismo?

  4. I. O mundo tem um sentido? Reflexões sobre a vida e o mundo a partir da filosofia espírita

  5. II.O mundo tem um sentido?Reflexões sobre a vida e o mundo a partir da filosofia espírita. PARTE II

  6. III.O mundo tem um sentido?Reflexões sobre a vida e o mundo a partir da filosofia espírita. PARTE III (final)*

Transmissão da Doutrina: evangelizar ou catequisar?

29 dezembro, 2006 às 10:25 pm | Publicado em * Sobre a filosofia espírita * | Deixe um comentário

Você sabe a diferença entre catequisar e evangelizar? Ambos os termos referem-se à ideia de instruir em matéria religiosa, ou seja, pregar uma determinada doutrina religiosa. Mesmo que na prática os termos possam ser equivalentes, podemos perceber uma sutil diferença entre eles tomando como referência uma diferença proposta por Emmanuel entre as tarefas de doutrinar e a de evangelizar.No livro “O Consolador”, Emmanuel aponta para a diferença entre estes últimos. Afirma que, para doutrinar basta o conhecimento intelectual dos postulados do Espiritismo; para evangelizar é necessário a luz do amor no íntimo. Na primeira, bastarão a leitura e o conhecimento; na segunda, é preciso vibrar e sentir com o Cristo“.

Neste parágrafo encontramos resumida uma discussão bastante profunda e relevante, pois está na base da nossa atuação como educadores da infância espírita.

O que implica realmente dizer que estamos evangelizando? O que é este “amor no íntimo” que Emmanuel coloca como essencial para o trabalho educativo? Mas não é bem isso que estamos tentando aprender aqui na Terra? Como então poderemos tê-lo dentro de nos, como premissa ao trabalho, se é este mesmo trabalho que nos permite desenvolvê-lo?

Talvez uma forma de compreendermos o que significa este amor, esteja na forma como nos colocamos diante das crianças, decorrência da nossa própria forma de viver e ver o mundo e os seres.

Explica-se: o modo como lidamos com nossos problemas, a forma como lidamos com os problemas dos outros, a frequência com que refletimos a respeito de nos mesmos e nossas atitudes, nossa capacidade de aceitarmos o erro e superarmos a culpa, etc…, tudo isso está envolvido no momento em que nos relacionamos com as crianças. Mais do que palavras e teorias, conceitos e “morais da história”, transmitimos aquilo que realmente sentimos a respeito de tais palavras e teorias, aquilo que realmente vivemos e compreendemos na prática. Isto é uma parte daquele amor a que Emmanuel se refere: um conhecimento vivido e sentido.

Ou seja, a questão não é já sermos perfeitos e totalmente amorosos, mas estarmos verdadeiramente em busca daquilo que estamos falando. A verdade, mais do que um conjunto de princípios e dogmas, é aquilo que faz a nossa alma vibrar, é aquele entusiasmo que cativa quem estiver por perto. Isso é evangelizar!

Evangelizar é cativar o outro ser para um modo de viver e pensar que liberta. Mas isso só pode ser feito se aquele que o faz, realmente se sente cada dia mais livre e feliz com tal modo de vida.

Nunca poderemos convencer alguém verdadeiramente apenas por jogos de palavras. Podemos sim nos fazermos admirados, conhecidos, afamados por termos o “dom da fala” – mas este é um convencimento que se fixa apenas ao nível do intelecto. Voltando para casa, os ouvintes logo esquecerão daquelas “belezas” que foram apenas faladas.

Ao contrario, quando colocamos “verdade” em nossos sons, aquele que ouve se sente tocado por uma brisa de esclarecimento, como se aquele fosse um momento de descoberta de si mesmo. Como se, aquele modo de vida e aquele conjunto de conhecimentos realmente valessem a tentativa…

E como trazer isso para o relacionamento com as crianças?

Com as crianças há mais necessidade ainda de fazermos vibrar em nós as fibras do entusiasmo e da vivência. Pois elas sentem quando alguém realmente tem prazer em fazer algo, quando acredita naquilo que faz e fala, quando realmente se coloca como alguém que está ali para trocar suas experiências e apresentar um caminho seguro. Enfim, diante de alguém que educa e não apenas instrui….

EDUCAR E INSTRUIR

Educar é mais do que instruir. Instrução resume aquela primeira forma de transmitirmos um conhecimento, que se prende ao nível intelectual. Educar refere-se à segunda.

Para o codificador da doutrina espírita, educador, a educação vai muito além da simples instrução: ela é uma ciência e uma arte. Ciência de observação e constante pesquisa; arte de formar os homens – trazendo a tona os germes de virtude e abafando os germes do vício. Diante disso, podemos dizer que existem dois aspectos que devem estar presentes em nossa prática educativa:

1) a capacidade de nos tornamos facilitadores do aprendizado dos seres – na medida em que já trilhamos um caminho e podemos passar adiante nossos sucessos e aqueles roteiros que consideramos seguros, na forma de conteúdos intelectuais;

2) a capacidade de sermos instrumentos para o despertar dos seres, na medida em que o caminho trilhado por nós nos trouxe uma carga só nossa de aprendizados emocionais, que nos permitem compreender e atender, com nosso coração, os seres que se encontram próximos. Neste caso, o aprendizado se dá de forma indireta, não intelectual, mas através das vibrações que exteriorizamos, que falam daquilo que conquistamos verdadeiramente.

Para que estes dois aspectos possam estar simultaneamente presentes em nossa ação evangelizadora, devemos estar atentos não apenas aos conteúdos que devemos dominar ou sempre buscar conhecer mas também à nossa postura diante deste conhecimento e sua transmissão. Ou seja, devemos ter em mente quais nossos objetivos com nossas ações: queremos ser facilitadores do aprendizado de seres, estimulando seu pensamento, sua reflexão, auto-crítica e espírito investigativo ou apenas estamos querendo passar adiante conceitos que aceitamos como verdades (e que muitas vezes nós mesmos não refletimos nem vivenciamos)? Esta segunda postura traz em si, muitas vezes, um medo do educador de questionar demais, posto que pode colocar em xeque suas próprias “verdades”.

Vemos com isso que o processo educativo coloca uma condição básica àquele que pretende realizá-lo: a constante busca, o constante questionamento individual a respeito de si mesmo, de suas crenças e ações, enfim, a renovação ininterrupta. Só assim seremos capazes de permitir isso às crianças. Pois se nós mesmo não somos “pensadores livres” como queremos tornar tais as crianças?

PENSAMENTO LIBERTÁRIO

Assim, uma questão que se coloca de forma prioritária é: qual minha postura diante da Doutrina Espírita?

Ela é para nós apenas um conjunto de dogmas e princípios que somos obrigados a seguir apenas para fugir da culpa e do medo da punição ou uma filosofia libertária, que abre nossa mente e nos permite viver sem mais entraves e desgastes gerados por este medo e pela ansiedade de sempre termos de acertar?

Como já dito, não é possível transmitir liberdade se não somos livres, verdade se não acreditamos, fé se não vivemos. Até que ponto a Doutrina mexe com nossa intimidade e nos faz buscar a cada dia a felicidade e a paz reais? Somos “verdadeiros espíritas” no sentido de Kardec, daqueles nos quais “os princípios da Doutrina fazem vibrar fibras que nos outros se conservam inertes“? Aqueles que empregam esforços para se domarem e por desligarem-se de seu horizonte limitado – algo, afirma Kardec, que “sempre o conseguem, se tem firme a vontade“?

Assim, ser um verdadeiro espírita, e consequentemente, um educador por excelência, não é ser perfeito ou já ter desenvolvido todos os aspectos do amor. É, isso sim, buscar, e buscar sempre, a auto-superação, a vitória de si mesmo. Alegrar-se com cada passo dado, por menores que sejam. Perdoar-se e assumir de vez sua imperfeição, abrindo caminho para o erro e para a reparação.

Tal comprometimento consigo mesmo permite que o evangelizador desenvolva uma prática libertária e leve mas ao mesmo tempo firme e disciplinadora. Permite que transmita a Doutrina de forma menos dogmática e mais reflexiva.

Neste sentido, é interessante a proposta desenvolvida pela educadora Rita Foelker no sentido de questionar certas atitudes que tomam a transmissão do conhecimento espírita de forma “bitolada e fanática, como se apenas visássemos transmitir um conjunto de princípios dogmáticos e interpretações de textos”. Para a autora, tal educação não pode pretender apenas “aumentar o grupo das pessoas que comungam nas mesmas crenças, nem encher os Centros de espíritas” mas sim “desenvolver o Ser humano integral, possibilitando o desabrochar de todos os potenciais do espírito, sejam intelectuais, afetivos ou morais” e “abrir as portas do autoconhecimento e do conhecimento das leis da vida, para que daí resultem atitudes mais coerentes com as finalidades evolutivas da existência, em todos os sentidos”.

Consequentemente, a prática de ensino do Espiritismo, não só para as crianças, como para jovens e adultos, encontra semelhanças com o ensino filosófico, na medida em que:

  • o Parte de questionamentos e hipóteses, buscando raciocínios e argumentos científicos que ajudem a chegar a conclusões;

  • o Pede reflexão, estudo, aprofundamento e imparcialidade na análise dos assuntos;

  • o Não exclui possibilidades, nem limita a liberdade de pensamento devido a concepções religiosas quaisquer.

Nesta perspectiva,

(…) Não se passam informações simplesmente assumidas como verdadeiras e ponto-final, mas estimula-se o diálogo. Promove-se a interação, forma-se um grupo de investigação e busca da verdade, em que o aprendizado e o prazer da descoberta são simultâneos. Não se teme dúvida ou contestação, aproveitando as controvérsias para retomar os argumentos e reforçar nossa fé no que acreditamos. Torna-se o aluno agente do seu aprendizado, permitindo que construa sua visão de mundo e expresse seus conteúdos e opiniões com segurança e sinceridade”.

Desta forma, devemos ter em mente em nossa atuação a essência da atitude filosófica, que é a de compreender o sentido e as conseqüências da realidade. Lembrando ainda que “as crianças são filósofas espontâneas. Não precisamos lhes impingir um olhar admirado e curioso perante a vida, porque querem, com entusiasmo, saber o que são as coisas e porque elas são assim e não de outro jeito”.

Tratada desta forma, a filosofia espírita pretende “ajudar crianças e jovens nesta sua busca natural, agregando um método de trabalho que, sem tirar a naturalidade e espontaneidade do processo investigativo, resulte na produção de conhecimento com significado e em bases racionais. O objetivo é auxiliá-las a encontrar, neste exercício, a explicação racional que sustente suas ações morais e resulte em melhoria e manutenção de uma atitude mais positiva e construtiva perante a vida”.

Tal forma de ação, apresenta determinadas vantagens pedagógicas, tais como as alocadas a seguir pela autora:

  • Autoconhecimento, pela descoberta do que somos em essência e do sentido de nossas existências;

  • Elevação da auto-estima, pela descoberta dos próprios recursos interiores;

  • Compreensão racional dos princípios do Espiritismo, fundamentando a fé;

  • Estudo interdisciplinar, relacionando os conhecimentos espíritas às demais ciências e às questões da vida prática;

  • Compreensão aprofundada dos mecanismos das leis divinas ou naturais;

  • Desenvolvimento da lucidez quanto ao uso do próprio livre-arbítrio;

  • Desenvolvimento do raciocínio e da capacidade de argumentação;

  • Desenvolvimento das habilidades de observação, comparação e análise;

  • Estímulo à reflexão sobre temas diversos, relativos à conduta moral;

  • Independência mental e favorecimento à independência emocional;

  • Desinibição e coragem de expor as próprias opiniões;

  • Gosto pelo conhecimento, pela leitura e pelos estudos.

  • Formação de atitudes críticas, criativas e solidárias no diálogo e perante a vida, fundamentadas na maior compreensão dos valores morais.

Disso se depreende que o papel do evangelizador é abrir espaço ao outro ser para que ele se realize e compreenda a grandeza dos instrumentos colocados por Jesus para tal propósito. Vejamos bem o termo: abrir espaço, criar a oportunidade, mostrar os caminhos – o evangelizador é “apenas” um instrumento para que a mensagem se faça ouvir. O trabalho restante é feito por aquele que ouve e vive tal mensagem. Não se pode obrigar ninguém a ser algo diferente, se esta não é a sua vontade.

Vemos assim que o trabalho educativo envolve seres que estão na mesma busca, cada qual com sua própria bagagem, colocados frente a frente em (transitórios) papéis de educador e educando, como uma chance da vida de crescerem juntos para o amor.

COMO FAZER?

Não existem fórmulas mágicas e prontas para tal atividade. O que posso fazer aqui, é deixar algumas dicas, frutos da minha experiência como educadora:

– Cuidar para não ter uma postura autoritária

– Ter uma postura de questionamento e verdadeiro diálogo – deixar a criança se expressar, levar a sério o que ela diz.

– Construir o conhecimento com ela a partir de questões colocadas sobre o assunto até que ela mesma chegue à resposta.

– Não ter medo das dúvidas e idéias céticas ou polêmicas – ninguém vai para o inferno por questionar.

– Incentivar o pensamento

– Não é necessário apresentar o tema da aula como uma moral da história – deixar a moral não como algo mecânico e necessário, mas ser flexível parra construí-la junto com os alunos.

Associar o conhecimento transmitido com sua própria vivência, ou seja, trabalhar com temas com os quais se tenha tido algum tipo de contato prático (seja como dificuldade seja como superação). ISSO É MUITO IMPORTANTE E FAZ TODA A DIFERENÇA ENTRE UM BOM EDUCADOR E UM EDUCADOR APENAS RETÓRICO E MORALISTA

LEIA OUTROS TEXTOS SOBRE O ESPIRITISMO:

  1. “Por que não sou mais espírita” ou “o que os espíritas podem aprender dos budistas”


  2. Ensino Filosófico e Ensino Religioso (Rita Foelker)

  3. O Espiritismo está na moda ou O que é, afinal, o Espiritismo?

  4. I. O mundo tem um sentido? Reflexões sobre a vida e o mundo a partir da filosofia espírita

  5. II.O mundo tem um sentido?Reflexões sobre a vida e o mundo a partir da filosofia espírita. PARTE II

  6. III.O mundo tem um sentido?Reflexões sobre a vida e o mundo a partir da filosofia espírita. PARTE III (final)*

Tudo normal por aqui

2 dezembro, 2006 às 4:51 pm | Publicado em Sem-categoria | 1 Comentário

FOLHA de São Paulo, quarta-feira, 18 de junho de 2008 

MARCELO COELHO 

A “normalidade” se desmascara, revelando o poço sem fundo da violência e da barbárie

EM 29 de maio de 1942, pleno período da ocupação nazista, os judeus franceses passaram a ter de usar uma estrela amarela, “do tamanho da palma de uma mão com contorno em preto”, na qual deveria estar escrita, “em letras pretas, a palavra JUDEU”. Deveria ser “levada de forma bem visível no lado esquerdo do peito e costurada na roupa com força”.
Em fins de junho, o senhor Raymond Berr, vice-presidente de uma grande indústria, é preso pelas autoridades numa rua de Paris. O inspetor de polícia liga para a família dele, explicando que nada teria acontecido se a estrela de Berr estivesse bem costurada. 
Acontece que, em vez de costurá-la, a mulher do industrial tinha afixado a estrela com grampos e botões de pressão, para que ele pudesse usá-la em vários ternos. O inspetor acrescenta: “No campo de Drancy, as estrelas serão costuradas”. 
Drancy era o lugar para onde os judeus franceses eram levados, antes de embarcar para os trens a caminho de Auschwitz. 
Quem conta o episódio da prisão é a filha de Raymond Berr, Hélène, num diário que está sendo publicado no Brasil pela editora Objetiva. 
Os manuscritos ficaram muito tempo guardados; só em janeiro de 2008 foram lançados na França, com grande impacto. O dia-a-dia da ocupação nazista em Paris é registrado do ponto de vista de uma moça de 20 e poucos anos, bastante rica, que estuda literatura inglesa na Sorbonne e, com um grupo de amigos, reúne-se para tocar peças dos compositores Beethoven, Schubert e Bach ao violino. 
O que mais aperta o coração, quando se lê “O Diário de Hélène Berr”, é o fato de que sua autora só aos poucos vai tomando consciência das atrocidades que terminarão por vitimá-la. 
Mesmo depois da notícia da prisão do pai, Hélène mantém suas atividades cotidianas. No dia 4 de julho, ela anota: “Dannecker [comandante da SS] ordenou a evacuação do hospital Rothschild. Todos os doentes e os recém-operados foram enviados para Drancy. Em qual estado? Com quais cuidados? É atroz.”. 
Logo em seguida, Hélène escreve: “Vieram Job e Breynaert. Job não quer saber de nada. Tocamos o Quinteto “A Truta”. Muito bonito.”. 
Nesse ano de 1942, Hélène ainda está muito envolvida com seus problemas sentimentais; começa a apaixonar-se por um rapaz que, dali a alguns meses, decide abandonar Paris e ingressar na Resistência. Há leituras, piqueniques. O pai, cidadão influente, é libertado: não o levarão para Drancy; não, por enquanto. 
A família teria ainda condições de fugir de Paris. Hélène acha que isso seria uma covardia, ou pelo menos uma falta de solidariedade com as demais vítimas da ocupação. Mas acrescenta: “Penso que há certo egoísmo em mim, pois todas as alegrias que experimentei estão concentradas nesta vida daqui”. 
Eis o que há de especialmente assustador no diário de Hélène Berr. A vida “normal”, seus prazeres e rotinas, mantém-se em condições de absoluta excepcionalidade e horror. 
Cada dia traz novidades hediondas, mas são poucos os que percebem a que cúmulo as coisas chegarão em breve; é como se a capacidade de toda pessoa para adaptar-se, evitando pensar no pior, e tocando a vida como dá, se revelasse decisiva para a ruína final. 
Desconfiar da “normalidade”, eis uma coisa que não estamos nunca preparados para fazer. E, quando a “normalidade” se desmascara de uma vez por todas, revelando o poço sem fundo da violência e da barbárie, já é tarde demais. 
As deportações para os campos de extermínio começam a ser feitas. Aos poucos, Hélène se dá conta de um destino praticamente inevitável. 
Cuida de crianças pequenas, cujos pais já foram levados para Auschwitz. Logo as crianças serão deportadas também. Ao mesmo tempo, Hélène continua lendo os poetas ingleses. Cita uma passagem de John Keats (1795-1821): “Esta mão viva, agora quente e capaz/ De apertar vigorosamente, iria, se se resfriasse/ no silêncio gélido do túmulo/ Tanto rondar os teus dias e gelar os teus sonhos noturnos/ que desejarias que teu coração secasse de todo o seu sangue/ Para que novamente corresse em minhas veias a vida rubra,/ E tranqüilizasse a tua consciência, vê: aqui está ela,/ Eu a estendo em tua direção”. 
Mais de 60 anos depois da morte de sua autora, o diário de Hélène Berr reaparece, vivo, em nossos tempos “normais”; é hora de segurá-lo em nossas mãos. 

coelhofsp@uol.com.br

Ensino Filosófico e Ensino Religioso (Rita Foelker) *

29 novembro, 2006 às 10:25 pm | Publicado em * Sobre a filosofia espírita * | Deixe um comentário

Este texto foi elaborado pela educadora Rita Foelker

(site: www.edicoesgil.com.br/educador/filosofia/filosofia_principal.html)

Ele contém importantes reflexões a respeito da prática de ensino da Doutrina para crianças/jovens/adultos

O que podemos entender por Educação Espírita? Essa expressão pode ser entendida em dois sentidos: 1º) como uma espécie de formação sectária das crianças e dos jovens, uma forma de transmissão dos princípios espíritas às novas gerações, e portanto um assunto doméstico, restrito ao lar e às escolinhas que funcionam nas Federações e nos Centros Espíritas, à semelhança do que se faz nos catecismos das igrejas; 2º) como um processo de formação universal das novas gerações para o mundo novo que o Espiritismo está fazendo surgir na Terra. (Herculano Pires em “Pedagogia Espírita”, Ed.Edicel.)

A Educação Espírita tem como objetivo desenvolver o Ser humano integral, possibilitando o desabrochar de todos os potenciais do espírito, sejam intelectuais, afetivos ou morais. Não podemos encarar a Educação Espírita de maneira bitolada e fanática, como se apenas visássemos transmitir um conjunto de princípios dogmáticos e interpretações de textos.

Não se pretende, com ela, aumentar o grupo das pessoas que comungam nas mesmas crenças, nem encher os Centros de espíritas, mas abrir as portas do autoconhecimento e do conhecimento das leis da vida, para que daí resultem atitudes mais coerentes com as finalidades evolutivas da existência, em todos os sentidos.

Por isso, uma prática no estilo de catequese não se coaduna com os seus propósitos.

O ensino do Espiritismo para crianças, jovens e adultos não poderá se revestir das características do ensino religioso, nem com este ser confundido, mas tem muito pontos em comum com o ensino filosófico:

  • por partir de questionamentos e hipóteses com os quais trabalhamos, buscando raciocínios e argumentos científicos que ajudem a chegar a conclusões;

  • por pedir reflexão, estudo, aprofundamento e imparcialidade na análise dos assuntos;

  • por não excluir possibilidades, nem limitar a liberdade de pensamento devido a concepções religiosas quaisquer.

Isto tem influência em toda a estrutura do trabalho educacional, desde a metodologia adotada aos recursos didáticos, à dinâmica das aulas, ao relacionamento do grupo e à própria maneira do educador encarar e realizar a sua tarefa.

Não se passam informações simplesmente assumidas como verdadeiras e ponto-final, mas estimula-se o diálogo. Promove-se a interação, forma-se um grupo de investigação e busca da verdade, em que o aprendizado e o prazer da descoberta são simultâneos. Não se teme dúvida ou contestação, aproveitando as controvérsias para retomar os argumentos e reforçar nossa fé no que acreditamos. Torna-se o aluno agente do seu aprendizado, permitindo que construa sua visão de mundo e expresse seus conteúdos e opiniões com segurança e sinceridade.

A Educação Espírita não tem cunho religioso, mas filosófico – assim como a própria Doutrina Espírita – mesmo possuindo inevitáveis conotações morais que tocam em temas quase sempre pertencentes ao âmbito da Religião, como as conseqüências destes estudos no campo moral, nas nossas atitudes perante Deus, perante nós mesmos e perante o próximo.

Herculano Pires afirma que as duas definições acima são corretas, e que o que não podemos é nos contentar com a primeira, esquecendo-nos da segunda. Se nos detivermos na primeira, faremos somente “catecismo espírita”. Mas se entendermos a proposta do Espiritismo na sua verdadeira abrangência,realizaremos muito mais em prol destas gerações que aí vêm.

(Artigo escrito para o “Jornal do Cem”.)

LEIA OUTROS TEXTOS SOBRE O ESPIRITISMO:

  1. “Por que não sou mais espírita” ou “o que os espíritas podem aprender dos budistas”

  2. Transmissão da Doutrina: evangelizar ou catequisar?


  3. O Espiritismo está na moda ou O que é, afinal, o Espiritismo?

  4. I. O mundo tem um sentido? Reflexões sobre a vida e o mundo a partir da filosofia espírita

  5. II.O mundo tem um sentido?Reflexões sobre a vida e o mundo a partir da filosofia espírita. PARTE II

  6. III.O mundo tem um sentido?Reflexões sobre a vida e o mundo a partir da filosofia espírita. PARTE III (final)*

Trabalhos acadêmicos

30 outubro, 2006 às 11:11 pm | Publicado em Sem-categoria | Deixe um comentário

Acadêmicos – Leticia de Paiva Rothen Sato

Resolvi desencavar minhas produções acadêmicas na área de Ciências Sociais – partindo do princípio de que possam ser úteis para alguém…. Elas, afinal de contas, também são eu…

♦ Dissertação – Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (UFPR)/ 2003:

Título: A vida na Barra: etnografia de uma comunidade de pescadores do litoral norte do Paraná.

Orientador: Profª. Drª. Edilene Coffaci de Lima

Banca: Prof. Dr. Mauro Almeida (Unicamp),Profª Drª Christine de Alencar Chaves (UFPR)

♦ Monografia – Curso de Especialização em Educação Meio Ambiente e Desenvolvimento (UFPR) / 2004

Título: Qual Educação Ambiental? Discussões sobre modernidade, crise e possíveis soluções.

Orientador: Prof. Dr. Dimas Floriani (UFPR)

Banca: Profª. Drª. Edilene Coffaci de Lima, Profª Drª Maria do Rosário Knechtel (UFPR)

♦ Monografia – Curso de Ciências Sociais. habilitação Antropologia (UFPR) / 2000.

Título: Identidade Étnica na Terra Indígena São Jerônimo, PR

Orientadora: Edilene Coffaci de Lima

Banca: Prof.Dr. Márnio Teixeira Pinto (UFSC); Prof. Dr. Cecilia M. Vieira Helm (UFPR)

O Espiritismo está na moda ou O que é, afinal, o Espiritismo?

29 outubro, 2006 às 10:24 pm | Publicado em * Sobre a filosofia espírita * | Deixe um comentário

Alguém duvida que o Espiritismo esteja na moda?Quem já não viu algum Globo Repórter recente trazendo “informações” baseadas na Doutrina? Quem não assistiu ou assiste novelas que tratam da mesma temática da Doutrina ou mesmo citam, literalmente, seu nome?

Ou ainda, quem se lembra de um caso, transmitido em rede nacional, em que um dos deputados da Câmara em Brasília, por ocasião da comemoração do bicentenário de nascimento de Kardec, teria “incorporado” um Espírito e com ele teria feito uma oração? Afirmava-se que a voz era igual a de Chico Xavier (colocaram até mesmo uma cena do Chico em uma de suas falas) e que os ‘espíritas’ pensavam que poderia ser ele.

Indo direto ao ponto, creio que este tipo de divulgação pode gerar dois tipos de sentimento: primeiro, de alegria, pois não podemos esconder uma pontinha de orgulho no momento em que ouvimos o nome de nossa tão querida doutrina sendo noticiado em tal amplitude. Pensamos: tal fato pode ser de grande valia para a divulgação do Espiritismo. Afinal de contas, quem não quer ver tal Doutrina, tão esclarecedora, tão coerente, tão consoladora, sendo disseminada aos quatro cantos, sendo conhecida por todos e – diga-se de passagem – dando-nos um gostinho todo especial pelo fato de nós sermos espíritas ‘antes’, e finalmente, estarmos sendo reconhecidos como detentores de algum conhecimento especial?

Por outro lado, este sentimento inicial de alegria e satisfação, se refletido, pode nos gerar um sentimento oposto, de preocupação e mesmo ansiedade. Passado o entusiasmo inicial, podemos nos deparar com a seguinte questão: é isso, só, o Espiritismo? A Doutrina Espírita se resume a um amontoado de fenômenos extravagantes, misteriosos, curiosos?

Nós, que certamente estudamos a Doutrina, sabemos que não, não é só isso. Os fenômenos são “apenas” uma parte dela. O que mais importa é sua filosofia, é o sistema de explicação montado por Kardec, é sua lógica e consistência enquanto teoria ‘científica’. Mas será que os ‘outros’ sabem? Será que todos os que se dizem ‘espíritas’ sabem disso?

Em outras palavras, é partindo dos fenômenos que devemos apresentar o Espiritismo àqueles que não o conhecem? Consequentemente, é de fenômenos que nossas sociedades espíritas devem sobreviver e é a partir deles que devem divulgar tal conhecimento?

Quantas perguntas… que caem na mais essencial de todas, título deste blog: afinal, de qual espiritismo estamos falando? Se é daquele Espiritismo proposto por Kardec, podemos então encontrar as respostas para todas estas perguntas nas próprias palavras de Kardec… Algo óbvio, não? Mas que não costuma ser feito.

Primeiro e antes de tudo: como Kardec define a Doutrina? Um ótimo local para encontramos uma resposta mais direta para esta pergunta é o livreto “O que é o Espiritismo”, escrito pelo próprio Kardec e que, em sua palavras, contém respostas rápidas e resumidas a questões constantemente levantadas por aqueles que tem um conhecimento superficial do Espiritismo e que, se tivessem tempo e vontade para um estudo mais aprofundado, poderiam responder por si mesmos. Desta forma, ali contém resumos úteis para os iniciantes, que podem apreender as noções essenciais em pouco tempo e também para os “adeptos”, que ali encontram meios para responder objeções que qualquer pessoa possa colocar – além de possibilitar uma visualização sintética do coração da doutrina.

Voltemos então à questão proposta. Neste livro, Kardec define o Espiritismo como “uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como suas relações com o mundo corporal”. Ou seja:
– da natureza: quem somos? De que somos feitos? Qual nossa essência?
– da origem: de onde viemos?
– do destino: para onde vamos?
– das relações com o mundo corporal: encarnação, reencarnação, comunicação, influências, etc…

Dentro desta definição, percebemos ainda que existem duas dimensões que caracterizam a natureza da doutrina: “O Espiritismo é, AO MESMO TEMPO, uma CIÊNCIA DE OBSERVAÇÃO e uma DOUTRINA FILOSÓFICA”. Ou seja, para se configurar como uma ciência que trata de todos aqueles elementos citados na definição acima, o Espiritismo possui um duplo aspecto: um ligado à observação e outro, complementar, ligado à teorização/filosofia.

Esquematicamente:

Ciência de observação –>

Ciência prática” das relações que se estabelecem entre nós e os espíritos
+

Doutrina filosófica –>

Filosofia com conseqüências morais que dimanam destas relaçõesAnalisando este esquema e os argumentos apresentados, podemos aparentemente deduzir que devemos, então, começar a estudar o Espiritismo como uma “ciência prática”, ou seja, partindo das “relações que se estabelecem entre nós e os espíritos” – ou seja ainda, partindo dos ´fenômenos´. E somente depois disso, analisarmos a filosofia, que é apenas uma conseqüência destas relações.

Mas é bem aqui que nosso raciocínio se engana. Quando Kardec fala que a Doutrina é uma ciência prática com conseqüências morais não traz nessa definição nenhuma ordem de análise que vai da prática à teoria. Achar isso, na verdade, revela nossa ignorância (sem sentido pejorativo) em relação à própria natureza do processo científico[1].

Para fazer ciência, não basta ir a um laboratório e fazer pesquisas “empíricas”. Como saberemos o que estudar, qual o nome dos equipamentos, para que eles servem, para onde nos levam; como ler os “fatos” ou dados se não temos nenhum conhecimento sobre o que está diante de nossos olhos? Não é a toa que os cursos acadêmicos começam com matérias teóricas – é necessário conhecer o sistema teórico que explica o que será pesquisado na prática.

Em suma, tal como Thomas Kuhn (em “A Estrutura das Revoluções Científicas”) nos alerta, ciência não é um processo no qual vamos juntando pedaços de informação (“dados”, “fatos”) que são, por sua vez, somados ou combinados entre si, para montar uma teoria e aumentar nosso estoque de técnicas e conhecimentos científicos. Os dados, na verdade, são pistas, sendo necessário que a mente as organize em totalidade para que elas possam fazer sentido[2].

Sendo assim, a Doutrina Espírita é científica não simplesmente porque parte da prática mas porque se constitui em um “programa de pesquisa” com um corpo teórico que dá coesão e inteligibilidade aos fenômenos (Cf. Chibeni em texto citado).

Isso o próprio Kardec afirma, no capítulo III do Livro dos Médiuns, intitulado “Método”[3]. Ali, ele afirma que, o melhor método de ensinar o Espiritismo, ao contrário do que poderíamos pensar, não é “(…) passar em revista toda a série de fenômenos que podem produzir-se”.

Primeiro, porque os fenômenos espirituais não são facilmente obteníveis, a nosso bel-prazer. Pois neles não lidamos com a matéria bruta, a qual se manipula livremente, mas sim com inteligências dotadas de vontade própria. Ou seja, não há como obter estes fenômenos à vontade ou fazer exibições com eles; e declara energicamente: todo aquele que se vangloriar de obtê-los à vontade não passa de ignorante ou impostor.

Segundo, porque os fenômenos são imprevisíveis. Não ocorrem quando mais os desejamos. Apresentam-se de modo diverso ao que esperamos. Para consegui-los, são necessários médiuns, que não são individualmente tão completos que captem qualquer tipo de fenômeno.

Assim, como ele afirma, “É muito simples o meio de evitar estes inconvenientes. Basta começar pela teoria”. Na discussão teórica, passamos em revista os fenômenos, obtemos explicações, conhecemos suas possibilidades, entendemos os modos como são produzidos, os obstáculos a sua realização. Enfim, seus porquês, comos, ondes…

Nas palavras de Kardec, “(…) uma explicação antecipada tem o efeito de destruir as idéias preconcebidas e mostrar, senão a realidade, pelo menos a possibilidade do fato. Compreende-se antes de ver, pois, desde que aceitamos a possibilidade, três quartos da convicção foram realizados”.

Deste modo, não precisamos nos preocupar tão aflitamente em realizarmos antes de qualquer coisa nossas “reuniões mediúnicas” como se este fosse a única solidez de uma casa espírita. Não precisamos ter que provar tudo de novo o que Kardec já se deu ao (grande) trabalho de fazer. Não precisamos começar do zero. Podemos estudar e compreender antes, o que poderá, nas palavras sábias de nosso mestre “(…) evitar muitas decepções ao experimentador. Prevenido quanto às dificuldades, pode manter-se vigilante e poupar-se das experiências à própria custa”.

A própria experiência de Kardec o demonstrou que de todas as pessoas que ele encontrou em seu caminho, tantas permaneceram incrédulas mesmo diante dos fenômenos mais evidentes, vindo a se convencer apenas por meio de uma explicação racional; outros foram levadas apenas pela compreensão, sem nunca terem visto nada e outras predispostas a aceitar por meio do raciocínio. E completa, “(…) falamos portanto, por experiência, e, por isso, afirmamos que o melhor método de ensino espírita é o que se dirige à razão e não aos olhos. É o que seguimos em nossas lições, do que só temos que nos felicitar”.

Enfim, de acordo com Kardec, poderíamos mesmo fazer abstração das manifestações sem que a doutrina desaparecesse por conta disso. “(…) As manifestações a corroboram, a confirmam, mas não constituem um fundamento essencial. O observador sério não as repele, mas espera as circunstancias favoráveis para observá-los. A prova disso é que, antes de ouvirem falar das manifestações, muitas pessoas tiveram a intuição desta doutrina, que veio apenas corporificar num conjunto as suas idéias”.

Deste modo, mesmo fenômenos espontâneos como aquele ocorrido na nossa Câmara, não deixam de ser fatos importantes, principalmente, como diz Kardec, quando se apóiam em testemunhos irrecusáveis, porque não se pode atribuir-lhes qualquer preparação ou conivência.

Entretanto, é a teoria que vem lhes dar explicação. Sem o raciocínio, estes fatos – que certamente não são negligenciados por Kardec, pois, como ele mesmo afirma, foi o que lhe permitiu chegar à teoria, a custa de “(…) um trabalho assíduo de muitos anos e milhares de observações” – não bastam para levar à convicção.

(…) Uma explicação prévia, afastando as prevenções e mostrando que eles não são absurdos predispõe a aceitá-los”.

Creio que com estes elementos todos, podemos pensar melhor e mais profundamente a respeito das possíveis conseqüências da divulgação maciça de fenômenos espirituais. Ela pode apenas inspirar zombarias e deboches; pode lançar curiosidades a seu respeito ou até mesmo uma vontade legítima em quem os vê de investigar e compreender.

De todo modo, não é o fenômeno em si que trará as respostas, mas sim a compreensão de seus porquês e “comos”. O que poderá ser obtido apenas se nos permitirmos navegar no oceano de profundidade que a obra de Kardec carrega, mas a qual atualmente e infelizmente, permanecemos comodamente observando da praia, como nos disse certa vez um querido amigo…

Instruí-vos primeiramente pela teoria, lede e meditai as obras que tratam dessa ciência; nelas aprendereis os princípios, encontrareis a descrição de todos os fenômenos, compreendereis a possibilidade deles pela explicação que elas vos darão, e, pela narrativa de grande número de fatos espontâneos de que pudestes ser testemunha sem os compreender, mas que vos voltarão à memória, vós vos fortificareis contra todas as dificuldades que possam surgir e formareis, desse modo, uma primeira convicção moral”.
Allan Kardec. O que é o Espiritismo. Pg.64, Ed. FEB
[1] Sobre a natureza do processo científico, vide os trabalhos de Silvio Chibeni, principalmente o texto “A Excelência Metodológica do Espiritismo”, que aprofunda estas questões de modo consistente e coerente com o conhecimento acadêmico atual.
[2] Frase do Rubem Alves no imperdível livro “Filosofia da Ciência”, para aqueles que querem ter um primeiro contato com estas discussões a respeito da natureza do fazer científico.
[3] Kardec é, infelizmente, de modo geral pouco conhecido dos espíritas. Este capítulo sofre deste mesmo problema: ali se encontram dicas, explicações e ensinamentos tão simples e ao mesmo tempo tão profundos que passam desapercebidos de muitos de nós que, mesmo sem afirmar, consideram-no datado, “coisa do século retrasado”. Entretanto, não há obra mais atual, e muito, mas muito longe de ser ultrapassada. Passados os momentos de elogios, nada vazios, vejamos o porquê deles.

LEIA OUTROS TEXTOS SOBRE O ESPIRITISMO:

  1. “Por que não sou mais espírita” ou “o que os espíritas podem aprender dos budistas”

  2. Transmissão da Doutrina: evangelizar ou catequisar?

  3. Ensino Filosófico e Ensino Religioso (Rita Foelker)


  4. I. O mundo tem um sentido? Reflexões sobre a vida e o mundo a partir da filosofia espírita

  5. II.O mundo tem um sentido?Reflexões sobre a vida e o mundo a partir da filosofia espírita. PARTE II

  6. III.O mundo tem um sentido?Reflexões sobre a vida e o mundo a partir da filosofia espírita. PARTE III (final)*

*I. O mundo tem um sentido? Reflexões sobre a vida e o mundo a partir da filosofia espírita*

29 setembro, 2006 às 10:23 pm | Publicado em * Sobre a filosofia espírita * | Deixe um comentário

A Doutrina Espírita permite que pensemos a respeito do mundo. E ela nos dá várias possibilidades para isso. De acordo com o assunto ou dúvida, podemos encadear o raciocínio de uma forma específica. Ou seja, as obras básicas e as “complementares”, nos permitem elaborar um verdadeiro sistema de explicação, de acordo com o tema.Muitos de nós tem dificuldades em estudar a Doutrina exatamente por sua complexidade – não que ela seja ´complicada´, mas ela possui um rol gigantesco de assuntos, que abarca todos os setores da vida humana. Desta forma, só seremos capazes de entendê-la e de entendermos o mundo em que vivemos, se estudarmos e pesquisarmos dentro da Doutrina estas respostas.

O que vocês lerão, na série de artigos que se inicia hoje, é um exercício disso. Uma tentativa de respondermos uma questão, mas que por sua amplitude, envolve muitos pontos da Doutrina. Para tanto, devemos construir um encadeamento lógico que satisfaça nossa pergunta e leve em conta os fatores nela envolvidos.

Imagine que alguém lhe colocasse a seguinte questão: como podemos acreditar na vida e nas pessoas diante de uma situação tão caótica, diante de atrocidades a cada dia cometidas por seres (des) humanos, diante de tantas dores que somos capazes de causar uns aos outros?

Bom, acredito que leva-se um tempo para construir esta resposta dentro de nós. Na verdade, esta é uma construção ininterrupta, que se faz a cada dia de forma mais completa. É uma resposta que não se restringe ao nível do intelecto, mas tem que penetrar nas nossas emoções, na fé atuante, na vivência. Não basta entender, é necessário viver, certo? Bom, cada um a seu tempo e a seu modo, vive aquilo que acredita. O que segue, é aquilo que eu acredito e aprendo não apenas nos livros, mas pelo próprio movimento da vida.

O que se segue então, é uma entre várias possíveis construções de variadas coisas lidas, estudadas, aprendidas e vividas. Construção que deixa, em muitos momentos, os próprios livros e autores lidos falarem por si mesmos – pois o que importa aqui não é a autoria do texto mas sim seu conteúdo e sua capacidade de nos preencher e motivar. De todo modo, não deixo de citar as fontes, seja nas notas de rodapé ou no próprio corpo do texto, para que o leitor possa, ele mesmo, construir suas respostas e interpretações.

* * *

Como encontrar as respostas para este enigma que a vida nos coloca, a cada instante, diante dos olhos: se Deus existe, como os seres humanos são de tal maneira destrutivos?

O primeiro ponto que se coloca aqui é a própria crença em Deus. Muitas vezes esta crença se encontra em um nível mais sentimental e as pessoas não param para pensar em Deus de forma racional ou lógica. Mas com a Doutrina Espírita, vemos que esta idéia, mais do que apenas um sentimento, também pode ser defendida pela razão, sem medo de perdermos a crença pelo fato de a confrontarmos com a realidade mais visível. Para aqueles que já “sentem” a idéia, a razão vai servir apenas como um complemento, em nada afetando (ou afetando para melhor) a crença mais profunda.

O que é Deus? Tal a primeira pergunta do Livro dos Espíritos, respondida da seguinte forma: “È a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas”. Ou seja, é a causa mais fundamental, primeira e primária, o criador imanente e transcendente, que está em tudo e além de tudo[1]. Podemos, de acordo com os Espíritos, concluir de sua existência pelas suas obras, ou seja, pelo mundo em nossa volta e tudo o que existe nele.

Vemos com isso que o mundo, como “obra” divina, está diretamente associado a Deus. Da visão que fazemos de Deus, temos uma visão do mundo e vice-versa. Assim sendo, se consideramos o mundo cruel e as pessoas sem remédio, cabe nos perguntarmos por que Deus permitiu que o mundo assim fosse. Certamente temos em mente que o homem é livre para escolher e foi ele que criou o mundo tal como o que vivemos, entretanto, Deus continua sendo responsável pela existência deste homem. Se ele está em tudo e a tudo envolve, como podemos conceber a idéia de um mundo desgraçado, sem esperanças?

Daí decorre um raciocínio que procuraria definir as características e atributos deste Deus, posto que se é um Deus mau e vingativo, o mundo tal se apresentará. Da mesma forma, o contrário. Certamente que não podemos conhecer a natureza divina, devido ainda ao nosso estágio evolutivo primário (voltaremos a isso) o que nos impede certas percepções e entendimentos mais “elevados”. Entretanto, pelo raciocínio podemos conhecer alguns atributos necessários, sem os quais Deus não seria Deus. São estes atributos[2] que definem nosso entendimento sobre o mundo sendo eles o ponto de partida de todas as crenças religiosas – aquelas religiões que, por exemplo, não atribuíram a Deus a onipotência imaginaram muitos Deuses; as que não lhe atribuíram uma bondade soberana, fizeram dele um Deus colérico, parcial e vingativo.

Assim, para Deus ser Deus, devemos supô-lo como a suprema e soberana inteligência, infinita (ao contrário do homem) e abrangendo todas as coisas – se esta inteligência fosse limitada em algum ponto apenas, poderíamos conceber outro ser mais inteligente, capaz de compreender e fazer o que o primeiro não faria e assim por diante até o infinito. Ele é eterno – não teve começo ou fim. Se tivesse tido um principio, teria saído do nada – mas, o nada não pode criar coisa alguma. Se ele por acaso tivesse sido criado por outro ser, este então seria Deus. É imutável na medida em que o mundo e suas leis de funcionamento dependem desta estabilidade; é imaterial, ou seja, sua natureza difere de tudo o que chamamos matéria, por sua vez, essencialmente transformável. Possui o poder supremo, é infinitamente perfeito e único – posto que qualquer outro ser em igualdade de condições seria o mesmo (pois teriam as mesmas vontades, pensamento e poder, equivalendo-se), ou ainda, qualquer ser mais poderoso, seria então Deus.

E, por “fim”, é soberanamente justo e bom. Este é o atributo que mais nos interessa – na medida e que dele depende mais diretamente nossa questão inicial. A bondade de Deus pode parecer apenas uma questão de crença. Entretanto, esta não é uma afirmação isolada, posto que ela faz sentido dentro de todo um sistema de explicação que deduz os elementos uns dos outros, que relaciona vários conceitos e premissas.

Sendo Deus a bondade soberana – bondade que alguns de nós podemos sentir e perceber nas menores coisas do nosso cotidiano, não precisando assim de uma comprovação “racional” – devemos a principio, excluir a possibilidade de uma qualidade contrária, que a anularia ou a diminuiria[3]. Um ser infinitamente bom não poderia conter a menor parcela de malignidade; Deus não poderia ser bom e mal simultaneamente primeiro porque sem algumas destas qualidades no grau supremo não seria Deus e segundo porque se assim o fosse, todas as coisas do mundo estariam submetidas a seu capricho e não haveria estabilidade para nenhuma das coisas do universo. Decorrente da idéia de bondade, teríamos também a justiça como qualidade máxima, na medida em que se ele fosse injusto com apenas uma de suas criaturas em apenas uma circunstancia, já não seria soberanamente justo[4].

Assim, se Deus é o princípio de tudo e infinitamente bom e justo, não poderia ter ele próprio criado o “mal”, a injustiça. Mas de onde vem estas? De um outro ser tão poderoso quanto ele? Mas como já citado, outro ser tão poderoso seria igual a Deus, havendo então uma luta constante que resultaria na instabilidade do Universo. Por outro lado, se houvesse seres eternamente voltados ao mal, eles seriam obra de Deus – e Deus seria justo e bom criando seres infelizes, eternamente voltados ao mal?[5].

De uma forma geral, associamos o “mal” ao sofrimento, à dor, a pessoas cruéis e mesquinhas. Consideramos toda forma de violência, destruição, tragédia, como males inescapáveis, situações que nos dão uma constante impressão de que a humanidade apenas degenera e de que estamos abandonados e condenados por Deus.

Mas será que é por aí? Se cremos em Deus e em sua bondade, no mínimo devemos saber que existem motivos para tais situações – e bons motivos! Não podemos nos imaginar perdidos em um mundo em que uns destroem a outros e nos perguntando: “por que Deus não nos salva?”. Se ele é poderoso, pode fazer isso. Será que ele não quer? Mas aí não seria bom e justo. Ou, será que ele quer e não tem realmente um poder tão grande?Nosso desafio, na continuação desta conversa, será encontrar na Doutrina as respostas para este dilema. Algo que você já pode começar a fazer agora, partindo da bibliografia citada até aqui.

NOTAS

[1] De que modo podemos provar a existência de Deus? Principio elementar 1: dos efeitos se pode julgar a causa. Partindo deste principio chegaremos em Deus. Nem sempre é necessário vermos algo para sabermos que ele existe. Principio elementar 2: todo efeito inteligente tem uma causa inteligente – algo engenhoso não pode ter-se feito a si mesmo. Algo assim só pode ser produto de um homem de gênio. Pode-se reconhecer a presença do homem pelas suas obras. E, de acordo com elas, deduzir do grau de inteligência daquele que a construiu. Assim, observando a Providência, a sabedoria e a harmonia que presidem as obras da natureza, desde que o homem não as pode produzir, elas devem ser produto de uma inteligência superior à humanidade. Pois, não há efeitos sem causa. Alguém poderia dizer que as obras da natureza são fruto de forças materiais que atuam mecanicamente em virtude de leis físicas (atração, repulsão). Mas estas forças são efeitos que tem que ter uma causa. As forças são materiais e mecânicas e não são inteligentes. A inteligência residiria no próprio funcionamento das forças, que obedecem a um plano.
[2] Kardec, A Gênese: Capitulo II, item 8.
[3] Kardec, A Gênese: Capitulo II, item 14.
[4] Aqui poderíamos dar continuidade a toda uma discussão a respeito da providência divina, da forma como Deus atua no mundo, da visão de Deus ou porque não o enxergamos se ele está em toda parte. Vide A Gênese, Capitulo II, itens 20 a 37.
[5] Livro dos Espíritos, Q131.

LEIA OUTROS TEXTOS SOBRE O ESPIRITISMO:

  1. “Por que não sou mais espírita” ou “o que os espíritas podem aprender dos budistas”

  2. Transmissão da Doutrina: evangelizar ou catequisar?

  3. Ensino Filosófico e Ensino Religioso (Rita Foelker)

  4. O Espiritismo está na moda ou O que é, afinal, o Espiritismo?


  5. II.O mundo tem um sentido?Reflexões sobre a vida e o mundo a partir da filosofia espírita. PARTE II

  6. III.O mundo tem um sentido?Reflexões sobre a vida e o mundo a partir da filosofia espírita. PARTE III (final)*

Workshop Metodologia Científica

19 setembro, 2006 às 10:04 am | Publicado em Sem-categoria | Deixe um comentário

Workshop realizado com os alunos do Colégio Estadual Pinheiro do Paraná, sobre Metodologia Científica e TCC

Clique aqui para ver a Apresentação em Power POint

*II.O mundo tem um sentido?Reflexões sobre a vida e o mundo a partir da filosofia espírita. PARTE II

29 agosto, 2006 às 10:23 pm | Publicado em * Sobre a filosofia espírita * | Deixe um comentário

Pelo que vocês puderam ver no texto anterior, para responder a questão proposta no titulo deste artigo, já parti do pressuposto de que o leitor crê em Deus. Ou seja, neste texto, especificamente, não foi minha preocupação questionar Sua existência em termos mais profundos, mas sim dialogar com aqueles que têm esta crença mas que nunca pararam para pensar nela mais detidamente, levando em conta suas consequências[1].Desta maneira, a questão que fica é, existindo Deus, e ele sendo bom, porque permite que a vida humana transcorra de forma tão “caótica”?

Eliseu F.da Mota Jr., no livro “Que é Deus?”, nos sugere que para tal questão podem existir três pontos de vista gerais: o materialista, o que ele chama de “dogmático” e o espiritualista/espírita.
No ponto de vista “materialista”, na verdade, tal dilema nem se coloca, simplesmente porque Deus não existe. Tudo ocorre na base da sorte e do azar – a vida é um acaso desgraçado.

Na visão “dogmática”, temos que Deus, na hora em que cria a alma, escolhe o corpo em que ela vai nascer, determinando se ele vai nascer pobre, rico, violento, deficiente, miserável, etc. Entretanto, aqui surge outra questão: por que uns teriam mais privilégios que os outros?

Na visão “Espiritualista/espírita”, a idéia é que a humanidade ainda não conhece/vive as leis de amor e harmonia, ainda pautando suas atitudes na ignorância de sua imortalidade e do processo evolutivo que a encaminha a sucessivas vidas de aprendizados. Por isso, ainda vive presa às conseqüências de seus atos e às leis de rearmonização que vigem no Universo.

Bom, esta terceira, como se pode notar, é a “minha” visão e é aquela que será discutida aqui. Isto não quer dizer que as outras duas visões gerais, apresentadas até de forma simplista, não tenham muitas outras implicações. Entretanto, dentro do objetivo deste artigo, elas foram levantadas apenas a título de comparação. O que não impede que possamos desenvolver tais idéias em algum outro momento (leia-se, outro artigo).

Voltando então à visão Espiritualista/espírita, devemos levar em conta algumas premissas básicas, para que ela responda a questão inicial de forma satisfatória.

Tais pontos, que veremos um a um, são os seguintes:

1) A alma é imortal
2) Fomos criados simples e ignorantes
3) Somos seres em evolução
4) Lei de causa e efeito. Causas da dor.
5) Origens do “mal”
6) O mundo de hoje e o mal nele presente

Estes seis itens foram aqueles que considerei essenciais para a construção da resposta buscada. Como afirmei no início deste texto, tal lógica de argumentação não é a única possível. Na verdade, variadas combinações de conceitos podem ser feitas para trabalhar o mesmo tema. Esta é apenas uma sugestão do que é possível fazer com os variados conceitos presentes na obra kardequiana, que formam um grande sistema, no qual um se relaciona com o outro/um é pré-requisito para o outro/sem um não podemos entender o outro. Aliás, a maior parte dos argumentos aqui levantados, são quase literalmente retirados da obra de Kardec[2].

* * *

1) A alma é imortal
O que implica dizer que a alma é imortal? Antes de tudo, cabe a pergunta: o que é a alma, afinal?[3] Uma grande causa de dúvida sobre a existência ou não da alma e dos espíritos é a ignorância a respeito de sua verdadeira natureza. Imaginam-nos como seres a parte da criação, através de histórias fantasiosas e filmes de terror. Seja qual for a idéia que façamos deles, a crença na sua existência decorre do fato de haver um princípio inteligente no Universo, além da matéria.

Creio que aqui não cabe a comprovação da existência ou não da alma – este é um vasto caminho que ainda esta sendo construído pela ciência. Ouso apenas afirmar que já existem alguns indicativos sugestivos de sua existência mas que, pra variar, terão que ser discutidos em outro momento[4].

Novamente, tal como fizemos com a idéia de “Deus”, temos aqui que partir do princípio de que algumas premissas são aceitas: a matéria não é tudo, alguma força a governa; a alma existe e permanece existindo depois da morte – posto que ela é imortal (este um sentido da frase “criados a imagem e semelhança de Deus”), ou seja, não foi criada no instante do nascimento mas existe há tempos, seguindo caminhos que ainda não foram aqui considerados mas que logo adiante serão.

Disso decorrem dois outros pontos: 1) a natureza da alma é diferente da corpórea pois, ao separar-se do corpo, ela não conserva as propriedades materiais e 2) a alma possui consciência própria, pois atribuímos a ela a capacidade de ser feliz ou sofredora (do contrário, ela seria inerte e nem precisaria existir). Admitido isso, ela terá de ir para algum lugar. Para onde? Para o céu? O inferno? Mas que Deus, soberanamente bom e justo, permitiria que seus filhos queimassem eternamente ou simplesmente desfrutassem da inutilidade eterna, vendo, por sinal, alguns de seus amores sendo queimados no fogo do inferno?

Vemos no Livro dos Espíritos (Q. 965) a questão que afirma que as penas e gozos da alma depois da morte não podem ser materiais na medida em que a alma não é matéria. Estas penas nada tem de carnais. As almas, ao invés de penarem ou gozarem em determinado lugar, carregam em seu íntimo a felicidade ou a desgraça, pois a sorte de cada um depende de sua condição moral.

Neste sentido, as almas povoam o espaço, de acordo com sua condição íntima, estando mais ou menos tranqüilas, com mais ou menos trabalhos sendo realizados, etc. Mas, mais do que isso, estes seres imateriais podem agir sobre a matéria, posto que eles não são seres abstratos, vagos e indefinidos. Eles agem através de um “corpo” intermediário, o que chamamos perispírito.

Estas almas, quando encarnadas, se utilizam de um corpo “moldado” por elas mesmas (ou seja, uma herança de todo seu histórico como ser imortal); mas este corpo nada mais é que um acessório do Espírito, um invólucro, uma roupagem que ele abandona depois de usar. Na morte o Espírito abandona o corpo mas não o perispírito. Este envoltório, que tem a mesma forma humana do corpo, é uma espécie de corpo fluídico, invisível para nós em seu estado normal mas possuindo algumas propriedades da matéria (este aqui é todo um outro mundo de reflexões que se abre, que não conseguirei fazer aqui senão nunca vou terminar este texto).

2) Fomos criados simples e ignorantes
Nossa alma é imortal, mas ao contrário de Deus, surgimos em determinado momento do tempo. E, na medida em que consideramos a justeza e bondade dos desígnios divinos, devemos considerar que surgimos recebendo as mesmas condições básicas de existência – posto que não podemos imaginar Deus privilegiando alguns seres em detrimento de outros.
Olhando o mundo a nossa volta, também não podemos dizer que Deus nos criou bons. Por outro lado, se Deus nos criasse maus, onde estaria sua bondade? Que Deus é este que cria seres para a dor? Ou ainda, se Deus nos criasse perfeitos, onde o mérito para gozar os benefícios dessa perfeição? (V. Livro dos Espíritos, Q. 119).

Deduzimos disso que ele não cria seres nem bons nem maus, mas ignorantes e simples, sem nenhuma experiência adquirida, sem pensamentos formulados, sem grande inteligência. Mas algo ele criou. Este “algo”, levando em conta os atributos divinos, deve ter sido baseado em princípios de bondade – ou seja, devemos carregar em nós um germe desta bondade, uma “herança genética” de nossa filiação.

Mas diante da grande quantidade de conhecimento acumulado pela humanidade, não podemos dizer que hoje somos totalmente ignorantes ou simples. Desta forma, percorremos alguma trajetória até aqui, que nos fez ser o que somos. Isso não se dando em pequeno espaço de tempo, posto que temos vivência do fato de que em uma vida não são tantos os conhecimentos que desenvolvemos. Imaginamos assim de onde surgiriam nossas tendências inatas, nossas facilidades, nossos gostos, nossas aptidões mais naturais?

3) Somos seres em evolução
Falta muito chão ainda para que a nossa ciência decifre alguns mistérios básicos da nossa origem e desenvolvimento. Ou seja, temos noções gerais a respeito desta simplicidade e ignorância mas que não ocupa nem 10% de todo o conhecimento que ainda viremos a ter sobre o Espírito.
Mas enfim, alguns indicativos são possíveis: como visto, é coerente com a idéia de um Deus bondoso e justo a noção de que fomos todos criados partindo de condições e potenciais iguais e com um mesmo destino – a “felicidade” eterna. Para alcançarmos este destino, caminhamos sem parar por um longo processo de evolução – diferente mas complementar àquele proposto pela visão biológica “oficial”.

Enquanto na ciência a evolução biológica é encarada de forma materialista, vendo os seres apenas como matéria, o espiritismo considera o mesmo processo biológico mas expõe que o principal agente que evolui é o espírito. Neste caso, a aparente crueldade do processo evolutivo acionado pela seleção natural apresenta-se como um modo de gerar experiências, de abrir oportunidades de aprendizado para o espírito, que não irá sucumbir, nem morrer, mas que temporariamente estará sujeito a condições que lhe permitirão o progresso, a origem e a fixação dos instintos e toda a base de comportamentos para o “nascimento” da alma humana (V. o livro de Hebe Laghi, “Darwin e Kardec: um diálogo possível”, pg 58).

Fomos então criados como “princípios espirituais” que deveriam ao longo de uma grande jornada conquistar a complexidade da alma humana. Sofremos inúmeras transformações, desde os organismos mais rudimentares até os mais complexos (dos peixes e répteis, às aves, mamíferos, símios, hominídeos, até alcançarmos a Humanidade atual).

As experiências adquiridas por este longo processo não se perderam mas ficaram registradas em nós, em nosso inconsciente (no princípio espiritual/Espírito), contribuindo para formar os instintos. Nos diversos enfrentamentos da vida (pela sobrevivência, busca de alimento, moradia, alianças, etc.) adquirimos os sentidos de amor à vida, ao próximo, da proteção, da coletividade, etc.

Sendo assim, hoje somos o resultado de um longo processo evolutivo no qual fomos adquirindo nossas capacidades, em nossas milhares de existências, cada qual permitindo o desenvolvimento de um determinado aspecto do nosso ser. Somos hoje, uma síntese da nossa trajetória – por isso dizemos que carregamos em nós tudo o que fizemos, dissemos, pensamos; erros e acertos, encontros e desencontros.

A imortalidade, assim, traz em si suas belezas, pois sabemos que nunca morreremos e que nossos amores também não. Por outro lado, também temos compromissos decorrentes desta vida eterna – nem os erros e nem os desafetos são também esquecidos. Este caminho longo de vidas e vidas não é deixado ao acaso, mas regido por leis – divinas – de responsabilidade. Tudo o que fazemos gera conseqüências, boas e agradáveis ou não. O tempo todo nos deparamos com as conseqüências de nossos atos – sejam bem recentes ou mais distantes[5].

4) Lei de causa e efeito. Causas da dor.
Neste caso, o mundo de hoje é resultado de uma rede de conseqüências – e novas causas – decorrentes de atos da humanidade (também uma rede de relações) de todos os tempos. O “mal”, a dor que vivemos hoje não é prova de nada além do que de nossa total ignorância, enquanto humanidade, sobre quais atos geram conseqüências “agradáveis” a todos. De nossa ignorância em relação à beleza da vida e da paz, de que os atos de amor são os únicos que nos trarão felicidade – não apenas individual mas coletiva.

Por outro lado, a nossa percepção e valorização deste “mal” é decorrência da visão limitada do homem de penetrar o conjunto dos acontecimentos e de todas as coisas. O homem só vê aquilo que lhe interessa e apenas do seu próprio ponto de vista. Por isso, muitas coisas lhe parecem más e injustas sendo que, se ele conhecesse a causa, o objetivo e a conseqüência de muitas situações da vida, as consideraria justas, ou seja, as melhores para o momento e para o aprendizado.

Tudo no mundo traz o carimbo da sabedoria divina e ao pesquisarmos a razão de ser e a utilidade das coisas, verificaríamos isso. E, para tudo aquilo que ainda não podemos compreender, nos resta a certeza, confiante, de que tem um motivo.

Vemos por exemplo, o caso dos flagelos naturais. Seria uma vingança de Deus contra nossa impiedade? Poderíamos pensar nisso se não conhecêssemos a imortalidade da alma e não soubéssemos que o que morre é o corpo – já por si transitório e fadado a destruição. Se não tivéssemos a idéia de que Deus tudo vê e dirige, que rege o mundo por leis de amor e justiça. Se não soubéssemos que o movimento e as transformações são a lógica da vida…

Deste modo, todos estes “males” surgem como desafios à capacidade humana de auto-superar-se, de criar, inventar, descobrir novas formas de vida. De conhecer-se indestrutível – espiritualmente falando – mesmo diante das piores “tragédias”. Deus facultou aos homens os meios de diminuir os efeitos destas situações – sem desafios, o homem congelaria no tempo e no espaço.

Mas maiores do que estes “males externos”, temos os males internos, criados pelo homem: egoísmo, vícios, orgulho, ambição e suas conseqüências: guerras, dissensões, injustiças, opressões, enfermidades, etc. Aí que parece estar o problema, não? Podemos perceber que as maiores causas de aflição esta na conduta humana e suas conseqüências.

Isso não implica necessariamente deduzir que os homens são maus ou não tem jeito. Se fomos criados pelo amor, todos carregamos em essência este fator. A questão é entender o porquê das coisas estarem como estão hoje e para onde iremos exatamente.

NOTAS

[1] Mas como esta questão, da própria crença em Deus, gerou interessantes comentários, dedico a ela um outro artigo, ainda em elaboração, intitulado “O Espiritismo pode provar a existência de Deus?”
[2] Estando com ele o mérito dos acertos e comigo, o dos possíveis desacertos e má-interpretações.
[3] Kardec, Livro do Médiuns: Capitulo 1.
[4] Mas que para o leitor não fique tão decepcionado, sugiro a visita ao link do Grupo de Estudos Espíritas da UNICAMP, que traz textos bastante consistentes, de físicos e estudiosos respeitados e sérios, a respeito das relações que existem entre as descobertas cientíticas e o Espiritismo. Especial atenção aos textos: “As provas científicas” (Aécio P. Chagas); “Ciência espírita”; “A excelência metodológica do Espiritismo”; “O paradigma espírita” (Silvio S. Chibeni) entre outros.
[5] Argumento utilizado por Raul Teixeira na palestra “Os fundamentos do Espiritismo”, de 14/04/2002, em Curitiba, PR – parte da V Conferência Estadual Espírita.

LEIA OUTROS TEXTOS SOBRE O ESPIRITISMO:

  1. “Por que não sou mais espírita” ou “o que os espíritas podem aprender dos budistas”

  2. Transmissão da Doutrina: evangelizar ou catequisar?

  3. Ensino Filosófico e Ensino Religioso (Rita Foelker)

  4. O Espiritismo está na moda ou O que é, afinal, o Espiritismo?

  5. I. O mundo tem um sentido? Reflexões sobre a vida e o mundo a partir da filosofia espírita


  6. III.O mundo tem um sentido?Reflexões sobre a vida e o mundo a partir da filosofia espírita. PARTE III (final)*

*III.O mundo tem um sentido?Reflexões sobre a vida e o mundo a partir da filosofia espírita. PARTE Final

29 julho, 2006 às 10:22 pm | Publicado em * Sobre a filosofia espírita * | Deixe um comentário

*III.O mundo tem um sentido?Reflexões sobre a vida e o mundo a partir da filosofia espírita. PARTE Final 28 Abril, 2006

5) Origens do “mal”

Somos espíritos de certa forma rebeldes. Pois, mesmo tendo impressa em nós a marca divina e mesmo sendo constantemente ensinados (por profetas, messias, missionários, etc.) sobre os caminhos para evitar o sofrimento, ainda escolhemos, em virtude de nosso livre-arbítrio, viver do modo como vivemos. Mas por que escolhemos mal? Será que não teria sido mais fácil se Deus nos tivesse criado perfeitos e evitado todos estes tipos de dificuldades?

Bom, primeiro isso não teria graça – qual valor daríamos para algo pronto, dado? Por outro lado, se Deus nos houvesse criado perfeitos, não teríamos sido feitos a sua imagem mas sim iguais a ele – seríamos então apenas suas cópias. Não seria mais palatável a idéia de que Deus nos teria deixado sujeitos a lei de progresso e que este progresso resultasse de nosso trabalho? Ou seja, os frutos são sempre colhidos por aquele que planta: tanto as benesses do bem realizado quanto as responsabilidades do mal que pratiquemos por nossa vontade.

A questão aqui não parece ser questionar por que Deus fez as coisas do jeito que fez – já que esta é nossa única realidade – mas sim entender qual seria então a origem em nós destas escolhas pelo “mal”, pelo destrutivo e sofrido.

Para responder isso[1] temos que ter em vista todo o processo de evolução do ser, desde as épocas mais primitivas de seu desenvolvimento intelecto-moral até hoje. Analisando as paixões e vícios que movem o homem no decorrer deste processo, podemos perceber o papel central do instinto de conservação. Instinto que se encontra com toda sua força nos animais e nos seres primitivos mais próximos da animalidade, nos quais é ele que domina. Com o desenvolvimento da inteligência e do senso moral, o instinto vai se enfraquecendo, cedendo espaço de decisão para as outras faculdades.

Desta forma, nas primeiras fases de sua existência corpórea, o Espírito deve cumprir somente exigências materiais – aqui o exercício das paixões é uma necessidade para sua conservação material. Gradualmente, outras necessidades vão se apresentando a ele, mais morais e menos materiais, até chegar a um ponto em que estas sejam apenas morais. Ou seja, neste ultimo ponto, existe o controle total da matéria e suas imposições, em que o Espírito se percebe cada vez mais livre e próximo do seu destino iluminado.

Mas se neste processo, descrito como um modelo geral, o ser se deixa dominar pela matéria, estaciona e se identifica com o bruto. Ou seja, se na medida em que suas necessidades se tornam mais morais e ele ainda se prende, por escolha, àquelas materiais, atrasa seu passo. Aqui, a necessidade que antes era natural, um bem, torna-se um “mal”, uma vez que não mais é uma necessidade premente. Muita coisa, por exemplo, que é qualidade natural nas crianças é um defeito nos adultos.

Disso deduz-se que o mal é relativo e a responsabilidade é proporcional ao grau de adiantamento do Espírito. Ou seja, o que para um ser é um “mal”, para outro não, é necessidade evolutiva. O que torna algum ato “mal” é o grau de consciência a seu respeito: se sei que tal ato é prejudicial para mim e para os outros e mesmo assim ajo, atinjo minha própria consciência que já sabe das conseqüências de tal ato e se ressente disso.

A quem mais é dado, mais será cobrado” – nesta fala de Jesus temos este princípio: para aquele que mais conhece, mais aprendeu, mais acumulou experiências, é maior a cobrança da própria consciência para arrumar o que estragou ou retificar caminhos.

Joanna de Angelis, no livro “Dias Gloriosos”, também nos ajuda a entender esta questão da origem e funcionamento do mal nos seres. Como já vimos, o mal que existe em nós é decorrência de elementos presentes em todo processo de desenvolvimento do homem (a luta pela vida, a lei do mais forte, a brutalidade, a astúcia) e que permanecem imperando, mesmo com o desenvolvimento da inteligência e dos sentimentos morais. São estes elementos que, atualmente, o homem vem aplicando contra si e contra os outros (excessos de vícios, guerras, roubos, ódios, homicídios, etc.).

Estas tendências seriam aquilo que Platão chamou de “face escura” e Jung de “sombra”– “local” no psiquismo onde permanecem os impulsos da violência, as paixões que escravizam e os instintos indomados. É este um mal que permanece no individuo mas que não deve ser reprimido ou esmagado com atitudes rígidas para não adquirir mais vigor. Deve ser, isto sim, identificado e trabalhado através de uma resistência ativa e consciente.

Para que tal resistência ocorra, é necessário o auto-exame para identificar os fatores que despertam este mal e o desencadeiam, predispondo os seres a agressão de todos os tipos. De um modo geral, o mal seria despertado em situações emergenciais, como um instinto de reação às aflições, pressões, agressões. Quando crianças, os desconfortos, os ataques, a dor nos causam reações que vão desde o choro (que reflete a impotência diante deles) ao medo ou a raiva (quando criança começa a ter reações de morder, bater, fugir). Este “mal” é inerente à infância – mas deve ser trabalhado pela educação. Senão, estes sentimentos na fase adulta tomarão vulto e se misturarão ainda com a vergonha e a culpa – que por sua vez geram mais medo e raiva, o que estimula a pratica do mal, seja como vingança seja como uma forma cruel de sobrevivência.

O homem tem medo da dor. Tudo o que pode levá-lo a sofrer é motivo de medo e raiva – e se estes sentimentos não são racionalizados e dominados, se exteriorizam como mal. Mas mesmo que o medo não possa ser muito controlado (se bem que possa ser racionalizado), a raiva pode ser administrada. Vemos então que o medo não é um sentimento de destruição, mas uma reação orgânica que desaparece quando a causa que a estimulou não existe mais. Assim, a ira, a raiva existem porque existe o medo da dor, do sofrimento, sendo uma exteriorização destes.

Ou seja, quando o indivíduo se vê sitiado de alguma forma, este mal nele existente (instintos de preservação ou de destruição) se transforma em fúria que enceguece, anulando a vontade e o raciocínio. O problema se torna maior na medida em que as atitudes decorrentes deste sentimento geram um sentimento de vergonha da própria inferioridade. Este sentimento de culpa leva o homem a sentir-se não merecedor de respeito de afeição, o que o faz tornar-se uma pessoa desconfiada e instável. A vergonha do ato praticado produz humilhação e rejeição, levando o ser a constantes batalhas mentais.

Uma pessoa madura, nesta situação, desperta e vai procurar os meios de reparar seus atos. Uma pessoa infantil, foge de vergonha do erro, procurando mecanismos de auto-justificação e autopunição – o que desencadeia o mal nela adormecido, que se converte em mágoa contra si mesmo e contra os outros (por isso que há pessoas que culpam os outros por terem criado a situação que o levou a agir de tal modo, sendo esta uma forma infantil de auto-justificar-se). Ele não consegue discernir, e a culpa sempre é dos outros.

Em resumo, o mal é um impulso inconsciente, automático, que emerge do abismo do ser como mecanismo de sobrevivência, e lhe desata tendências perturbadoras que se lhe encontravam jungidas. Estas tendências então não são produzidas pelo meio externo, mas apenas vem a tona diante dos estímulos. Ou seja, quando há o impulso latente do mal, os estímulos externos os despertam ou se já estiverem em ação, os vitalizam. O mal existente gera impulsos negativos que devem ser racionalizados, de modo tranqüilo, transformando a reação agressiva ou vil em ação dignificante e paciente.

No inconsciente do ser dormem milênios de impulsos automáticos – que a razão deve superar, depois destes serem decodificados e diluídos, cedendo lugar a ações edificantes. Como se vê, o mal é apenas a ausência do bem, ou seja, é, certamente, algo real que gera dor e perturbação, mas só existe por que ainda não se conhece os modos certos de agir diante da vida – ou seja, não se conhece as leis divinas.

6) O mundo de hoje e o mal nele presente
Tudo o que existe no mundo de hoje é decorrência então do império dos instintos que não mais cabem no momento evolutivo, de alto desenvolvimento intelectual. É o intelecto e o acúmulo de experiências que vai nos dando a noção e o discernimento entre o que é saudável ou não para a vida coletiva e individual. Estamos a duras penas aprendendo tal discernimento sendo que fatos que antigamente eram aplaudidos pela massa, hoje já recebem reprovação.

O “mal” no qual vivemos imersos não passa de um estado transitório do qual emana o bem, conduzindo o homem à felicidade pelo sofrimento e auxiliando seu progresso. Mas, para que possamos compreender como o bem pode resultar do mal é necessário apreender o conjunto das existências, do qual se pode ver as causas e seus efeitos interligados, em uma grande teia de acontecimentos.

Assim, quanto mais amadurecemos nosso entendimento da vida e de suas leis, quanto mais nos livramos das concepções materialistas, pessimistas e niilistas e mais nos imbuírmos da realidade de que somos seres espirituais, fadados ao brilho do progresso indefinido, eternidade afora, tudo se altera em nossa compreensão dos processos divinos de rearmonização pelos quais temos que passar, toda vez que cometermos alguma “loucura” no campo da vida[2].

Vivemos a realidade da construção íntima da paz e da felicidade, que não são dádivas imerecidas mas conquistas – tanto individuais quanto coletivas. Por isso estamos aqui na Terra, entre tantos seres em trabalhos purificadores e aqueles que ainda nem acordaram para sua realidade. Vivemos em um mundo bastante complexo mas ainda inferior, sendo que todos que aqui habitamos sofremos limites neste trânsito do instinto para a razão.

Para tal desenvolvimento, são várias as estratégias utilizadas pelas leis divinas. Principalmente aqueles baseados nos fenômenos que obedecem aos princípios atrativos e repulsivos do magnetismo humano: isto é, as criaturas vinculadas a uma mesma banda de freqüências mentais se buscam e se associam e passam a conviver atritando as deformidades morais. Neste atrito, tal como as pedras que rolam na correnteza dos rios, vão perdendo suas arestas, transformando sua opacidade íntima em brilho – tal como Jesus disse, “fazei brilhar a própria luz”.

De tal forma os pequenos ou grandes grupos de criaturas (nós mesmos) assinaladas pelo mesmo campo de necessidades, reúnem-se nos lares, cidades ou mesmo países. O psiquismo de cada um, em sua exteriorização, libera fluidos que criam um “clima psíquico” do grupo. Com isso, podemos criar zonas supremamente densas, de alto ní­vel de violência, de crueldade, de criminalidade, se os impul­sos exteriorizados são desse teor.

Dentro das experiências mais dolorosas, os indivíduos parecem nada mais enxergar diante dos seus olhos, a não ser a motivação enlouquecida em que se en­volvem. É como se estivessem num inferno de escuridão espessa, guardando a sensação de que há somente um caminho para resolver suas pendências.

Isso com certeza não significa que Espíritos envolvidos em contextos difíceis tenham vindo ao mundo para perder a oportunidade, ou simplesmente para sofrer. Na verdade, são criaturas que não têm a necessária ma­turidade do senso moral para chegar à Terra e mergulhar, corajosamente, no oceano das oportunidades felizes que Deus nos oferece. Dado o seu estado de fragilidade moral, sua localização nessas zonas faz parte do amor divino, quando lhes permite defrontar-se com outros in­divíduos portadores do seu mesmo problema; de impul­so similar. Graças ao choque de semelhantes acabam por cansar-se, pouco a pouco, das tendências de que são portadores, desenvolvendo nova consciência a respeito das relações humanas. No referente às leis do psiquismo, os semelhantes se atraem reciprocamente, o que lhes permite o gradativo auto-exame ao examinar o outro.

Paralelos a esses núcleos de loucura, violência e dores acerbas, que visam descristalizar estruturas congela­das da alma humana, há outros cuja finalidade é a de reu­nir devedores das leis eternas, nos quais o mundo psíquico acha-se adensado por remorsos decorrentes de repetidas atitudes infelizes.

Esses núcleos são formados por indivíduos que, sozi­nhos ou em grupos, disseminaram penúria, covardia, do­enças através do poder que detinham antes da morte. Hoje, são viti­mados por “fatalidades” das quais não conseguem libertar­-se. Vivem em regiões de graves endemias ou pandemias, em condições subumanas, sob governos indiferentes ou desestruturados econômica, política e moralmente. Nes­sas condições, são compelidos a assistir a fome dos filhos, a doença nos seres queridos. Da forma em que se vêem, sem vez nem voz, sendo, intimamente, corroídos por secreta intuição de que tudo tem um razão de ser, embora as coisas não precisas­sem ser assim.

Mas nunca nenhum ser está abandonado pela misericórdia de Deus. Seu amor está permanentemente presente auscultando as disposições das almas e atendendo-as de conformidade com suas carências e buscas. Mesmo não parecendo, as almas reencarnadas nas varias regiões de dores no Planeta, cujos vórtices de energia mental são alimentados e impulsiona­dos por sua vontade, vão, ao longo do tempo, sentindo-se cansadas com a densidade e a dificuldade que alimentam.

O mundo terrestre conta com muitas “zonas expiatórias” que são, por sua vez, regiões de reequilíbrio de grande contingente de filhos de Deus que, durante muito tempo ainda estarão tentando atear fogo aos campos da humanidade inteira, ou estarão envol­vidos em processos de barbarismos contra seu semelhan­te, batendo no peito como donos da razão e senhores da verdade. Deus, contudo, aguarda que na grande fogueira por eles mesmos montada, queimem-se, ainda que vagarosamente, os fluidos pestilenciais que vão dando margem ao aparecimento de fluidos salutares, que irão preenchen­do os vazios morais do planeta.

Estas localidades são regiões de reequilíbrio para onde indivíduos das mais diversas procedências terrenas são conduzidos para que renasçam ali, considerando o estado da alma, os níveis de tormento, de ódio enraizado ou de beligerância a sair do próprio íntimo. Assim, aprenderão a buscar a saúde interna, o equilíbrio da mente, cansando-se da lou­cura de ações irracionais, dos derramamentos de sangue, da sanha da destruição degenerativa, desistindo, por fim, de tanto pranto derramado pelos pretensos inimigos, que não passam de irmãos seus, e por si mesmos. Começarão a sensibilizar-se com as propostas de paz…

E dado o fato de sermos imortais, o Criador vai-nos conceden­do tempo devido para que todos nos possamos conscientizar do compromisso de avançar pela senda do progresso, que nos trouxe à Terra, verificando como andam nossos impulsos perniciosos, bem como nossos movimentos para Deus.

Assim, a crença no mundo de hoje, na vida e nas pessoas depende de uma visão de continuidade, mais ampla, que abarque todo o processo evolutivo planetário e humano, que levem em conta os atributos divinos e suas leis, que entenda as redes interligadas de causas e efeitos e que sinta em si a esperança e a grande oportunidade de vivermos em um mundo que nos coloca tantos desafios.

Inadiável será aproveitar a presente oportunidade reencarnatória, na Terra que se transforma, aos poucos, em agradável e feliz moradia sideral, a fim de cooperarmos com Cris­to que tanto investe nas possibilidades de progresso do Seu rebanho, e para que nos tornemos agentes do amor e semeadores da paz, nossa coroa sublimada, nosso refúgio de luz.

[1] Kardec, A Gênese: Capítulo III, Item 10.
[2] As palavras deste parágrafo são retiradas do belíssimo livro “A Carta Magna da Paz”, de Camilo – psicografia de Raul Teixeira. Não apenas este parágrafo como os restantes são reconstruções das palavras/argumentos ou mesmo citações literais deste livro.

Leia a versão integral deste texto, na forma de uma Carta escrita para alguém que crê e em Deus mas que não entende porque o mundo está como está. Clique aqui: artigo-evolucao-e-mundo-atual.doc

Eu só o escrevi para tentar consolar um ser amado…

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  5. I. O mundo tem um sentido? Reflexões sobre a vida e o mundo a partir da filosofia espírita

  6. II.O mundo tem um sentido?Reflexões sobre a vida e o mundo a partir da filosofia espírita. PARTE II


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